Para quem vê, a palavra “casa” remete imediatamente para a imagem de um quadrado, com portas e janelas, e um triângulo no seu topo, simbolizando o telhado. Mas que forma tem uma casa para quem nunca viu uma? Essa é uma das muitas perguntas a que se procura responder no livro Uma Casa é uma Montanha é um Chapéu, da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Um livro que tanto pode ser lido como sentido!

Letras grandes, texto em braille e imagens em relevo… Uma Casa é uma Montanha é um Chapéu é um livro para crianças que se debruça sobre o conceito de “casa”, com textos de Filipa Tomaz e Letícia Carmo, ilustrações da premiada Yara Kono, do Planeta Tangerina; e com conceção tátil e acessibilidade de Fátima Alves, da Locus Acesso

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Foto: Catarina Ferreira

“O livro retrata várias vertentes da arquitetura: a relação da casa com o ambiente, a cidade, a paisagem e o bairro”, explica Filipa Tomaz. Para se imaginar uma casa, podemos, pois, ter como referência um chapéu, ou uma montanha. “A casa abriga-nos, tal como o chapéu. A montanha pertence-nos, é-nos próxima”, diz Letícia Carmo. 

É um livro que vive do seu texto, claro, mas também das ilustrações: a quatro cores e em relevo, para que sejam vistas e sentidas. “Há uma proposta de interação, entre a criança que vê e a que não vê”, acrescenta Letícia. “Permite esta relação de ensino e aprendizagem mútua.”

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O livro tem ilustrações em relevo. Foto: Catarina Ferreira

Arquitetura para miúdos 

A ideia de criar um livro sobre arquitetura direcionado aos mais novos, e que fosse acessível para todos, era já uma ideia antiga. Tudo começou em 2017, quando a Trienal de Arquitectura de Lisboa tornou as suas visitas anuais do Open House Lisboa acessíveis a pessoas cegas, com baixa visão, surdas e com deficiência cognitiva. Para tal, precisou de ajuda da Locus Acesso, uma agência que faz consultoria em acessibilidade cultural. 

“Temos vindo a afinar como é que essas visitas acontecem, e é daí que se começa a formular a ideia de se fazer um livro acessível”, recorda Filipa. A equipa juntou-se entretanto: Filipa Tomaz convidou Fátima Alves para o projeto, assim como Letícia Carmo, que fora voluntária no Open House Junior; e Yara Kono, ilustradora da Planeta Tangerina. 

O primeiro desafio passou pela escrita do texto: afinal, como se explica o conceito de “arquitetura” aos mais novos?

Como o trabalho no Open House passa também pela formação de mediadores que comuniquem sobre o espaço com o público alargado, Filipa e Letícia estavam já mais que habituadas a “trocar por miúdos” os termos mais técnicos. E, por isso, as autoras empenharam-se em sintetizar ao máximo os conteúdos, tornando-os atrativos para os mais novos: “Queríamos que as páginas tivessem ritmo, cadência.” 

Numa das páginas, as autoras estabelecem a relação da casa com o corpo humano: “A fachada é a cara, as janelas dão para ver, tal como os olhos, mas também se abrem, permitindo à casa respirar…”, explica Letícia. 

Mais à frente, recordam as diferentes funções das divisões de uma casa, sem se esquecerem de abordar questões relacionadas com a transformação energética. Viajam também pelas diferentes casas do mundo: “Exploramos o facto de as casas terem determinadas características, e algumas até serem vaidosas!”, conta Filipa. E escrevem sobre a escala de proximidade de uma criança, que remete para espaços como a escola, a biblioteca, o parque infantil.

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No livro, a casa é comparada ao corpo humano. Foto: Catarina Ferreira

Para ser lido com as mãos

Com os textos prontos, era altura de pensar as ilustrações. “O desafio passou por manter as características de um livro ilustrado e torná-lo acessível”, explica Yara Kono, que nunca antes fizera ilustrações em relevo.

Quando o texto lhe chegou às mãos, começou por fazer alguns protótipos, recorrendo à sua técnica predileta: a colagem. Durante o processo criativo, acabaria por criar uma personagem, a Lina, que não surge no texto, mas que se tornou uma referência na ilustração. “Foi uma personagem que surgiu naturalmente mas acabou por ser um elemento importante”, conta a ilustradora.

A ilustradora fez o livro duas vezes: uma primeira, com as ilustrações em quatro cores, e uma segunda, em vetores para que fossem cunhadas as matrizes para a ilustração em relevo. Estes dois tipos de ilustração têm algumas diferenças, especialmente a partir do momento em que se entra no interior da casa, e começam a surgir mais detalhes.

Fátima Alves explica o porquê de se ter optado por ilustrações diferentes em determinadas páginas: “A visão e o tato não estão ao mesmo nível, não há outra opção se não reduzir a informação em relevo, mas também não simplificar demasiado, queremos desafiar o leitor.”

Filipa Tomaz relembra que uma pessoa que vê vai geralmente procurar com as mãos um detalhe na ilustração, mas, para quem não vê, as mãos vão procurar toda a imagem. “Já aprendemos a guiar as mãos das pessoas, e já assistimos a muitos momentos do ‘ah! esta é a maçaneta!’, porque há elementos que se repetem, há referências”, conta a arquiteta. 

As ilustrações passaram, pois, por vários acertos, de forma a assegurar-se que, em relevo, teriam leitura. E foram testadas em várias escolas, com alunos cegos e de baixa visão, até se chegar a um resultado que agradou a equipa.”Inicialmente, as ilustrações vinham muitos cheias, com muita informação, e fui limpando”, esclarece Yara.

Um livro que é também um desafio 

Com os textos e as ilustrações prontas, ainda havia muito para se decidir em relação à apresentação do livro. O objetivo era, claro, torná-lo o mais acessível possível. E, para isso, foram feitos vários esforços para que qualquer um o conseguisse ler e sentir: escolheu-se um tipo de letra adequado para quem tem baixa visão, optou-se pelo formato A4, na horizontal, porque é mais intuitivo para uma criança sentir o relevo das páginas.

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Foto: Catarina Ferreira

Mas todas estas opções foram tomadas sem se esquecer que o leitor tem de ser também desafiado. “A ideia de desafiar o leitor é reforçada com este livro”, explica Yara Kono. Todo o tipo de leitores são, pois, desafiados a descobrir os vários significados presentes nestas páginas: quer seja através da leitura, das imagens ou da textura.

E este processo de descoberta pode ser vivido em conjunto. Para as autoras, aí reside a beleza desta obra: na possibilidade da partilha e de interação.

Letícia recorda-se de ter visto, na Livraria Santiago, em Óbidos, no âmbito do festival FÓLIO, um menino debruçado sobre o livro, com a sua mãe, e uma série de outras crianças a rodearem-no, querendo também experimentar sentir as páginas.

O livro torna-se, pois,  uma experiência para ser vivida em conjunto. “Há qualquer coisa na relação que se cria quando alguém lê o livro, e o outro o sente. Nós estamos a perder essa relação com o livro”, diz Filipa.



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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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