“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
O espaço não é grande e está cheio de adereços de espetáculos passados, testemunhos das muitas histórias já criadas e encenadas pelo Teatro Contra-Senso. Ocupavam o piso de baixo, que era também espaço de ensaio, mas uma inundação em 2021 obrigou ao realojamento no piso de cima. A margem de manobra reduziu-se, mas o ambiente tem carisma. Está tudo aqui, vivo, a salvo e com vontade de subir a palco.
É neste cenário de bastidores que Marina, Vanessa, Manuel, Catarina, André, Inês e Filipe tomam os seus lugares, sob o olhar atento de Ana Luísa – Lú, como todos lhe chamam –, a encenadora que criou É Preciso Não Esquecer! para assinalar meio século do 25 de Abril de 1974. Um espetáculo que contou contributos de todo o elenco e especialmente de Manuel Saraiva.


Veterano do grupo, Manuel, 71 anos, tem bem presente a ditadura que fez o pai sair a salto para França, em 1965, tinha ele 10 anos e o fez a ele, o primeiro da família a ir à escola, vir trabalhar para Lisboa, aos 12. Viveu intensamente o dia que derrubou a ditadura, no Largo do Carmo e por toda a cidade, como tantos milhares de lisboetas que saíram à rua para comemorar a vitória da liberdade. Todas essas memórias inspiraram É Preciso Não Esquecer!.
O título é um imperativo. E percebe-se porquê quando a sala se enche com os primeiros acordes da Trova do Vento que Passa. Filipe Mateus Lopes toca, Inês Vilar canta, e a voz de Adriano Correia de Oliveira parece regressar, convocada pelo poema de Manuel Alegre. A última estrofe – Mesmo na noite mais triste / Em tempo de servidão / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não – é o mote de um espetáculo que, adivinha-se pelo ensaio, é preciso ir ver.
Um avô e uma neta visitam uma exposição dedicada à Revolução dos Cravos. “Onde é que estavas no 25 de Abril, avô?”, pergunta a neta [Catarina Bonito], que nasceu em liberdade, ao avô [Manuel Saraiva] que sobreviveu à ditadura.
A resposta vai sendo dada ao longo da peça, entre canções e poemas que foram uma arma. A trama desenrola-se em três tempos: o da ditadura, da censura, do medo, da repressão, das prisões, da tortura e também da luta; o da revolução, marcado pela alegria exultante do dia 25 de Abril e dos que se seguiram; e o do presente, ameaçado pela falta de memória.



Fotos: Rita Ansone
Entre provas (e mudanças) de roupa, cenas repetidas até se chegar ao resultado pretendido, risos (porque também há humor nesta peça) e rostos concentrados em lembrar o texto, os ensaios prosseguem, todas as sextas-feiras ao fim do dia.
Há sempre alguém que resiste e o Contra-Senso é a prova disso
A peça É Preciso Não Esquecer! foi criada como contributo para as comemorações dos cinquenta anos do 25 de Abril, em resposta ao desafio lançado então pela Junta de Freguesia de Marvila.
“Por proposta minha, constitui-se uma comissão para as comemorações dos 50 anos de Abril, que eu coordenei, e o Contra-Senso, que é uma das associações menos apoiada, foi a única que respondeu com uma produção alusiva ao tema”, nota Manuel Saraiva.

Dois anos depois, a peça volta a cena, para quatro apresentações no Auditório Fernando Pessa, na Rua Ferreira de Castro, em Marvila, nos dias 16 e 17 Abril, às 21h, e 18 de Abril, às 17h e às 21h.
Os dias de espetáculo são os momentos altos da atividade do grupo, mas estão longe de ser a razão da sua existência, e persistência.
“Estar no Contra-Senso não é só ensaiar e fazer espetáculos. Essa é a parte glamourosa, digamos assim. Há todo um trabalho invisível que é necessário para manter uma associação cultural e um grupo de teatro amador como o nosso”, diz Marina Subtil, atriz e dirigente da associação.


Há que tratar da produção, de candidaturas, da limpeza e manutenção do espaço, da resposta a e-mails, da gestão de parcerias, tudo isto no tempo que sobra depois do trabalho, da família, da vida, uma vez que são todos amadores e voluntários, mas nem por isso menos exigentes.
O Teatro Contra-Senso recusa a ideia de que amadorismo é sinónimo de menor qualidade. Há cuidado na criação, mas também no desenho de luz, na qualidade do som, nos adereços, nos cenários, na coerência estética e narrativa.
“Não se pode achar que, por ser amador, não precisa de rigor”, diz Marina, não querendo rimar, mas já rimando.
Em 2019, ela e Sónia Castro, outra das atuais dirigentes, foram duas das resistentes que disseram não ao fim do Contra-Senso, hipótese colocada com a saída de dois dos fundadores, Miguel Mestre e Sandra Fonseca.
Há sempre alguém.
O que elas e eles andaram para aqui chegar
Durante duas décadas, o Contra-Senso teve um centro criativo claro: Miguel Mestre. Era ele que escrevia, encenava, imaginava. Quando saiu, o grupo ficou sem norte.
“Deu medo”, resume Marina. “O Miguel e a Sandra dedicaram muito tempo ao projeto e ao fim de 22 anos decidiram seguir outros rumos que também eram importantes. Eles têm dois filhos, mas pode dizer-se que o Contra-Senso foi o primeiro filho deles. O Miguel foi o autor e encenador de praticamente todas as peças desde que fundou o grupo até ter saído”, conta a atual presidente da Direção, que entrou para o grupo pouco tempo depois da sua fundação.
Tudo começou na Escola Secundária D. Dinis, em Marvila, nos anos 1990, quando uma professora de português do nono ano pediu ao aluno Miguel Mestre que encenasse o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, para o grupo de teatro da escola. A experiência correu tão bem que a professora o desafiou a continuar.
Miguel continuou e foi aí que germinou o grupo de teatro amador que viria a fundar, em 1997, com Sandra Fonseca e Marta Carvalho, quando estavam já na universidade: o Teatro Contra-Senso.
“Eles foram para a faculdade, mas o desejo de continuar a fazer teatro era imenso e então fundaram a associação, que é uma associação cultural sem fins lucrativos, em julho de 1997. Eu, que também andei na D. Dinis e comecei a fazer teatro na escola, entrei uns meses depois”, lembra Marina Subtil, hoje professora de Físico-Química nos Olivais.

Vanessa Filipe, colega de direção, também ela marvilense de gema e antiga aluna da D. Dinis, que hoje é professora do primeiro ciclo em Vila Franca de Xira, entrou um ano depois, em 1998, quando abriram audições para o grupo.
“Eu ainda andava no liceu quando o Contra-Senso levou a primeira peça ao Tivoli. Andámos nas salas todas a fazer publicidade. Eles ainda funcionavam na escola, que apoiou muito e cedeu espaços para os ensaios. Entrei depois dessa primeira peça”, lembra Vanessa, que conta, a rir, era a fã número 1 do Contra-Senso.
“Desde miúda que eu queria era ir para as marchas, queria ser da Marcha de Marvila, aparecer, mas a minha mãe não deixava porque dizia que eu tinha era que estudar. Então, quando criaram o grupo de teatro, enquanto não entrei, não descansei”, conta.

Ana Luísa Ferreira chegou de outra maneira. Não é de Marvila, nem sequer de Lisboa, é de Trás-os-Montes.
“Estava há nove dias em Lisboa e trabalhava com uma das fundadoras, a Sandra Fonseca, e na altura abriram audições. Estávamos a tomar café e ela perguntou se alguém queria ir. Eu disse logo que sim”, conta a atriz e encenadora do atual espetáculo.
Isso foi há mais de vinte anos. Hoje, Lu, diretora de comunicação de uma ONG, é um dos elementos mais ativos do grupo. Marvila, como diz a Vanessa, faz isto às pessoas, adota-as. Torna-as marvilenses, mesmo que venham de tão longe.
É o caso de Manuel Saraiva, que veio viver para Marvila em 1976 e hoje é um autêntico arquivo vivo da freguesia, na qual intervém há décadas: na comissão de moradores que fundou em 2006 (do Bairro das Amendoeiras), na assembleia de freguesia, no Conselho Marvilense, entretanto extinto, mas que foi, nas suas palavras “uma experiência riquíssima e muito importante, que é uma pena ter desaparecido” e através do qual estreitou relações com o Teatro Contra-Senso. Começou como espectador, foi convidado a prefaciar o livro dos 20 anos do grupo, em 2017, entrou para a direção em 2019 e hoje faz parte do elenco.

Outra das “estrelas da companhia” é André Santos, que entrou em 2008, pouco mais que adolescente, persuadido pela irmã, atriz no grupo, porque era preciso alguém para um papel pequeno. “Ela entretanto saiu e eu fiquei, com algumas interrupções, mas fiquei. Queria muito ser ator”. E é, amador. Profissionalmente, é terapeuta de massagens, mas representar é a paixão do André. “Gosto muito e um dia também gostava de escrever teatro”, diz.
Inês Vilar, arquiteta, chegou ao Contra-Senso em 2019. Como Manuel, começou como espectadora, seguia o grupo nas redes sociais, inscreveu-se numa formação que acabou por ser interrompida por causa da pandemia e assim que pôde juntou-se ao elenco.

“Fiz três anos de formação em teatro musical, que interrompi quando fui para a faculdade, mas quando estava a fazer a tese, tinha mais tempo e voltei ao teatro, aqui”, conta, explicando que a relação com Marvila vem dos escuteiros e dos namorados, o ex e o atual. “Mantenho as minhas relações amorosas em Marvila”, diz, a rir.
Em 28 anos, já passaram centenas de pessoas, a maioria marvilenses, pelo Contra-Senso. Há sempre gente a sair e a entrar. Hoje são cerca de quinze, entre elenco e equipa técnica. Nenhum é ator profissional. Todos têm outras profissões. Todos fazem um pouco de tudo. E continuam.
Traz outro amigo também
Feitas as apresentações, Marina retoma o fio de Ariadne. “Deu medo quando o Miguel saiu, mas nós queríamos muito continuar a fazer teatro e essa vontade foi mais forte. Não concebíamos o fim do Contra-Senso.”
Em 2019, uma nova direção assumiu os destinos da associação. Vanessa, que tinha estado quinze anos afastada – casou, teve uma filha, começou a trabalhar, foi viver para longe –, voltou quando soube que o grupo precisava de gente para continuar.

“Quando a Marina me ligou, eu disse que não tinha vida para isto, que era só mesmo dar o nome e ir a uma reunião ou outra. Mas, olha, desde então entrei em quase todas as peças. Não tenho remédio”, conta Vanessa, claramente a comediante do grupo.
O primeiro espetáculo da nova era foi uma criação coletiva de poesia encenada, Versos que nos Unem, apresentada no Teatrartes – festival bienal do Teatro Independente de Loures (TIL). Correu tão bem que acabou por ser determinante para o futuro do grupo. Fortaleceu a coesão interna e gerou parcerias que se mantém até hoje.
“Foi um pico de adrenalina. Percebemos que conseguíamos e isso foi super importante para esta nova direção”, diz Marina
Filipe Mateus Lopes, do TIL, que colabora no espetáculo atual, lembra-se de como esse espetáculo o marcou. “Foi extraordinário, porque mostrou o que se pode fazer em palco com a poesia, desconstruiu aquela ideia de solenidade da declamação”, diz.

A amizade que se construiu entre os dois coletivos deu origem a uma parceria que se mantém e a uma coprodução – Estação Poema – que vai voltar a cena este ano.
A criação tornou-se horizontal, partilhada, coletiva. Não há um encenador, a encenação é rotativa e até aberta a colaborações externas e é nessa vontade de fazer teatro, de criar parcerias, de estabelecer relações com outros grupos e com a comunidade que o Contra-Senso encontra propósito e força para continuar, com uma nova produção por ano, em média, a organização do ORIENTE-SE, o Festival de Teatro Amador do grupo, que teve a quarta edição em 2022, ensaios semanais e workshops abertos à comunidade.
Um grupo da freguesia – e para a freguesia
Marvila mudou. Entre a memória operária e a pressão imobiliária, entre o passado industrial e a nova paisagem de espaços de lazer, consumo e habitação de luxo, há uma tensão que atravessa o território. O Contra-Senso não a resolve, mas observa-a, absorve-a e trabalha sobre ela.
É também por isso que o grupo tem importância na freguesia: porque cria continuidade, mantém um espaço de criação acessível e insiste em existir num contexto onde a cultura – sobretudo a não profissional – é frequentemente periférica.
O público é, muitas vezes, feito de amigos, familiares, fregueses de Marvila. Lisboa tem imensa oferta cultural – todos concordam –, mas isso não diminui a importância do grupo, antes a reforça. “A oferta cultural é muita. Quando vamos a festivais em zonas mais pequenas, a casa está sempre cheia. Em Lisboa, é mais difícil, mas se calhar também chegamos a pessoas que de outra forma não teriam acesso ao teatro”, diz Vanessa.

Os espetáculos circulam sobretudo entre festivais de teatro amador por todo o país e, ao nível da freguesia, entre a Biblioteca de Marvila e o Auditório Fernando Pessa, na Casa dos Direitos Sociais, no Bairro da Flamenga. Conseguir datas é o maior desafio: os espaços são poucos e disputados. Reservar com um ou dois anos de antecedência não é exceção, é regra.
“Já estamos a negociar as datas para a peça que vai assinalar os 30 anos do Contra-Senso, em 2027, e não tem sido fácil reservar as que tínhamos imaginado”, diz Marina.
O que gostariam de ter é simples de enunciar e difícil de concretizar: uma sala de espetáculos. Um espaço próprio que servisse também para ensaios. Um lugar onde pudessem criar e apresentar, receber outros grupos, abrir mais vezes à comunidade.

Por agora, continuam a adaptar-se – a ensaiar num espaço que, como Marina diz, está “um bocado cheio de mais”, sobretudo após a inundação de 2021, que praticamente inutilizou o piso de baixo, que está em cimento.
“Estamos há uns três anos à espera de que a Gebalis faça as obras que acordou fazer lá em baixo e que são simples – é nivelar e colocar um piso. Mas não tem sido fácil”, diz Marina, a quem tem faltado o tempo para exercer maior pressão.
A falta de tempo é também a razão para que a relação com a comunidade não seja tão assídua como já foi e como o grupo gostaria que continuasse a ser.
“Sempre tivemos uma perspetiva de proximidade, de que o nosso trabalho não era só de palco, mas também de relação com as pessoas”, diz Lú, que tem sido uma das impulsionadoras de projetos nesse âmbito.
O Conselho Marvilense – uma estrutura que juntava várias instituições da freguesia – foi decisivo para criar sinergias locais, desde parcerias criativas até trocas de serviços. Hoje, essa articulação é mais fragmentada, mas a lógica mantém-se: trabalhar em rede. Levar o teatro para fora de si.
Ao longo dos anos, o grupo desenvolveu projetos financiados pelo programa BIP-ZIP, com oficinas regulares para crianças, jovens e seniores, e continua a dinamizar workshops abertos à população. Nem sempre com a mesma intensidade, mas sempre como intenção.
“O BIP-ZIP obriga a definir um projeto, a apresentar orçamentos, e temos de ter disponibilidade, ao fim de um dia de trabalho, para nos dedicarmos a isso. Não só às candidaturas, mas depois à implementação. Por isso nem sempre é fácil”, explica Ana Luísa Ferreira.
O Contra-Senso vive de um equilíbrio frágil: pouco tempo, poucos meios, muita vontade. É um contrassenso? É. E é isso que o define – e que o sustenta há quase três décadas.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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