Neste terraço em Alvalade, a paisagem é interrompida a cada três minutos… por um avião. No chão, está uma caixa castanha que guarda a memória de todos os gigantes de asas que por aqui passam. Lá dentro, trabalham sensores, cabos e um conjunto de circuitos. Cá fora, uma câmera mantém o “olho” fixo no céu. 1, 2, 3… houve um dia em que Lisboa chegou às 699 aterragens e descolagens de aviões.

António Boaventura, 51 anos, dono deste terraço, olha para o relógio. “Está a chegar agora um avião às 11 horas, é quando chegam os transatlânticos”, sabe de cor. O avião passa e já não conseguimos ouvir o resto – o diálogo é interrompido pelos altos decibéis. António está habituado. Nem dez segundos depois, o voo de que ele fala aparece no ecrã, comprovando a sabedoria. O sistema, feito à mão pro António, identificou-o, localizou-o… e mediu o nível de ruído.

Foi esta maquineta que deu origem à Lisbon Finals, uma plataforma que monotoriza e reúne, em tempo real, dados sobre cada voo que cruza aquele ponto do céu. O website arquiva os dados, o Instagram arquiva registos fotográficos.

Mas este projeto não nasceu como forma de protesto por estes gigantes que, sabe-se, afetam o sono, a aprendizagem e a saúde dos lisboetas. A exposição ao ruído do aeroporto Humberto Delgado afeta 388 mil pessoas em Lisboa e nos concelhos limítrofes, mas o objetivo de António é mais simples: “ter dados acessíveis para qualquer pessoa”, resume António.

No terraço no Campo Grande, António Boaventura mostra o sistema de monitorização de aviões à jornalista Tatiana Martins. Foto: Margarida Filipe

A ideia surgiu de uma “brincadeira” e de um reparo que inquietava António: “os lisboetas já nem levantam a cabeça. Já estão tão habituados que já não têm noção de quantos aviões passam pela cidade”.

Uma espécie de alerta de reeducação humana… embora ligada à ficha.

O que hoje funciona de forma automática, através da ajuda de Inteligência Artificial,  começou por ser programado em março e desenvolvido em apenas um mês e meio.

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Haverá cerca de 388 mil pessoas residentes em Lisboa e nos concelhos mais próximos (como Loures, Vila Franca de Xira e Almada) afetados pelo ruído gerado pelo atual aeroporto Humberto Delgado. Um zum-zum que a ciência já mostrou trazer sérias consequências para a saúde – stress, ansiedade, perturbações do sono, problemas cardíacos, e até dificuldades…

Antes da Lisbon Finals e da internet

António Boaventura nasceu em 1974 em Lisboa, mas passou grande parte da sua vida longe da cidade. Tinha apenas seis meses quando a família se mudou para o Brasil. Passou por França, viveu em Espanha e na Costa Rica, até regressar à sua cidade natal no final de fevereiro.

É empresário e os números são algo que domina, mas admite ter o “bichinho” da programação e de brincar com dados. A única constante deste percurso foi a curiosidade pela tecnologia.

Em 1993, já andava ligado à internet, gastava o dinheiro todo das férias para comprar material informático e, quando acabou os estudos, a primeira coisa que fez foi um website, uma bolsa de emprego online. Naquela época, o mundo “gozou” com ele assim que disse que ia mesmo fazê-lo. “Os bancos riram-se, não acreditaram porque era algo que não existia em França. Mais tarde, vendi-o a um grupo norueguês”, recorda.

António é empresário e apaixonado por dados. Foto: Margarida Filipe

33 anos depois a curiosidade continua a sair-lhe do bolso. António gastou cerca de mil euros para montar uma estação de contagem de aviões no seu terraço. 

Um novo avião aproxima-se. António fica em silêncio e acompanha-o até desaparecer entre os prédios. “Quando estou aqui fora a comer uma carninha com amigos, paramos sempre de falar quando os aviões passam, para vermos qual é o avião que vai a passar.”

Admite, rindo-se disso, que “chateou os amigos todos” com a Lisbon Finals. A maioria trabalha com IA e acabou por acompanhar o projeto. 

Os aviões mais ruidosos

Enquanto conversamos, o sistema continua a trabalhar. A “maison page” (página inicial),   como lhe chama António com sotaque francês, atualiza-se de dez em dez segundos, conforme a afluência das chegadas. Percorre o arquivo do website como quem folheia um álbum de fotografias – existem mais de 30 mil voos registados na plataforma, mas alguns já lhe são familiares. 

Nem todos com a mesma intensidade, mas existem companhias que se destacam por serem as mais “ruidosas”. Será o caso da TAAG Angola, diz António. Descritos por ele como sendo os aviões mais antigos.

Relatório Mensal das companhias mais ruidosas. 

Mais do que contar aviões, o empresário começou a identificar padrões. “Os aviões que chegam atrasados costumam ser sempre os que fazem mais barulho. A companhia da Ryanair fez uma vez 105 decibéis à meia noite só para chegar mais rápido e recuperar o seu atraso”, diz, enquanto percorre os relatórios mensais. 

O céu é de todos 

António quer agora expandir a Lisbon Finals. “Isto é um projeto cidadão. Não sou contra a presença dos aviões nas cidades, apenas gosto de disponibilizar estas informações a quem partilha da mesma curiosidade”. Com esse objetivo, inscreveu a plataforma no European Citizens Science Association, uma associação europeia que reúne projetos de ciência cidadã de toda a Europa.

A ambição é clara: permitir que qualquer pessoa possa replicar este sistema noutra cidade. 

Se alguém em Copenhaga ou Paris quiser montar uma estação como esta, António fornece o código, a lista de materiais e a forma de instalar o sistema. E assim criar uma rede europeia – Lisbon finals, Paris Finals ou Copenhagen finals.  

Enquanto a Lisbon Final continua por agora só a registar as chegadas sobre Lisboa, António já definiu outra meta: ter a primeira estação independente a registar 1 milhão de voos. 

À primeira vista era uma caixa pousada no chão com alguns cabos ligados. Mas o céu, para António, não é o limite.


Tatiana Martins

Nascida e criada nas ruas de Lisboa. Encontra no simples “bom dia” e na conversa de café a matéria-prima para a sua escrita. Para ela, contar histórias começou na vizinhança.É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Autónoma de Lisboa e está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

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