Pedro Flores, funcionário da Fundação Minerva da Universidade Lusíada, deambulava pela internet quando encontrou um artigo da Mensagem, publicado em fevereiro deste ano, sobre um beco que conhecia bem, o da Travessa Artur Lamas, na fronteira entre Belém e Alcântara, no mesmo bairro onde ficam os edifícios da Lusíada, onde Pedro trabalha.
O texto contava a história de um grupo de vizinhos, moradores de um bairro de dois quarteirões entre as duas freguesias (uma “espécie de triângulo das Bermudas”, como lhe chama a vizinha Luísa Baltazar), que lutavam para transformar aquele beco inóspito – e habitualmente ocupado por carros. Ali, sonhava-se com um espaço de convívio com árvores e bancos, um bairro onde não existe nenhum e onde o calor se faz sentir com intensidade.
O grupo lançou uma petição para o efeito (que apresentou à Junta de Freguesia de Belém) e, ao longo do tempo, promoveu ações no espaço, como a projeção de filmes, a retirada dos carros e a celebração do Dia do Vizinho.
Mas Pedro quis levar a ideia mais longe: e se aquele beco fosse transformado pelos alunos da universidade onde trabalha?
A ideia foi partilhada com Mariana Pereira, do grupo de vizinhos, que a recebeu com entusiasmo. “Afinal, a Universidade é nossa vizinha!”, disse. E o desafio foi lançado pelos professores Pedro Silva e Rui Dias aos alunos de Design do 2.º ano de licenciatura da Universidade Lusíada.

O resultado ficou à vista de todos esta segunda-feira, dia 17 de junho: foram apresentados seis esboços do que poderia vir a ser a Travessa Artur Lamas, um evento na universidade que contou com a presença do grupo de vizinhos que encabeçou esta luta. Todos os projetos propunham a transformação do beco num espaço de convívio e lazer para os moradores.
“Fiquei tão entusiasmada pelo facto de não vermos o beco sem nada!”, diz Mariana Pereira. “Percebe-se que os alunos tentaram pôr-se no lugar dos moradores e levaram as nossas ideias para os projetos: os espaços verdes, as crianças…”.



Mas nem Mariana, nem Pedro, nem estes alunos querem que a ideia fique pelas maquetas. Por isso, o grupo de vizinhos levou as ideias desenvolvidas pelos alunos à Reunião Pública Descentralizada da Ajuda, Alcântara e Belém, que teve lugar esta quarta-feira, dia 19. O futuro do beco, embora ainda incerto, começa a ganhar forma.
Esta história prova o impacto que uma história, quando partilhada, pode ter, e faz parte dos muitos exemplos de impacto que a Mensagem reúne, graças aos leitores. Ajude-nos a continuar esta missão de fazer a diferença na cidade e contribua aqui – ou enviando ideias para geral@amensagem.pt
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O que propõem os projetos?
Um espaço para ler, brincar e conviver
“A nossa ideia era atender a todas as necessidades dos moradores e tornar o beco num espaço agradável”, diz Gabriela Santos, porta-voz do primeiro grupo a subir ao púlpito, que conta ainda com a aluna Mariana Martinho.
Neste projeto, o espaço divide-se em quatro zonas:
- A zona de leitura, “um espaço fechado e acolhedor”, com um banco de madeira e uma espécie de “ovos”, onde as pessoas poderão, claro, ler;
- A zona infantil, onde surge um quadro para desenhar, uma caixa de areia e alguns jogos;
- A zona de convívio, com mesas para picnic e lugares de parqueamento para bicicletas. Aqui, a sombra é proporcionada através de ripas de madeira com trepadeiras, permitindo assim isolar o som;
- A zona do mural, que será pintado e, onde, na sua parede de fundo, haverá canteiros para plantar.

Um jardim vertical e gravilha para os carros
“O nosso projeto é muito simples e acessível, é praticamente todo feito em madeira”, explica Maria Ferreira, a porta-voz de um grupo também constituído por Ana Rita Santos e Carlota Coutinho.
No projeto, prevê-se:
- Uma zona de convívio, com mesas de picnic, ladeadas por canteiros; e bancos, ladeados por árvores;
- Uma zona infantil, com uma estrutura para se fazer escalada, um jogo da macaca desenhado no chão e um baloiço;
- Um jardim vertical;
- A zona do mural, decorado ao gosto dos moradores, e onde se poderia continuar a realizar a projeção de filmes.
Todas estas zonas seriam pavimentadas com calçadas. No entanto, na zona de entrada de carros, o pavimento seria em gravilha, obrigando-os assim a abrandar.

Um espaço para a cicloficina e um parque para cães
Frederico Viana, Fábio Costa e Gonçalo Gago contam ter criado um espaço “multifuncional”. “Queríamos projetar um espaço com um custo baixo e que fosse funcional”, explica o grupo. E um espaço que se dirige a três grupos: aos ciclistas, às famílias e aos donos de cães.
No beco, prevê-se:
- Um espaço para a cicloficina, que se realiza na Travessa Artur Lamas todas as primeiras quintas-feiras de cada mês;
- Uma zona verde, onde se poderia criar um parque para cães;
- Uma área de convívio, com mesas e uma árvore no seu centro.
“Optámos por um layout mais convidativo, mantendo o acesso aos carros, mas as pessoas poderiam assim aproveitar o espaço de outra maneira”, diz Gonçalo.

Módulos de cimento para sentar, ler ou plantar
“Procurámos trabalhar o espaço dando liberdade aos vizinhos”, sublinha o porta-voz Rodrigo Cruz, acompanhado de Ana Sofia e Arine Garshenina.
O projeto deles parte da criação de módulos de cimento, que tanto podem servir como banco, mesa ou até mesmo como vaso para cultivo de plantas no seu interior. “Todos estes módulos são de livre uso, e podem ser movimentados”, diz Rodrigo.
O espaço surge dividido em quatro zonas:
- Uma zona rápida, onde as pessoas se podem sentar nos módulos;
- Uma área mais resguardada para as famílias, com mesas de jogo (tabuleiros de damas e xadrez);
- Uma zona para as crianças brincarem (com o jogo da macaca e o jogo do galo desenhados no chão);
- Uma outra área de resguardo, com sombra criada a partir de fitas, onde as pessoas se podem sentar e até socorrerem-se dos livros guardados no interior dos módulos.
O projeto conta ainda com um canteiro, onde as pessoas poderiam plantar.

Um espaço intergeracional, com um mural de vizinhos
Joana Bento e Lúcia Gomes propuseram-se a criar um “espaço intergeracional”, dividido nas seguintes zonas:
- Uma zona de convívio, com mesas para jogar xadrez;
- Uma zona infantil, com múltiplos jogos para as crianças (jogo da macaca, jogo do labirinto, jogo dos caminhos, jogo do salto);
- Uma segunda zona de convívio;
- Um jardim vertical com um baloiço;
- A zona do mural, com um desenho que representa os vizinhos nas suas casas.
Todas as estruturas foram pensadas em madeira de pinho, exceto um bebedouro (em aço inoxidável). Já o pavimento seria todo em betão desidratado, exceto na área do baloiço e nas áreas com árvores (que seria em relva).


Blocos de terra num espaço de formas curvas
Um espaço “escultórico”, é assim que Joana Neto e Inês Martinho descrevem o projeto que idealizaram para a Travessa Artur Lamas. “O nosso projeto foca-se em ser diferente daquilo que é expectável, no quebrar a ideia de cidade, de caixa, de beco, de selva de cimento, como se costuma dizer”, explica a porta-voz Inês.
O espaço surge em formas curvas, construído com blocos de terra, revestidos industrialmente por camadas protetoras. Entre estes espaços, surgem áreas de repouso, onde as pessoas podem conviver. “É um espaço versátil, não implementámos um espaço para crianças, mas as crianças podem experimentá-lo”.
Por cima da estrutura em blocos, surge uma cúpula revestida de plantas, um espaço de sombra. “É um projeto muito focado no natural, no verde, no orgânico, na ecologia”, remata.


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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Bom dia Ana da Cunha,
obrigado pela excelente reportagem, com o vosso contributo, a cidadania terá uma voz independente e sem filtros.
Queria deixar apenas uma nota relativo a este artigo e realçar que esta apresentação dos alunos de Design de vários projectos, para serem concretizados tiveram que contar com a adesão e colaboração dos respectivos Professores de Design Pedro Silva e Rui Dias, porque ao vincularem para avaliação curricular deste tema, elevaram o grau de exigência e de rigor nos trabalhos.
Obrigado “mensagem de Lisboa”
Atenciosamente
Pedro Flores
Olá, Pedro! Muito obrigada pelo seu comentário! Vou acrescentar no texto! Até breve! 🙂