
Há dias, aconteceu em Lisboa uma coisa em forma de assim. Na nossa cidade acontecem sempre coisas, mas são raras com tanto para dizer. Ora, numa instituição daquelas onde se penduram quadros e o sossego é norma, num museu, este pôs-se a pôr dúvidas e a inquietar. Gostei muito.
Foi no Museu de Lisboa (a tabuleta mais bem esgalhada da cidade, só com palavras inspiradoras: “Museu de Lisboa”), no Palácio Pimenta, Campo Grande, também palavras simples. Ao fim da tarde, em sala e sessão que estiveram sempre a encher de gente e a acrescentar cadeiras desmontáveis – outro truque dinâmico de que também gostei – dois especialistas da casa, Pedro Flor e Paulo Almeida Fernandes e o marchand d’art Philippe Mendes falaram sobre um quadro.

Este retratava o Rossio de Lisboa, à volta do ano de 1800. Estava nas minhas costas, exposto entre duas outras vistas da cidade, também daquele período. Elas serviam para ajudar a cotejar o assunto, o quadro central sendo o rei da festa. A exposição chama-se “3 vistas de Lisboa” e está no Museu até 27 de setembro.
Por várias vezes me virei para o olhar, confirmando o que os oradores diziam, enquanto num ecrã a boa conversa era ilustrada com imagens isoladas e aumentadas.
O museu estava mesmo interessado em que eu ficasse a saber mais.
Duas estatuetas, um milagre
A dada altura, alguém apontou a estátua que encimava um edifício, à direita da tela. Era a alegoria “Fé calcando a Heresia”, um horror de intenções, esculpida por Machado Castro no vértice do triângulo encimando o Tribunal da Inquisição que funcionava ali, há séculos. Ainda em 1761, na praça em frente, o padre Malagrida fora garroteado e queimado para esconjurar o terramoto. O edifício foi demolido poucas décadas depois de ser retratado neste quadro, o que nos permitiu ter esta conversa.

Reconheci o lugar, é onde está hoje o Teatro Dona Maria II. E este tem outra estátua no topo – que é a de Gil Vicente, um fulgor.

Quer dizer, no que poderia ser mera exposição formal, só uma viagem no tempo (“foi ali…”), um museu quis mostrar-me a ironia, uma das mais estimulantes consequências de nos pormos a comparar épocas.
Com aquilo que era simples pedra esculpida apregoando do alto de um frontão triangular, deram-me a ver a fé imposta de forma cruel. E, logo, em toque de magia, passá-la para algo superior: a cultura em versão satírica e popular.
Tomei nota: “Ver quadros também é ver sinais, e dos bons.”
Dois arcos e Amália
A imagem do edifício hoje desaparecido logo me levou a outra comparação. Na tela, via-se uma sege, carruagem de um só assento, com cocheiro e lacaio de libré, saindo do portão central do Tribunal da Inquisição.
Na vida real, faça-se o caminho inverso a pé, desse topo norte da praça, para o lado oposto do Rossio. Aí, o Arco do Bandeira, entre a Rua Augusta e a do Ouro, com arco, varanda em cantaria e janelão, em tudo iguais aos do quadro acabado de se apresentar.

Tal como ontem a sege saía para a praça, hoje, um automóvel entra pela Rua dos Sapateiros – e ambos sempre por debaixo de uma beleza pombalina. Na verdade, com o Rossio de permeio, os dois arcos conviveram, olhavam-se de frente, em mútuo convívio. Com o quadro que eu via pela primeira vez pude dar-me conta que até o amarelo de ocre antigo da parede era igual.
Um arco serviu de entrada ao Tribunal da Inquisição, o do poder infinito; o outro era vizinho do botequim que Amália cantou: “Junto ao Arco do Bandeira/ Há uma loja, a Tendinha/ De aspeto rasca e banal…”
Eis a primeira lição a tirar, um fado, deste meu ir ver um quadro ao Museu de Lisboa: só o mais simples dos arcos sobreviveu.
Afinal Junot não morava ali
O isco que nos convocou ao Museu de Lisboa, a mim e à pequena multidão, foi Junot passando revista às tropas no Rossio, um quadro a óleo, uma cena da primeira década de 1800. Seis por três palmos, ao baixo, de tela e muito arquitetura e pessoas lá dentro. Já vos dei conta das primeiras deambulações que fiz por ele. E só quase falei de pedras e ainda nada (ou muito…) de gente.
Confesso, eu só soubera da obra por causa de um leilão recente da Veritas, fim do ano passado, que o apresentou com aquela designação e data vagas. Justificadas, ambas, entre outras referências, por assim ter ficado catalogado nas obras mostradas nas Comemorações do VIII Centenário, em 1947, da Conquista de Lisboa ao Mouros. Já cá volto à efeméride e ao catálogo, prometo.

Naquela tarde que vos conto, ainda antes das palavras dos oradores, uma pequena e ilustrada brochura do Museu de Lisboa, gentilmente distribuída, desmontava o título da obra. Relembro-o: Junot passando revista às tropas no Rossio.
Garantia a brochura: se o anunciado lugar, o Rossio, saltava do quadro para os nossos olhos, o general Jean-Andoche Junot, esse, afinal, não morava ali, não estava emoldurado.
Ora, uma tela sendo sempre um espetáculo, isso não era uma questão menor. Ficar sem o protagonista anunciado era como se o cartaz do filme Cavalgada Heróica apagasse o nome do ator principal (John Wayne). Pareceu-me um disparate para o sucesso de bilheteira, ainda por cima quando, ao contrário do filme que trazia colada a reputação do realizador (John Ford), do tal quadro nem se sabia quem o fez.
Depois, é certo, os especialistas iriam adiantar-me mais hipóteses e pistas, falaremos delas adiante. Mas não quero deixar de dizer, já, que não me queixo por aquela insólita exposição museológica me ter apresentado um quadro, começando por despedir o suposto protagonista.
É que, em local conservador (é uma das funções dos museus, conservar), aquela sessão levou-me por um trajeto – do espanto ao entusiamo – que me deixou excitadíssimo durante duas horas e picos.
Bem hajam, e repitam encontros assim, por espalhar e caçar surpresas. Para mim foi mais um episódio de Fala-me de Ti, Lisboa em que um lugar da minha cidade desata a contar-se. E, de passagem, vai debicando outros lugares e tempos.
E pessoas e pessoas e pessoas.
Lembremo-nos de Junot
O francês Georges Perec escreveu o livrinho Je Me Souviens (Lembro-me, em português), cultivando uma ideia do caraças. Ele procurou luzinhas, aqueles pequenos saberes comuns que piscam recordações. Quotidianos da infância e adolescência. na memória de gerações entre pessoas contemporâneas, que ficam guardadas não se sabe bem porquê. Perec soube encontrar as do seu tempo e país. Cito um dos meus heróis literários porque o reencontrei no Palácio Pimenta.
Em 1978, Perec publicou 480 lembretes no seu Je Me Souviens. Cada um com número próprio, cada um começado por “Lembro-me…”, como numa ladainha, um piscar de olho do autor aos seus leitores que também, décadas antes, viram, leram em livros comuns, anúncios, manchete de jornal (“Lembro-me da Baía dos Porcos”), ou fofoca (“Lembro-me do coronel Townsend”, mas sem adiantar que este foi namorado da princesa Margaret, de Inglaterra), viveram, partilharam e… esqueceram. Até serem relembrados pelo livro.
Eram assuntos que não mereciam fazer parte da História. Como os apresentou Perec, “não apareciam nos livros de Memórias dos homens de Estado, dos alpinistas e monstros sagrados”.
Em Je me Souviens, Perec, no que pretendia ser mais uma banal recordação, a nº 20, escreveu: “Lembro-me de que Junot era Duque de Abrantes”.
Esse Junot fez a campanha do Egito, onde ouviu Napoleão dizer “do alto destas pirâmides 40 séculos vos contemplam” e, dois anos antes de invadir Lisboa, esteve em Austerlitz, 1805, na batalha em que o Imperador derrotou os imperadores russo e germânico.
E Junot posou ao lado do mito, em Napoleão em Austerlitz, de François Gérard, quadro exposto na Galeria das Batalhas do Palácio de Versalhes já vai para dois séculos.

Cada bilhetinho numerado de Perec é curto, mas não podia haver um assim: “Lembro-me do Junot” – fugiria à vontade do autor em encontrar só memórias irrelevantes, coisa que Junot nunca foi. Por isso Georges Perec escolheu aquele pormenor. Ele lembrou-se de Junot e precisou de se lembrar de mais alguma coisa. Daí, “Lembro-me de que Junot era Duque de Abrantes”.
Ora, o acrescento foi um erro crasso. Com ele a frase perdeu toda a legitimidade de figurar num livro subtil sobre assuntos que não mereciam fazer parte da História. É que ter sido “Duc d’Abrantès” não é irrelevante. Sim, é vaidade de “novo aristocrata” (um trumpismo, dir-se-ia hoje), mero título imperial francês que um corso acabara de inventar por decreto. Mas, por outro lado, contudo e porém, aquele acrescento está também diretamente ligado ao maior feito do general Jean-Andoche Junot (1771-1813): ele conquistou Lisboa. O único.
Quer dizer, quase.
Junot esteve com Napoleão em campanhas, do Egipto à Itália e Rússia, mas também uma data de generais fez o mesmo. Até a comandar invasões francesas em Portugal houve mais dois generais com igual currículo, Soult e Massena. Mas, ao conquistar Lisboa, Junot não teve igual. E foi por ter conquistado Lisboa que Napoleão o nomeou Duque de Abrantes.
Então, essa associação (a do título com aquela conquista) ofereceu à anódina distinção de Duc d’Abrantès uma condição colossal: ela ficou ligada à conquista de Lisboa!
Conquistar Lisboa é um facto tão raro que da última vez que aconteceu, foi em 1807. Nem os espanhóis com os Filipes a conquistaram, eles vieram por mútuo acordo e foram despedidos quando nos apeteceu. Antes da invasão francesa, tinha passado mais de meio milénio do anterior conquistador mouro ser expulso, em 1147. Lembram-se dessa data, ainda há pouco a referi e prometi voltar a ela.
Portanto, ainda que se confirme Junot não estar naquele quadro, mesmo até hipótese equivocada, ela já nos levou a redescobrir uma bela mania da nossa cidade: ela é requestada, mas raramente tomada.
Lisboa um cruzamento de tempos

Não vou ficar abatido por aquele simples e ignoto quadro do Museu de Lisboa ter aparência de não notícia. Dele não se sabe exatamente quando, nem o quê e quem, e não tem autor, dele, só se sabe onde… Mas, qual o quê! Para mim, se é de Lisboa, aquilo é História Universal, quando não é a preparar o futuro, é Lisboa a tropeçar no passado. As Comemorações do VIII Centenário da Tomada de Lisboa aos Mouros e aquele catálogo a que prometi voltar, ajudaram a confirmá-lo.
Foi então, 1947, que emprestado e por semanas, o quadro Junot passando revista às tropas no Rossio foi exposto num museu português, pela primeira vez. Lá está, a obra tinha quase século e meio e permanecia quase virgem de olhares. E, no entanto, era uma Nau Catrineta, com tanto para contar.
O Diário de Lisboa deu a notícia, com bom jornalismo num fim de tarde de verão: “A história de Lisboa dada em imagens”, dizia o título.
O Museu de Arte Antiga foi chamado pelo nome que o povo lhe dava, “Janelas Verdes”, e os factos foram narrados sem pompa: “história” vem escrito como deve ser, em caixa baixa e exato. História, de histórias.

Então, a “Exposição de documentos e obras de arte relativos à história de Lisboa” (isto já não foi escrito por jornalistas, mas doutores) reuniu 553 objetos, mais ambiciosa ainda que Georges Perec, exausto ao fim de se lembrar 480 vezes.
Crónicas medievais e relicários, a espada de D. Afonso Henriques e uma moeda de dinar, de ouro e moura, ainda em circulação em 1144, painéis e mapas que mudaram o mundo, quadros, gravuras e salvas em prata, em catálogo de 200 páginas que há dias me custaram 40 euros num alfarrabista.
Sobre o assunto, no Diário de Lisboa, 24 de junho de 1947, emoldurado na capa, onde os bons jornalistas colocam os iscos para espevitar o leitor, o resumo de bom jornalismo foi, repito: “A história de Lisboa dada em imagens”.
Imagens. Reparem, eu que não me queixo dos euros que esportulei, emociono-me por meus antepassados de profissão terem sublinhado a mais simples forma do contar: “Em imagens”, disseram eles, quando ainda não tinha sido inventada a fotografia. Nada de parlapié, mas com imagens para olhos de ver. E dentro delas, quanto mais pormenor, pequenito, mais para aprender.
O Museu de Arte Antiga abriu dez salas e a nona foi reservada às Invasões Francesas. Justamente, entre as imagens do catálogo estava a peça nº 438, estava o titulado Junot passando revista às tropas no Rossio, um dos 29 quadros expostos sobre o assunto. A descrição confirmava o título: “No centro da praça, o general francês, a cavalo, passa revista às tropas.” Obra do “Princípio do século XIX”, com autor “Anónimo”. Dizia, ainda “Pertence ao Exmo. Senhor Eduardo Mendia”.
O catálogo trazia outra preciosa informação. Em apêndice, havia a foto do quadro, página inteira, feita por Mário Novais. Este era um notável fotógrafo-autor, o seu espólio pertence hoje à Fundação Gulbenkian. Colaborador habitual da Panorama desde o lançamento da revista de propaganda do Estado Novo, em 1941, Novais especializara-se em obras de arte.

Em século e meio só os olhares dos proprietários e eventuais amigos tiveram acesso ao quadro – embora houvesse referências vagas sobre circularem fotos parciais da pintura. Um desperdício.
Em 1947, de uma assentada, a obra teve a primeira exposição pública e uma fotografia de assinatura prestigiada. Mas esta, a preto e branco e em suporte tão pouco divulgado como um catálogo para especialistas raros.
Depois, encafuado de novo, mais oito décadas de desperdício, até o Museu de Lisboa no-lo oferecer.
O meu herói de desmerecido anonimato, foi, pois, há oitenta anos, brevemente destapado no Museu de Arte Antiga. Entre outros quadros e desenhos, estava a mais famosa pintura sobre as Invasões Francesas, Junot protegendo a cidade de Lisboa, datado de 1808, também óleo sobre tela, de Domingos António Sequeira, que fora emprestado pelo Museu Soares dos Reis, do Porto, para onde regressou e continua.
Uma Lisboa-mulher, quase desfalecida, é ajudada a levantar por um garboso e tão evidente Junot que até trazia a jaqueta de pele de cavaleiro hussardo, mais o penacho branco com que iria aparecer em Austerlitz, no quadro de François Gérard (que só acabaria de ser pintado para o Salon de Paris em 1810).

A técnica de Sequeira, ao que me dizem, era a mais apurada dos portugueses da época. Também há sábios cujo relato de um jogo de futebol me arrasa com a muita ciência dos médios-ala atacando pelos flancos.
Mas eu sou também adepto de saber, do guarda-redes cabo-verdiano Vozinha, que a avozinha dele cresceu vizinha da Cesária Évora, no Mindelo. Admiro o que saiu da perfeição do pincel do Domingos António Sequeira, mas tomei nota da bajulação estampada dele. Fazer pela vida pode ser um facto criticável, mas enquadra o que vemos e pode ensinar muito.
No catálogo e na parede do Museu de Arte Antiga, ao lado dessa peça de Domingos António Sequeira, estava outro óleo do mesmo autor, Chegada de D. João VI a Lisboa, 1821.

O regressado rei era descrito a entrar no Tejo “numa embarcação que 12 Tágides sustentam no dorso”… Incensar o invasor como Protetor, em 1808, e saudar o invadido com ninfas, em 1821 – é uma forma metafórica de também contar que a vida custa a todos.
A maneira como reagi, com “he-he-heh…”, quando vi os dois quadros juntos e oportunistas, só significa que aprendi mais com eles sobre aquela época, do que me trouxe, acerca o mesmo assunto, o domínio de Domingos António Sequeira nas nuances da luz.
Não desdenho deste último saber, quero é não ter vergonha em olhar para um quadro e aprender também com o dia-a-dia (medo, cobiça, convicções, até) que tantas vezes nos é sugerido, e ajudam a entender o presente.
O caso do segundo Junot passando revista…
Lançada a minha curiosidade para os modos e costumes do passado, fiquei mais atento a um tema a que eu ligara pouco até hoje. Como reagiu um povo habitualmente não invadido, ao ter a sua capital ocupada?
Virando uma só folha do catálogo, depois do anúncio da tal peça nº 438, Junot passando revista às tropas no Rossio, “óleo sobre tela”, de “Anónimo”, cheguei à peça nº 447: Junot passando revista às tropas no Rossio, “desenho aguarelado a nanquim”, “De Luís António Xavier”.
Estavam ambos na mesma sala e no mesmo catálogo, em 1947 – e com o mesmo nome.
Se trouxermos connosco saberes anteriores e ficamos disponíveis para novos, surgem coincidências e elas aguçam a curiosidade. Uma pessoa põe-se a olhar quadros e dá-se conta de que está viva, ou pelo menos inquieta.

Foi assim que cheguei a estas duas obras, um Junot sem Junot e outro Junot com Junot, ambos quadro-artistas antes conhecidos como Junot passando revista às tropas no Rossio e espetáculo já exibido em dueto, em 1947, no museu das Janelas Verdes.
As duas obras homónimas explicavam-se bem e completavam-se. O desenho a tinta-da-china deixava ver o Castelo de São Jorge; e a tela a óleo, o Convento do Carmo. Evidências, mas do que mais me vou ocupar é caçar pormenores.
Como aquele de ter reparado que, mais bem enquadrado, o Rossio do figurista Luís António Xavier confirmou-me que os dois arcos, cada um no seu topo da praça, existiram juntos. Este quadro mostrava a imagem de ambas passagens pombalinas; o homónimo, só uma.
Foi coisa que passei a vida inteira sem ligar, mas derreou-me de prazer saber, agora, que dois quadros xarás, quando foram vizinhos há muito, talvez tenham falado, entre eles, do assunto dos arcos do Rossio… Numa daquelas madrugadas em que se encontraram, ambos emprestados, nas Janelas Verdes, a ver passar o Tejo, a ver navios…
Lisboa tem tantos mistérios.
Mas antes, acabemos com a questão do Junot. Na gravura assinada “L.A.X.” (de Luís António Xavier), há uma legenda em francês e letra cursiva: “La superbe revue des Protecteurs en Lisbonne dans la Place de la Parade”.
Com duas adjetivações – a revista militar ser “soberba”, e os militares, “Protetores de Lisboa” – ficámos a saber que Domingos Sequeira não era o único artista a simpatizar com os invasores, o LAX também.
Luís António Xavier lá tinha a sua opinião, e morreria pobre, cego e entrevado, publicando estampas portuguesas louvando “A Constituição defendida, o despotismo aterrado”. Referia-se ele às boas ideias da Constituição de 1822, que derrubaram felizmente o absolutismo. Um passo em frente… Mas que já tinha anunciado e mostrado que não faltariam herdeiros da Revolução Francesa com os mesmos trejeitos monárquicos e de penacho.
Um jornal lisboeta, a Gazeta de Lisboa noticiou que a 1 de fevereiro de 1808 (a invasão tinha dois meses), o general Junot, “a cavalo e com o uniforme grande” saiu da residência, o palacete do barão de Quintela, na Rua do Alecrim e foi para palácio da Inquisição, onde informou a cidade da magna decisão: “Decretou-se a sorte de Portugal e segurou-se a sua felicidade e que Napoleão, o Grande, o tomou debaixo da sua omnipotente proteção.” A frase foi tola, ia ser breve, mas tinha estilo! A Gronelândia não vai ter tanta sorte. [Desculpem, estou a escrever com a televisão acesa].

E continuou a Gazeta de Lisboa: “Deste sucesso deu imediatamente sinal o Castelo de São Jorge com uma salva de morteiros a que se seguiram descargas dos navios de guerra surtos neste porto.” Preciosa informação, já veremos, talvez uma prova de que ler jornais é saber mais (mesmo naqueles comprados pelo inimigo).
Tendo eu acabado de saber que o meu primeiro Junot passando revista às tropas no Rossio, de óleo em tela, afinal podia ser outra coisa, como garantir que o segundo, o de Luís António Xavier, fosse aquilo que o seu título dizia?
Fui conhecer mais do autor. LAX usava os aguados a tinta-da-china, uma técnica que a partir do negro intenso, cria vários tons de cinzento que permitem força, finura e expressão ao desenho. E permitia rapidez de execução, útil para quem parecia agir com rapidez no terreno, autêntico repórter.
Numa manhã de outono, as primeiras tropas francesas passaram pelo cruzeiro de Arroios, entrada em Lisboa para quem vinha pela estrada de Santarém. Pequeno destacamento de franceses, confraternização com tropa portuguesa e civis lisboetas, senhoras de sombrinha…
Esse foi mais um desenho assinado por LAX, com legenda (também em francês): “A Verdadeira entrada dos protetores em Lisboa, a 30 de novembro de 1807”.

Apesar da propaganda na legenda (“A Verdadeira”, “protetores”…), um facto ficou testemunhado pelo nosso enviado a Arroios: o início da invasão de Lisboa.
E há mais imagens de LAX, por exemplo, o aquartelamento dos franceses em Campo de Ourique (hoje, no Museu de Lisboa):

Entretanto, na outra trincheira, uma litografia anónima, de propaganda antifrancesa, Entrada dos protetores em Portugal, aludindo ironicamente ao discurso do “Protetor” Junot, gozava com chegada dos soldados franceses, não só em desenho como em quadra jocosa:
“A entrada destes guerreiros
Foi com grande intrepidez
Descalços de pé e perna
Dois aqui, acolá, três”

A luta das imagens é mais agradável de seguir. Na vida real foi mais duro.
Mercenários de toda a Europa, vindos nas tropas de Junot, entravam nos conventos e saber se eles vinham meio-descalçados não era a primeira preocupação das freiras. E o soldado francês que se deixara ficar para trás, por razões de necessidade urgente, não gostou de saber o que era, em campanha chuvosa de outono, apanhar-se solitário entre assustados pastores de Castelo Branco.
LAX fechou o breve ciclo da ocupação da cidade com um último desenho: “Embarque no Cais do Sodré do General Junot na sua retirada para França, a15 de setembro de 1808, às seis da manhã”.

Extraordinária tanta informação de um repórter que começou esta viagem sobre uma anormalidade que durou nove meses, presenciando e desenhando um facto universal inaudito. E não, não foi a chegada de Junot – isso foi só uma raríssima invasão de Lisboa…
Aconteceu que Luís António Xavier também testemunhou o Príncipe Regente português, na praia de Belém – D. João, a Corte inteira, uma esquadra de navios, 15 mil pessoas (fora vestidos, livros antigos e cofres) – partindo para o Rio de Janeiro, a 29 de novembro 1807, horas antes de Junot chegar a Arroios para, afinal, “ficar a ver navios…”
Um homem ajoelha-se e beija a mão ao Príncipe. A Torre de Belém, pequenina, que à margem fica. O Tejo cumpre o seu destino e os barcos partem. Sábio, o Tejo ali estará quando os barcos voltarem. Mas este é um quadro de quem fica.

Toda esta saga nasci para ela, julgo, na década de 1950, nas revistas aos quadradinhos Cavaleiro Andante e O Mosquito, nas aventuras desenhadas por Eduardo Teixeira Coelho e Vítor Péon, onde vi os primeiros penachos napoleónicos à cabeça, antes de me formar em causas com as fotos também a preto e branco do Robert Capa, da Guerra Civil de Espanha, o aprender simples, a verdade ou o que queremos ver dela.
E que retomei, agora, com os aguados de tinta-da-china de LAX e os seus quadros irmãos, anónimos ou não.
Eu sei, há um patamar superior. Um contemporâneo e também colega de pincel de nanquim aguarelado e vizinho da pátria de Luís António Xavier chegou lá – Goya, o da arte pura e compaixão. O de que são nada as guerras, tudo só são as pessoas.
Mas o trazido por LAX, o oportunista como outros, mas fixador de imagens, factos desenhados, como poucos, merecia que investigadores o desenhassem mais do que o esquiço que se tem dele.
LAX, o neto do chinês, de Macau a Lisboa
Luís António Xavier Geraldes nasceu em Lisboa, neto de Alexandre Geraldes – chinês de Macau vindo no regresso de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses, embaixador português em Pequim, ainda no tempo do Rei-Sol português, João V, o do ouro do Brasil e toda a primeira metade do séc. XVIII de reinado tranquilo.
Antes dos terramotos começarem.
O filho do chim (chinês na época) Geraldes passou a chamar-se António Silva (Geraldes), cristianizou-se e passou a pintar Virgens – a capela-mor da ermida de Porto Salvo, em Oeiras, tem-nas magníficas, desde 1740, de cores soberbas. O filho deste António vai chamar-se Luís António Xavier Geraldes, o nosso LAX, que por apelo genético se dedicou a um pincel moderando a tinta-da-china. Portugueses, típicos, enfim.
Os Geraldes, em Setecentos e Oitocentos, como em Seiscentos, os Reinel, Pedro e Jorge, pai e filho, negros e portugueses (do Reino, como o nome enunciava), dois dos nossos maiores cartógrafos de então (do Mundo, portanto).
Luís António Xavier não pintou a partida do Príncipe Regente português com o dramatismo do desenho do suíço Henry L’Evêque, tumulto no cais de Belém e súplica de mulheres a estender os filhos ao Príncipe, e também a pintura do francês Nicolas Delerive é mais institucional (este último está no Museu dos Coches, em Lisboa).

Na partida do Príncipe Regente, futuro D. João VI, LAX só quis figurar o que acariciava o contorno da sua ideia: porreiro, o gajo vai embora. Ora, aquele dia, era de quem partia e de quem ficava.
Muito mais tarde e quando ainda os portugueses e brasileiros se interessavam por estas coisas comuns, Carlos Malheiro Dias, filho de brasileira e de português, deu uma conferência no Clube dos Diários, no Rio de Janeiro, sobre o que acontecera:
“Um espetáculo ainda não visto na história. Embarcou uma corte. Emigrou um Estado. Uma nação transferiu a sua sede… No cais uma multidão silenciosa, orfã e estupefacta olhava as naus…” (16 de janeiro de 1921, jornal A Noite, do Rio de Janeiro).
Há coisa que não são meras ideias a desfazer com um encolher de ombros. Como se ao passar pelo Rossio, onde, em cima de um pedestal, Dom Pedro IV de Portugal e Imperador Pedro I do Brasil, primeiro monarca americano a nascer em Queluz, Europa, convive com Dona Maria II, a viver no teatro ao lado, sua filha e primeira rainha europeia a nascer no Rio de Janeiro, Américas. Talvez conversem de madrugada.
Lisboa, já vos disse, Lisboa é cheia de mistério.
Em breve a segunda parte deste episódio,
com mais descobertas sobre este quadro.
Veja aqui os outros episódios desta série:
