“Tu entraste, agora vais!”. A frase, um dia dita pelos pais, é hoje o despertador que faz Adonai Pinto levantar-se todos os dias às seis da manhã para ir para a faculdade. Os mais chegados chamam-no “Donay”. Tem 20 anos, mora na Amadora, mas é na freguesia da Ajuda que passa os dias, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). Estuda, participa e envolve-se em tudo o que consegue (aulas, praxe e até o cargo de vice-presidente no Núcleo de Serviço Social), deixando para trás um rapaz tímido “que nem um ‘ai’ dizia”.
Adonai cresceu numa família cigana. Viu os seus primos e amigos de infância a casarem e a terem filhos mais cedo enquanto continuava com a cabeça enfiada nos livros e a receber bolsas de mérito durante o seu secundário. Agora veem-se pouco. “Foi um bocadinho triste… Eu quis continuar a estudar e acabei por ficar sem amigos na escola, porque eles foram trabalhar. Continuamos a morar muito perto, o bairro é pequenino, mas temos vidas diferentes”, confessa.
No secundário, foi recebendo bolsas de mérito e, no último ano, chegou a ser destacado como aluno com a maior média do ano. Não foi por acaso. Mas, para chegar até ali, teve de aprender a gerir dois mundos.
Aos primos e amigos de infância perguntam-lhes “quando é que casas?”. A ele perguntam-lhe também como é estar na faculdade. Adonai Pinto, último ano de Serviço Social, tem resposta para as duas: “é o meu dia a dia”. Adonai tem o plano bem traçado e, para já, não passa por casar ou ter filhos: primeiro, quer acabar os estudos, depois tirar a carta e ter um trabalho que lhe proporcione uma vida estável.

Um pé dentro e outro fora da cultura cigana
Antes, ficava na rua até à meia noite à porta de casa. Depois, começou a voltar a horas mais adequadas. No dia seguinte, havia escola e era preciso acordar cedo. “Não foi de um dia para o outro, foi difícil. Naquela altura, tive de escolher o momento em que estava a brincar com os meus primos na rua e quando tinha de parar para ir estudar”, conta.
O seu esforço deu frutos. Adonai candidatou-se para a Universidade quando acabou o secundário.
Embora a entrada não tivesse o sabor de conquista esperado. Não entrou na primeira fase e cruzou os braços para desistir. “Não vou tentar, já desisti.”
Mas houve quem não o deixasse ficar por ali.
De um lado, a família em casa dizia “Tu entraste, agora vais”; do outro, no telemóvel, chegavam as vozes de professores do secundário a puxá-lo de volta para a escalada até ao topo desta montanha. “Na na ni na não! Tu não vais desistir. Candida-te outra vez que tu vais conseguir!”.
Acabou por tentar.
Hoje está no último ano de licenciatura em Serviço Social.
“Uma vez disseram-me que dá para viver com um pé dentro e outro fora da cultura. Fiquei com isso na cabeça. Realmente dá para viver um bocadinho de tudo”, remata.
Um momento-luz
Na faculdade, Adonai encontrou um lugar onde nunca sentiu necessidade de esconder que era cigano. Pelo contrário, dizia com orgulho que o era. Os colegas mostraram naturalidade com o assunto, e alguns só descobriram meses depois.
Mas faltava-lhe alguém que conhecesse aquelas palavras, aquelas músicas, aquelas expressões. Começou, então, sem dar por isso, a andar com “o radar ligado”. “Querendo ou não, é triste. Ir para a faculdade e não ter ninguém como nós.”, desabafa.
Um dia, na casa de banho, ouviu alguém a cantar canções ciganas. “Fiquei desconfiado e perguntei-lhe o que se passava. Ele respondeu-me que era cigano. Disse-lhe logo que era mentira, não podia ser, mas depois percebi que cresceu rodeado da cultura cigana e hoje dou-me muito bem com ele. Na altura, aquele momento foi luz”, conta o estudante.
Um jovem de causas
A faculdade não foi só um lugar onde conheceu novas pessoas e adquiriu conhecimento: para Adonai, foi abrir oportunidades.
Está atualmente inserido no Programa Operacional de Promoção da Educação (OPRE), uma iniciativa desenvolvida pela AIMA em parceria com a associação Letras Nómadas (de investigação e dinamização das comunidades ciganas em Portugal), que procura facilitar o acesso e a permanência de estudantes ciganos no ensino superior. Como? Através de bolsas de estudo, tutoria e acompanhamento. Encontram-se pelo menos três vezes ao ano e serão cerca de 40 os jovens ciganos, entre estudantes já matriculados no ensino superior e jovens que queiram ingressar a este nível de ensino.
“Eu percebo que as pessoas façam um bicho de sete cabeças por ser cigano e estar na faculdade, mas para mim isso é normal, é o meu dia a dia”. É assim que Adonai se apresenta aos pequenos entrevistadores neste dia – Lourenço Conceição, Rafael Bravo, Afonso Henriques, Matilde Pais, Esmeralda Henriques, cinco crianças dos 7 aos 16 anos. Encontraram-se na Associação Amigos do 2 de Maio (B2M), na Ajuda, onde Adonai participou no projeto “Pelos olhos cantamos”, promovido pela Música Portuguesa a Gostar Dela Própria.
Sentadas, ouviram o testemunho de alguém que também cresceu num bairro social. E que cresceu dentro da comunidade cigana. Sem hesitar dizer quem era.
Esta história faz parte da série “Lisboa a Voltar a Gostar Dela Própria”, uma iniciativa que pretende dar palco a artistas que, embora distantes dos grandes focos mediáticos, moldam a cultura vibrante da cidade. Saiba mais na página do projeto.

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