Mobilidade, inclusão, cidadania, empatia e respeito. Esses foram os principais temas que desfilaram pelo Arraial Inclusivo de Alvalade numa “marcha” diferente e importante, o debate Cidade Para Todos.
A conversa reuniu convidados com mobilidade condicionada, e a Representação da Comissão Europeia em Portugal, a Associação Salvador e da Junta de Freguesia de Alvalade, parceiros no primeiro Arraial Inclusivo de Lisboa e foi no Complexo Municipal São João de Brito, onde acontece o Arraial de Alvalade, que nesta edição aceitou o desafio da Mensagem para fazer o que deveria acontecer naturalmente em todos os arraiais de Lisboa: adaptou os espaços, as programações e as condições de acessibilidade para poder receber todos e todas.

A limitação que não é só dos arraiais, mas de Lisboa e de outras cidades portuguesas de uma forma geral, como ficou claro com o depoimento de quem tem de enfrentar diariamente os obstáculos físicos e emocionais para realizar tarefas do dia-a-dia como ir ao trabalho, às compras ou passear.
É o caso do jornalista Tomás Delfim, antigo repórter da Mensagem de Lisboa, hoje no Jornal Expresso, que abriu a ronda de depoimentos, moderados pela diretora de redação da Mensagem, Catarina Carvalho.

Independente como qualquer jovem, Tomás cruza Lisboa, de Alhandra onde mora até Oeiras, onde fica a redação do Expresso, numa sequência de trocas de transportes públicos, entre autocarros e comboios. Um percurso que o ensinou a prestar atenção nos desafios a quem tem algum tipo de condicionamento, no caso dele, visual.
“Os avisos sonoros dos sinais são um bom exemplo, ou têm o volume muito baixo ou, quando estão muito próximos um dos outros, confundem-se entre si, induzindo a quem precise dele a atravessá-lo no momento errado”, exemplifica o jornalista.
Tomás Delfim sublinha que parte dos obstáculos poderiam ser facilmente resolvidos por quem tem a responsabilidade de solucioná-los, o poder público. “A minha deficiência é a visão, mas mesmo assim posso olhar o desafio que é andar por Lisboa para quem tem alguma limitação motora”, completa Tomás Delfim.
É o caso das rampas de acesso aos passeios, ou por exemplo como entrar numa loja, como sublinhou a ativista de mobilidade Marta Canário, que também é fotógrafa amadora dese que comprou uma cadeira de rodas motorizada, que lhe permite cruzar Lisboa a recolher imagens, muitas delas a retratar o olhar especial de quem vê a cidade na perspectiva especial de quem tem os movimentos condicionados.

“Em muitos casos, chega a ser ridículo. Há uma rampa num lado da via, mas no outro, não, o que nos obriga a fazer marcha-atrás. Em muitas situações naturais para os outros, como para ir de um bairro a outro, sinto que precisaria ter asas”, exemplifica.
Se transitar entre bairros diante de uma geografia urbana cruel para quem tem os movimentos condicionados já é difícil, imagine cruzar as cidades. Esse foi o alerta trazido por Carlos Filipe, da Associação 3 C’S, que mora na Margem Sul e costuma ir de comboio a Alvalade, onde integra o Conselho Social da Junta.

Também a conduzir uma cadeira de rodas, Carlos Filipe conta que sempre precisa contactar os serviços da empresa de comboio para que um funcionário o auxilie a entrar e um outro, a sair, em cada um dos pontos da sua jornada.
“Nem sempre, a linha telefónica está disponível. Ainda há a angústia de entrar no comboio e não ter a certeza de que haverá alguém do outro lado a nos esperar”, relata.
Para o especialista em mobilidade Diego Martins, também ele a percorrer a cidade numa cadeira de rodas, a resolução desses e de outros problemas trazidos ao debate passa pelo ajuste da legislação específica e, principalmente, da fiscalização que obrigue o respeito às leis.

Leis que podem ser adotadas não só em Lisboa e em Portugal, mas em toda a Europa, como salientou a representante da Comissão Europeia, Sofia Moreira de Sousa, que, atenta, tomou nota das observações trazidas pelos participantes.
“Algumas são bastante óbvias e simples, mas que demonstram um respeito com o outro, como a citada por Carlos Filipe sobre os palcos dos espetáculos não contarem com rampas de acesso, como se não fosse possível assistir a um artista com mobilidade reduzida”, disse.
A “visibilidade” dos deficientes, ou “defs” como prefere chamar Carlos Martins, foi um dos pontos trazidos pelo investigador de temas urbanos, António Brito Guterres, sublinhado também por Sofia Moreira de Sousa, sobre a importância de adaptar os espaços urbanos para que as pessoas com desafios de mobilidade usufruam da cidade e façam parte da paisagem urbana como os demais cidadãos.

Desafios que fazem parte da missão da Associação Salvador, presente na conversa com Joana Gorgueira, que trouxe o testemunho da atuação da associação em tentar mudar esse cenário de hostilidade urbana em Lisboa para com as pessoas com movimento condicionado.
O não cumprimento da legislação tanto na fiscalização, como na ajuda na aquisição das dispendiosas cadeiras de rodas motorizadas, as adaptação de carros e até de barcos para a condução de quem usa cadeiras de rodas foi um tema referido várias vezes.
Carlos Martins voltou a citar a questão da “visibilidade” trazida por Brito Guterres como alternativa para se alterar a forma como a sociedade vê os “defs”, algumas vezes relacionada com o sentimento de estarem diante de “coitadinhos”, uma condição rejeitada por todos, como salientou o jornalista Tomás Delfim: “Temos limitações e precisamos de ajuda como todas outras pessoas”.
O debate Cidade Para Todos foi acompanhado por muitos lisboetas que partilham das situações apresentadas e usaram da palavra para colaborarem com a discussão, que encerrou com um depoimento a salientar o desejo de um dia todos os arraiais de Lisboa serem naturalmente inclusivos.
Enquanto esse desejo não se concretiza, o único arraial inclusivo de Lisboa segue no Complexo Desportivo Municipal São João de Brito, na Avenida do Brasil, em Alvalade, até domingo (16), com os apoios já citados e também da Paladin.
O debate Cidade Para Todos foi um dos eventos realizados pela Mensagem, assim como o concerto de Toy com intérpretes de Língua Gestual.

Ainda há festa, portanto, e no Arraial Inclusivo de Alvalade, a festa é para todos.








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