Francisco Vilar Rodrigues tem 84 anos. Quem o vê hoje na “Martins e Barata Antunes”, a garrafeira da Boa Hora, no número 27c da travessa com o mesmo nome, na Ajuda, talvez não saiba que aquele homem de trato fino começou a carregar fardos aos 14 anos.
Chegou à Ajuda em 1955, vindo de Monção, lá no concelho de Idanha-a-Nova. Vinha habituado ao perigo do contrabando no Rio Minho. Em Lisboa, foi marçano: trabalhava, dormia num canto da mercearia do Poço dos Negros e comia o que podia. A amargura desse tempo deu-lhe os primeiros versos:
"A vida de marçano é uma vida amargurada/Trabalha dia e noite/e, por fim, não ganha nada".
Mas o balcão de um marçano tem um segredo: é o melhor observatório do mundo. Francisco, o marçano que virou poeta popular, conquistou a confiança da alta sociedade. Entrou nos teatros de Lisboa pelos bastidores, convidado por quem o via servir. No prédio cor-de-rosa em frente à loja, terá morado o Dr. Ramiro da Fonseca, o médico e escritor, então jornalista da RTP, que lhe emendava os poemas e os mandava para o jornal. “Fomos tão amigos”, recorda Francisco.
Aos 27 anos, passou a sócio da casa onde trabalha, na Ajuda. Hoje, entre garrafas e memórias, Francisco não tem pressa em contar as peripécias todas – levaria uma vida. Basta-lhe a orgulhosa certeza de quem venceu: “Tive uma independência tão grande e tão linda, que gostava que toda a gente tivesse o que eu alcancei”.
Esta história faz parte da série “Lisboa a Voltar a Gostar Dela Própria”, uma iniciativa que pretende dar palco a artistas que, embora distantes dos grandes focos mediáticos, moldam a cultura vibrante da cidade. Saiba mais na página do projeto.
Entrevista com o apoio de Raquel Lindner

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