Há um cartaz que tem a frase batida mais bonita de sempre, é sobre o 25 de Abril de 1974 e diz que “A poesia está na rua”. É essa frase batida que nos vem à memória quando conhecemos a Aletria, uma biblioteca itinerante, numa carrinha verde, que nasceu há dois anos da vontade de três amigos de partilharem o amor pelos livros, pela leitura e por Almada, a cidade onde cresceram. Porque a Aletria também é sobre uma ideia para a cidade – mas já lá vamos.
A poesia está na rua porquê? Aqui percebe-se porquê: uma carrinha verde, toda forrada a madeira por dentro, com estantes de livros e banquinhos e almofadas e um fio de luzes em forma de estrela. Pensado ao pormenor para ser confortável e acolhedor e apetecer entrar, estar, explorar como quem explora uma biblioteca antiga, o escritório do avô ou um sótão dos livros da Enid Blyton.
E está na rua, sobretudo nas ruas da cidade e do concelho de Almada, mas também de outros lugares para onde a chamarem, como Santiago do Cacém ou até o Porto – aonde se aventurou recentemente a convite do Serralves em Festa.
“A rua é o centro do mundo, é onde acontecem as revoluções, é onde acontece o amor, e é mesmo importante que as pessoas não se fechem nas bolhas das suas casas, das suas famílias, das suas redes sociais, das suas rotinas de ratinho na roda. É preciso que existam bons pretextos para isso e a Aletria é um bom pretexto”, resume João Tempera, um dos fundadores.



A Aletria é uma biblioteca itinerante e, para alguns, é como um cruzamento com a velha infância lá da terra, longe, onde os livros, raros, vinham de tempos a tempos, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian – um projeto idealizado pelo escritor Branquinho da Fonseca e concretizado em 1958, a convite de Azeredo Perdigão, então presidente da Fundação.
Ao contrário desses tempos, hoje, e em Almada, não é que faltem livros, ou bibliotecas.
O concelho tem três bibliotecas municipais e até criou recentemente a própria biblioteca itinerante, a Bia. Mas faltam leitores, crianças a brincar na rua, comunidade, convívio, partilha. E foi para ajudar a encher esse vazio e contribuir para pensar e ativar a cidade que a Aletria nasceu e se apresentou pela primeira vez ao público, no dia 20 de maio de 2022, na edição desse ano do Festival Sementes – Mostra Internacional de Artes para o Pequeno Público (organizado pelo Teatro Extremo, companhia sediada em Almada, que conta com 30 anos de atividade e 29 de Sementes).
A ideia nasceu de três amigos… e do amor que dizem ter aos livros.
Três amigos e um sonho que ganhou rodas
João Tempera, ator, Luís Pulido, músico e professor de música, e Susana Pires, mediadora artística e professora de História e de Cidadania e Desenvolvimento, são amigos há muito tempo e os livros foram o ponto de encontro deles.
“A Aletria surge daí, de uma amizade que é muito sustentada por conversas à volta dos livros e das questões e interesses que suscitam”, diz João Tempera, que conheceu a Susana quando ela, adolescente como ele, lhe bateu à porta de casa para um inquérito sobre leitura que estava a fazer para a disciplina de português.
Ficaram amigos.
Conheceu o Luís mais tarde, na esplanada do Chá de Histórias, na Rua Cândido dos Reis, em Cacilhas – onde também havia livros e música e jogos antigos e artes. O João e o Luís paravam lá, cada um com um livro na mão, o Luís também com a guitarra. Um dia, o João percebeu que o Luís estava a ler o Walden ou a Vida nos Bosques, do Thoreau, e meteu conversa.
Ficaram amigos.

E, há uns anos, os três começaram a pensar que queriam fazer juntos alguma coisa ligada aos livros e à cidade que adoram.
“Somos os três agentes culturais em Almada e sempre estivemos ligados a associações, a grupos de teatro amador, a bandas e outras comunidades criativas e queríamos fazer alguma coisa que ativasse a cidade e, tanto melhor que fosse com aquilo de que gostamos tanto: os livros”, explica João.
Puseram a hipótese de uma livraria, mas uma livraria é um negócio e não é um bom negócio, sabiam. Por que não, então, uma biblioteca itinerante que levasse livros a todo o lado?
A ideia foi amadurecendo e a oportunidade de a concretizar materializou-se através de um programa de apoio municipal a associações – o RMAPA – com várias linhas de financiamento, entre as quais uma para aquisição de veículos, outra para equipamentos e outra para sustentabilidade.
“O João e a Susana é que fizeram a candidatura, através da Associação Cultural Casa Invisível, e foi uma surpresa quando foi aprovada, porque normalmente quem concorre são IPSS, que têm, por exemplo, transporte de idosos ou de crianças”, lembra Luís Pulido. “Penso que o nosso projeto era inédito, mas, de repente, havia parte do dinheiro necessário para adquirir um veículo e para o transformar por dentro em biblioteca e havia um prazo para pôr o projeto em prática, senão perdíamos o financiamento. Implicou também investimento nosso, que de repente tivemos de juntar, mas avançámos”, diz Luís.
O sonho afinal tinha rodas para andar.


O encontro com a carrinha verde para quem anda “espantado de existir”
Começaram à procura de uma carrinha que correspondesse ao que tinham imaginado. Tinha de ser alta o bastante para se poder andar em pé lá dentro. Tinha de ser larga o suficiente para ter estantes de um lado e de outro e espaço para os leitores. Tinha de ser relativamente nova para ter ainda muita estrada para andar.
Encontraram e, com a ajuda de um amigo que tinha uma oficina de reconstrução de caravanas, a Arr Vans 4 U, transformaram-na numa biblioteca.

“Foi a primeira vez que ele converteu uma carrinha numa biblioteca, mas ficou exatamente como tínhamos imaginado, muito romântica, toda revestida a madeira, para ser confortável e remeter para as bibliotecas antigas”, diz João Tempera, que nunca se cansa de ver o maravilhamento de crianças e adultos quando olham a Aletria pela primeira vez.
Esse espanto é a senha para entrar neste lugar livre e aberto a todos, mas que à “porta” tem sempre um letreiro que diz: “Proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”, uma frase de um livro, Aventuras do João Sem Medo, do José Gomes Ferreira.
Uma “curadoria exigente”
As estantes foram-se enchendo de livros doados por editoras que generosamente responderam ao apelo dos três “bibliotecários”, assim como de pessoas particulares ou mesmo autores, que se vão cruzando com o projeto.
Mas não se pense que não houve, e não continue a haver, uma escolha criteriosa dos livros que ocupam as estantes da Aletria, para consulta e empréstimo.
“Conseguimos construir um acervo de qualidade relativamente depressa, mas para nós era muito importante que os livros das nossas estantes, como o João costuma dizer, fossem livros que pudéssemos e quiséssemos recomendar, como leituras que eventualmente possam transformar uma vida”, explica Luís Pulido.
Por trás destas estantes, “há uma curadoria exigente”. “Mas que tem muito de nós, porque encaramos isto como um trabalho artístico também. Esta carrinha é um objeto artístico que anda pela rua, tem um conceito e ela própria é esteticamente bela. O conteúdo, em grande medida, é um reflexo do que nós somos”, diz João Tempera.


Dentro da Aletria, há lugar privilegiado para os grandes autores lusófonos, os grandes clássicos da literatura, os melhores livros infantis e juvenis, os ensaios, a filosofia, a poesia, e até as enciclopédias (para quem não sabe o que é uma enciclopédia), mas também para obras de autores emergentes ou das chamadas periferias. A seleção de livros é um processo dinâmico, “um work in progress”, como lhe chama o João.
“É um trabalho que está sempre em construção, porque nos vão continuando a oferecer livros e a comunidade também tem sido muito generosa, mas é uma biblioteca onde, quando os leitores entram, percebem que está aqui uma coisa séria, que há uma proposta”, diz João Tempera.
Oficinas, jornal da escola e uma ideia para a cidade
A Aletria é uma biblioteca itinerante, mas é mais do que isso. Quando poisa, abre as portas para dentro, mas também para fora. Faz-se esplanada, auditório, fórum, espaço de oficinas, debates, lançamento de livros, música, convívio, partilha de ideias e de projetos.
“É uma espécie de centro cultural móvel, um serviço público que prestamos à cidade de Almada e que tem também uma dimensão forte de cidadania e de pensamento sobre a cidade”, diz Luís. “Sim, também é um instrumento para construirmos cidades mais felizes, mais ativas, com mais gente na rua, para que a comunidade tenha pontos de encontro”, concorda João.
Quanto mais as escolas, os museus, as bibliotecas, a música, o teatro, as artes vierem para a rua, melhor, pensam eles.




O próprio modo de “funcionamento” desta biblioteca itinerante reforça a ideia de partilha e comunidade: crianças e adultos podem entrar e ler ou consultar um livro, mas também podem levá-lo emprestado e entregar da vez seguinte que a Aletria sair à rua ou num dos parceiros do comércio local que servem como ponto de recolha – a livraria Escriba, a Drogaria Central – Loja de Discos ou a Tostaria – Chá de Histórias.
“Isso não só facilita a vida das pessoas como as leva a conhecer sítios que se calhar não conheceriam se só nos entregassem os livros a nós”, explica Luís.

Desta ideia de criação de comunidade e ativação da cidade saiu também um dos projetos mais acarinhados pela Aletria, o trabalho com os alunos do Agrupamento de Escolas Emídio Navarro na edição do jornal escolar Mar da Palha, que já vai no segundo ano e acolhe todos os alunos que queiram participar. Há reuniões de redação periódicas, troca de ideias, planeamento, edição, organização de iniciativas.
“Fazemos uma tertúlia semanal e são eles que trazem as ideias. A Aletria pousa na escola, dispõe a esplanada e os alunos vão-se aproximando. Há uns que são regulares, outros vão experimentando, discutimos os assuntos que cada um está a trabalhar ou quer começar a desenvolver e isto é uma forma de abrir a escola à comunidade, de sair do rame-rame. Sentimos, com este projeto, que estamos mesmo a acertar no ponto”, diz Luís.
O lugar onde não se manda ninguém calar
A Aletria é também um projeto político, não partidário, mas político, no sentido em que funciona como uma espécie de fórum onde as pessoas se encontram e refletem e debatem sobre a cidade, a democracia, as questões climáticas, as questões de género, o racismo, a exclusão, a ascensão da extrema-direita, o que for.
“Queremos contribuir para empoderar as pessoas e ser um lugar de discussão séria e sustentada sobre questões de cidadania”, diz João.
Um pouco a recuperação daquela cultura dos cafés enquanto espaço de tertúlia e convívio e reflexão, daí a esplanada. “Almada tinha muito essa cultura, que tem vindo a perder-se. Sempre foi uma cidade criativa. Queremos recuperar isso”, acrescenta.
E têm recuperado.
Nas oficinas criativas, por exemplo, constroem-se livros tridimensionais, inventam-se histórias, contam-se outras, constroem-se teatrinhos e criam-se as personagens para habitarem esses teatrinhos, faz-se música, fala-se de música e de livros e de teatro.
E não há silêncio nesta biblioteca? Não tem de haver, mas às vezes há e não é um silêncio imposto, decorre da atenção e do foco no livro que se está a ler ou da atividade que se está a desenvolver.
“Antes de responder a essa pergunta, queria responder a outra, sobre a diferença da relação de adultos e crianças com a Aletria”, diz Luís. “É interessante, porque as crianças são mais corajosas, têm menos pudor em explorar, digamos assim. São capazes de tomar conta da carrinha. Com os adultos, se não vêm acompanhados de crianças, às vezes temos de fazer algum esforço para os atrair. Porque a Aletria é para todos e então temos de fazer um pouco esse exercício de dizer às pessoas, entra, entra, isto é para todos, não é só para as crianças.”


“Mas sobre o silêncio”, diz o João, que ficou a pensar nisso, “a Aletria é um espaço absolutamente informal e livre, até os cães podem entrar, mas há pessoas que tiram os sapatos para entrarem”.
“É tão bonito, dez sapatos de crianças à entrada sem que alguém lhes tenha pedido se descalçarem. Tiram os sapatinhos para entrar como se fosse quase um sítio sagrado.”
Como dizia uma senhora mais velha, que por lá passou e se emocionou ao conhecer a Aletria: “Eu estou a olhar para vocês e para esta carrinha e estou a viajar no tempo, até à minha infância, quando as bibliotecas da Gulbenkian vinham à minha terra, perdida lá num monte, trazer alegria e mundo à comunidade toda” – é o João que reproduz as palavras da senhora. E isso é o que a Aletria quer fazer também: encher Almada de vida, alegria, histórias, amor e livros.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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