Em tempos há muito idos, a minha professora de Filosofia do liceu alertava as nossas jovens mentes, alimentadas a Joy Division e Dire Straits, para o facto de dois dos homens mais influentes do Ocidente não terem deixado um escrito que se lhes atribua. Falava de Jesus Cristo e do ateniense Sócrates, que, no ano de 399 a.C, foi condenado à morte pela ingestão de cicuta devido ao suposto crime de desassossegar os cidadãos. Sobre o primeiro falam-nos os evangelhos. Sobre o segundo temos sobretudo os escritos de um dos seus mais fiéis discípulos, Platão. 

Num caso como noutro, a pólis, enquanto unidade política, económica e social, mas sobretudo enquanto comunidade de cidadãos, foi a inspiração e o palco da reflexão, sabendo-se que Jesus “recrutava” apóstolos e Sócrates seguidores. A António de Castro Caeiro, filósofo português, professor de Filosofia Antiga, Latim e Grego na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, essa dimensão comunitária da Filosofia, feita de partilha de inquietações e da ânsia de respostas, interessa muito: “Nós somos com os outros. Cada um de nós é portador de um humano, mas também dos vários que somos consoante a situação ou com o Outro com quem nos relacionamos. Os antigos gregos perceberam isso através do conceito e prática de pólis.” E sublinha: “Sócrates fez descer à cidade a pergunta filosófica e o seu discípulo, Platão estabeleceu que cada indivíduo é uma soma de si mesmo e todos os outros ,que também contém.”

Para Caeiro, o exercício da sua disciplina não se faz, pois, no remanso de uma torre de marfim, mas em sociedade, na partilha. Bom exemplo dessa prática são os cursos que tem vindo a realizar no Centro Cultural de Belém – CCB.

António de Castro Caeiro, no CCB. Foto: Leonardo Ladeira/CCB

O primeiro, à distância, durante a pandemia, em seis sessões, subordinadas ao tema “O que é a Filosofia?”; e o segundo, presencial, intitulado “Sobre os Sentimentos”. Na última temporada, dedicou-se ao tema “Sobre a Verdade da Mentira”, cujas dez sessões podem agora ser escutadas no Spotify.

“Eu acredito que a democratização da Filosofia pode ser interessante para as duas partes. Para mim, como ensino coisas muito complexas, desde Fenomenologia a Grego e Latim, proporciona-me o exercício de tentar tornar acessível  aos outros o que nem sempre o é”, diz.

“Lembro-me do grande acontecimento que foi a vinda a Lisboa de Jean-Paul Sartre, após o 25 de Abril, era eu miúdo, e, depois, ao longo da minha vida profissional, esse tipo de partilha sempre me interessou.” Ao longo de vários anos, foi muitas vezes a escolas do Ensino Secundário falar de Filosofia e do que os alunos poderiam encontrar se optassem por essa licenciatura. Nota também que as questões colocadas variam com a época, não sendo sempre as mesmas: “Nos últimos 15 anos já faziam perguntas muito complexas relacionadas com a mudança de género ou a orientação sexual.”

A essas visitas escolares seguiu-se o palco e a plateia socialmente mais heterogénea do Centro Cultural de Belém, onde chegou pela mão do seu falecido editor, João Paulo Cotrim (com quem chegou a fazer o ciclo de conversas “Filosofia a Pés Juntos”, na Casa da Cultura, em Setúbal). “O primeiro curso, intitulado O que é a Filosofia?, aconteceu em pandemia, e para tentar responder a essa enorme pergunta (já feita em livros de Heidegger e Ortega y Gasset), convoquei autores como Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Kant ,Wittgenstein e Heidegger.”

A capacidade de sedução da Filosofia

Com casas sempre cheias, o que torna tão atraente a Filosofia, uma disciplina conhecida pelo nível de exigência, e até de abstração, que requere? Corresponderá ela a uma necessidade inata do ser humano?

António de Castro Caeiro lembra que Kant fala “de uma predisposição natural para a Metafísica.” E continua: “Temos a experiência do espanto desde a infância, que passa pela descoberta do outro, da orientação sexual, do bullying, da violência. Outra coisa diferente é fazer Filosofia, ou Psicologia ou Psicoterapia.”

A ensinar, neste momento, Filosofia Clássica (embora também já tenha ensinado Contemporânea), tem uma predileção pelos autores clássicos, que define como “aqueles que estão cheios de futuro, mesmo que tenham escrito em Atenas há mais de 2000 anos. Fazem reflexões sobre questões perenes como o amor, a amizade ou a vida na cidade que ainda hoje nos tocam.” Nessas épocas tão remotas, em contextos completamente diferentes, Tucídides escreveu A Guerra do Peloponeso, uma obra a que volta com muita regularidade: “É um texto essencial sobre a guerra, que nos demonstra, por exemplo, que não há negociações possíveis enquanto as potências hegemónicas não conseguem o que querem. A ganância e a sede de poder também são eternas. O Livro V coloca muito bem a questão do espaço vital, que, como sabemos, foi um dos conceitos chave do nazismo.”

No seu último curso no CCB, o filósofo debruçou-se sobre um tema vital da contemporaneidade – A verdade da mentira, partindo do pressuposto de que vivemos uma pressão contínua para escapar à mentira e saber da verdade. Por norma, achamos que estamos na verdade e somos verdadeiros, mas não sucumbimos também nós à mentira?

Hoje sabemos que a desinformação pode influenciar eleições e minar a confiança na democracia. Ao longo de dez sessões, foram exploradas as relações entre verdade, mentira e perceção da realidade, analisando conceitos filosóficos clássicos e contemporâneos nos contextos complexos da nossa vida pessoal e coletiva.

António de Castro Caeiro, no CCB. Foto: Leonardo Ladeira/CCB

Para António de Castro Caeiro, a escolha do tema decorre de uma urgência global. “Por um lado, temos a relação dos indíviduos com as redes sociais, onde não há cadastros, apenas currículos, por outro, temos interferências muito danosas de organismos como a empresa britânica Cambridge Analytica na vida política de vários países, com a construção de “verdades”. Aconteceu em Trindade e Tobago, onde o governo caiu e foi substitido pela oposição graças a uma intervenção dessa empresa. Suspeita-se, por outro lado, que hackers russos tenham sido decisivos na primeira eleição de Trump e até no referendo que conduziu ao Brexit.” 

Independentemente da atuação danosa e intencional de hackers, bots e algoritmos, a “dança” entre verdade e mentira tem outras nuances pessoais e colectivas que o curso do CCB também abordou: “Falei do facto da mentira não ser, em si, um valor absoluto. Hoje alimentamos muito a ideia de transparência a todo o custo, mas o facto é que só um cínico é que está preparado para dizer a verdade aos outros, sem pensar nas consequências. A verdade (ou a exigência dela) pode ser uma agressão e uma falta de respeito.”

Para quê estudar Filosofia?

Em tempos de continuada desvalorização curricular das Humanidades, quem são os jovens que procuram Filosofia nas Universidades? António de Castro Caeiro não hesita na resposta: “ Posso dizer que, nos últimos dez anos, tenho tido os melhores alunos do Ensino Secundário, com médias de 18. Não querem necessariamente seguir para o ensino ou para a investigação. O que acontece é que querem fazer Filosofia num primeiro nível de estudos e depois querem fazer outra formação, às vezes muito diferente, no segundo ciclo. A Filosofia, no seu núcleo duro, dá-lhes uma formação humanística substancial e um instrumento de pensamento. Tive alunos que, uma vez concluída a licenciatura, foram estudar MarKeting, Ciências da Comunicação ou Cinema.” O professor estabelece aqui um paralelo com uma realidade que conheceu em Inglaterra há vários anos: “Um curso combinado de Filosofia, Política e Economia tem tanto êxito por lá que é onde a banca vai buscar muitos dos seus quadros. Estudar Filosofia na sua vertente política fornece instrumentos não despiciendos da leitura do humano.”

Sabendo da sua confessa predileção pela Filosofia alemã (e por alguns dos seus máximos expoentes como Kant, Husserl, Nietzsche ou Heidegger) pergunto ao meu entrevistado como podemos interpretar, ou mesmo lidar, com o facto dessa grande tradição de pensamento coexistir com a aberração nazi. Alertando previamente para o facto de Heidegger ter sido cancelado no pós-Guerra (apesar de defendido pela sua discípula judia, Hannah Arendt), António de Castro Caeiro considera que “temos de ver a ação de Hitler como sósia do pensamento dos que colonizaram África ou a América do Norte, com a diferença de que o nazismo elegeu os judeus e os eslavos como alvos. O Império Britânico, por exemplo, já alimentava essa ideia de que uma certa cultura é uma ferramenta para criar uma clivagem entre nós e os outros, com todas as consequências que isso possa ter.”

António de Castro Caeiro. Foto: Manuel Rodrigues Levita

O que António não aceita é a continuada colagem do pensamento de Nietzsche ao nazismo: “Não há relação possível. Talvez possamos dizer que Wagner era anti-semita, mas o mesmo não se pode dizer de Nietzsche. Mesmo quando se abordam conceitos como o super homem ou o sobrehumano não podemos fazê-lo de forma literal. O filósofo jamais defendeu a superioridade dos arianos sobre os outros povos.”

Cultor das artes marciais desde a adolescência (hoje pratica Muai Thai, depois de décadas de dedicação ao Karaté), é talvez um dos poucos seres humanos a quem se conhece uma mudança de clube favorito: nos anos 90, passou de uma vaga predileção pelo Benfica para o Futebol Clube do Porto. Para anunciar tão grave decisão, organizou mesmo um jantar com os amigos, em que, recorda a rir, houve choros, lágrimas e indignações. 

Mas a história da sua intervenção na pólis começa muito antes do interesse pela Filosofia. Data dos anos 1980, quando foi baixista da banda punk Mata Ratos. Em vão, procuro já nessa atividade a sombra de uma inquietação, muito à la Sex Pistols e “Anarchy in UK” e “God Save the Queen”. António de Castro Caeiro demove-me da senda: “Era só um puto que ouvia Rock em Stock, o mítico programa de rádio do Luís Filipe Barros, e que gostava daquele som e daquela estética.”

Este artigo teve o apoio do CCB – Centro Cultural de Belém


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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