“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Não é por acaso que a palavra esperança é repetida no título e na entrada desta reportagem. A sede histórica da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, na Avenida D. Carlos I, tinha uma porta que dava para a Rua da Esperança e a Cossoul ficou conhecida como o “Conservatório da Esperança”.

Foi aliás esta expressão que o realizador Zé Pires usou como título do documentário que fez sobre a Cossoul, em 2018, quando a coletividade se viu obrigada a sair do edifício-berço. Um documentário que é uma despedida, uma homenagem e uma denúncia, mas também é um ato de resistência e de esperança. Justificado. 

Fábio Sequeira e Virgínia Barbosa. Foto: Líbia Florentino

Sete anos depois, na atual sede da Rua Nova da Piedade, 66, a dois passos do Palácio de São Bento, a Cossoul resiste, com uma direção voluntária de gente nova, a banda juvenil, que não desarma, uma programação quase diária, que inclui cinema, música, poesia, stand-up comedy e artes visuais, e uma generosa vontade de construir futuro.

Numa sexta-feira à noite, 3 de outubro de 2025, na pequena sala de espetáculos do novo, que já não é novo, espaço, cerca de duas dezenas de pessoas viram ou reviram o documentário Cossoul – O Conservatório da Esperança.

A “Guilhas” das varinas e do teatro amador

Entre os espectadores, estava Celestino Silva, 88 anos, que participou no documentário e era o único ali que conheceu a Cossoul dos pescadores que aprendiam música nos intervalos da faina e das varinas que se engalanavam para os bailes, da biblioteca onde os miúdos do bairro liam os primeiros livros e do início do teatro amador, onde à noite se juntavam todos a ensaiar vidas alheias.

Era a “Guilhas”, outra das alcunhas que os íntimos davam (e dão) à Guilherme Cossoul. Com oito anos, lá ia o Celestino, levado pelo irmão, o ator Varela Silva, então um jovem de 16, ver os ensaios.  “Eu era um miúdo pequeno e lembro-me de ficar ali fascinado a ver os matulões a ensaiar e a discutir, fartavam-se de discutir. Era o meu encanto, assistir àqueles ensaios”, diz.

Fundada em 1885 por 47 amadores de música e admiradores de Guilherme Cossoul, compositor e violoncelista português do século XIX e fundador dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, depois da morte deste e em sua homenagem, a “Guilhas” depressa assumiu um papel de polo cultural no bairro da Madragoa e arredores. 

“A Cossoul nasceu como Sociedade de Instrução Musical, mas depois havia a biblioteca, havia recitais de poesia, e havia os bailaricos ao domingo. Aquilo mobilizava a malta toda da Madragoa. Muitas varinas, muitos pescadores, tudo engalanado para o baile, mas que depois também iam assistir a espetáculos. Isso é que era giro”, conta Celestino, a rir com a memória das vizinhas dos prédios em frente a abrirem as janelas para ouvirem a música. 

“Faziam bailarico também lá em casa. Era muito engraçado. Depois uma coisa levava a outra. Foi com a malta ali do bairro que começou o teatro amador. O Raúl Solnado vivia em frente, eu e o meu irmão também. Os dos bailes começavam a achar graça ao teatro e aderiam. Uns representavam, outros faziam os cenários, outros aprendiam a fazer as luzes, outros faziam de ponto, todos queriam participar”, lembra.

“Era tudo amador, mas levava lá muita gente, mesmo de fora do bairro, aliás foi por isso que lhe chamaram Conservatório da Esperança. Por estar na Esperança e porque as pessoas que lá andavam podiam ter esperança de vir a representar profissionalmente. Saiu de lá muita gente que fez carreira no teatro”, diz Celestino Silva, enquanto folheia os álbuns de fotografias antigas e de recortes de jornais. 

“Vês aqui o meu irmão [Varela Silva], eu com o Luís Alberto num recital de poesia, aqui o Zé Viana, o Henrique Viana, a Alina Vaz, que era muito bonita”.

Embora a vida o tenha afastado da “Guilhas”, a verdade é que a “Guilhas” permaneceu nele. Encadernador no Banco de Portugal da juventude à reforma, esteve sempre ligado ao teatro amador, até na tropa. Depois de se aposentar, trabalhou com Joaquim Benite na Companhia de Teatro de Almada, cujo elenco integrou durante anos e, hoje, com uns joviais 88, faz parte do coro e de duas bandas do Banco de Portugal, onde ensaia vários dias por semana, todas as semanas. 

Voltar à “Guilhas” trouxe-lhe sentimentos contraditórios. Por um lado, as memórias boas, por outro a pena de a ver confinada a um espaço tão pequeno.

“Mesmo com muito boa vontade, aquele espaço é muito limitado, sobretudo para o teatro e é uma pena”, diz.

Desmaterialização

É. Mas a Cossoul continua. E a luta também. A apresentação do documentário de Zé Pires, Cossoul – O Conservatório da Esperança integrou o programa comemorativo dos 140 anos da coletividade, completados a 7 de setembro de 2025. 

Para chegar aos 140 foi preciso resistir e Virgínia Barbosa, presidente da direção e diretora artística da Cossoul, é um dos rostos dessa resistência, que começou antes, muito antes dela.

Virgínia Barbosa, presidente da direção e diretora artística da Cossoul. Foto: Líbia Florentino

Natural da Madeira, 39 anos, engenheira informática, amante de cinema e realizadora, veio viver para Lisboa em 2004, quando entrou para o Instituto Superior Técnico. Conheceu a Cossoul graças à paixão pelo cinema, por volta de 2014, e, em 2018, foi desafiada a colaborar na última peça criada e encenada na sede da Madragoa – “Desmaterialização” – para ajudar com os vídeos e o som.

“Era sobre uma fábrica que ia fechar e portanto era de certa forma uma metáfora para o que estava a acontecer na Cossoul, que tinha de deixar a sede e encontrar um novo espaço”, lembra Virgínia.

À porta da Cossoul. Foto: Líbia Florentino

O encenador, Paulo Tavares, era presidente da direção. Cláudio Henriques, Sara Felício e Rui Ferreira, do elenco, também eram dirigentes. Criou com todos uma relação forte e, como o mandato estava a terminar e se preparava uma nova lista aos órgãos sociais, Virgínia Barbosa foi convidada a integrá-la. Ficou com o pelouro das Artes Visuais. 

O trabalho que tinham todos pela frente era imenso: adaptar a centenária coletividade, saída da sede da Madragoa, onde o teatro era âncora e espinha dorsal, a um espaço, em São Bento, chamado Casa dos Mundos, onde não havia palco.

À espera de Godot

“Essa foi a maior perda”, considera Miguel Santos, arquiteto, que foi presidente da Cossoul e fez parte do AltaCena, grupo de teatro amador criado pelo ator e encenador José Boavida, que também foi presidente da Cossoul.

 “A Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul nasceu pela música, mas a verdade é que o teatro ganhou desde cedo uma presença muito forte. Nos anos 1940 e 50, Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro iam lá buscar atores para o Nacional”, diz Miguel Santos. 

Foi lá que se representou pela primeira vez em Portugal uma peça do teatro novo, o Monta-Cargas, de Harold Pinter, em 1963, encenado por Jacinto Ramos, com tradução de Luís de Sttau Monteiro e cenários do pintor João Vieira [pai de Manuel João Vieira]. 

Miguel Santos, arquiteto, que foi presidente da Cossoul e fez parte do AltaCena, grupo de teatro amador criado pelo ator e encenador José Boavida, que também foi presidente da Cossoul.

“Depois, houve um interregno nos anos 70 e 80, mas partir de meados de 90 com a chegada do José Boavida, o teatro e a formação de atores ganharam um novo impulso. Lá estrearam atores como Pepê Rapazote, Pedro Barbeitos, Oceana Basílio ou Manuel Marques”, diz o antigo dirigente e atual assessor da direção [também ele voluntário], que nos últimos cerca de vinte anos participou na luta por uma sede que permitisse manter a atividade teatral.

Quando chegou à Cossoul, nos anos noventa já se falava na hipótese de perder a sede, diz Miguel, lembrando que houve um acordo com a “Câmara Municipal de Lisboa, presidida por João Soares, para a cedência do edifício que é hoje o Espaço Alkantara, na Calçada Marquês de Abrantes, que caiu, com a mudança de executivo”. 

“Depois, foi-nos cedida uma antiga escola primária em Campolide, e até começámos a utilizar o espaço, mas também esse acordo caiu por questões políticas. Quando, em 2017, nos deram seis meses para sair da sede, a alternativa foram estas instalações, que seriam provisórias até se arranjar uma solução”, diz, sublinhando que já lá vão sete anos. 

Houve pois que avançar com a reinvenção. “Esta nova Cossoul teve de congelar o teatro e apostar noutras áreas culturais, que são o que o espaço admite”. 

Ainda estamos aqui

Teve de congelar, mas não desistiu. Virgínia Barbosa percebeu a perda e a tristeza que significou sair da Madragoa para quem começou na velha Cossoul e sentiu-a também, porque viveu o processo de transição.

“Em 2018, quando fomos notificados que tínhamos de sair, a Junta de Freguesia da Estrela propôs uma parceria para recuperar o Centro Cultural da Madragoa, que, depois de remodelado, seria a sede da Cossoul e acolheria eventos da Junta. Fizemos todo o projeto de recuperação. A ideia era ter cá em baixo um café-concerto, uma biblioteca, uma livraria e, no primeiro piso, a sala de teatro”, lembra Virgínia. 

O projeto foi aprovado, foi à Assembleia Municipal, a Câmara aprovou a verba, mas não avançou. “A Junta depois pôs alguns entraves, as negociações e o protocolo andaram para trás e para a frente, passaram para o meu mandato e eu também não consegui levá-lo a bom porto. Essa hipótese deixou de existir, o Centro Cultural da Madragoa continua fechado para obras e nós continuamos aqui”, explica a atual presidente da Direção.

Aqui é um edifício de dois andares, compartimentado em pequenas divisões, no piso de cima, e a pequena sala de espetáculos à entrada, um corredor, onde fica o bar, e um pátio, no piso de baixo. A mudança não foi fácil, até porque, explica Virgínia Barbosa, significou uma grande perda de receitas. “Na D. Carlos I tínhamos parcerias com várias escolas ali à volta, tínhamos o curso de teatro, tínhamos teatro para crianças, e, além da sala de teatro, tínhamos o café-concerto. Dava para ter várias coisas a acontecer”. 

Houve também perda de público e de sócios. “Apesar de não estarmos assim tão longe, acho que as pessoas sentiam uma grande ligação àquele espaço, uma ligação afetiva, e para muitos talvez já não fosse a mesma coisa”, interpreta Virgínia, uma das protagonistas da necessária adaptação e reinvenção, que começou pelas paredes, a decoração e a organização do espaço e acabou na programação.

Sem condições para manter a espinha dorsal teatral — “ainda fizemos duas edições do curso de formação de atores, mas percebemos que ensaiar fora da Cossoul não fazia muito sentido” —, a programação centrou-se no cinema, na música e nas artes visuais.

Foto: Líbia Florentino

Na pequena galeria, nasceu o projeto Balão, com curadoria de Andreia César, da direção da Cossoul, com exposições site-specific, conversas com artistas e workshops. O cinema, programado por outro dos diretores, Fábio Sequeira, ganhou peso. A música multiplicou formatos, entre o acolhimento de artistas e as iniciativas próprias, com artistas convidados, de que são exemplo as “tardes com”. E também há poesia e noites de stand-up comedy.

O teatro está em stand-by e a vontade de o recuperar é muita, mas aquilo que se mantém e acaba por ser uma homenagem às origens da Cossoul é a banda juvenil, que continua a oferecer prática gratuita de música e que sobrevive apesar das dificuldades. “Antes tínhamos um bom espaço de ensaio; agora, temos de dividir por naipes”, diz Virgínia. Falta espaço, mas não falta vontade.

A Banda

Formada em 2016 com o apoio do programa Práticas Artísticas para a Inclusão Social (PARTIS II) da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do projeto “Novos Alunos da Guilherme Cossoul”, a Banda Juvenil Guilherme Cossoul foi criada para proporcionar ensino gratuito e informal de música e promover a prática artística conjunta a crianças e jovens de vários bairros e zonas de intervenção prioritária de Lisboa. O projeto terminou, mas a banda ficou, misturando idades, origens e histórias e tornando-se uma das âncoras da nova Cossoul.

A Banda Juvenil Guilherme Cossoul foi criada para proporcionar ensino gratuito e informal de música e promover a prática artística conjunta a crianças e jovens de vários bairros e zonas de intervenção prioritária de Lisboa. Foto: Líbia Florentino

O professor André Correia chegou em 2020, duas semanas antes da pandemia: “Conheci-os em dois ensaios e depois fechou tudo. Mas continuámos online. Desde aí foi sempre a fazer, e eles tocam bem. Estamos a fazer um excelente trabalho musical.” Não é de Lisboa e entrou por convite do fundador da banda, Rui Magno Pinto: “Foi através dele que comecei a ligação com esta casa e, acima de tudo, com esta banda.”

Os alunos contam trajetórias diversas. A Beatriz, 14 anos, chegou há cerca de oito: “Queria aprender um instrumento. A minha mãe encontrou o projeto. Experimentei trompete e gostei.” O Eduardo, 9 anos, está “desde que nasceu”, como brinca André. Fez uma pausa porque entrou para o Conservatório e não conseguia conciliar horários, mas agora voltou porque “já consegue”.

Guilherme começou a aprender música aos três anos no Brasil. Mudou-se para Portugal e veio para a Cossoul porque “tinha crianças” da idade dele. “Sempre quis tocar trompete, mas foi só aqui que comecei a tocar”. O Tomás, 16 anos, é o veterano e ainda ensaiou no antigo espaço: “Comecei com 6 anos. O trompete não era a minha escolha, queremos sempre o instrumento maior e o mais brilhante, mas a banda precisava de trompetes e também era brilhante e então fiquei com o trompete.”

A Banda Juvenil Guilherme Cossoul. Foto: Líbia Florentino

Há ainda outro tipo de veterano. O Francisco, 71 anos, tocava em jovem e voltou a tocar aos 60. “Depois fui atropelado e parei seis anos. Agora estou aqui no meio das crianças, gosto muito. Ver a evolução deles é extraordinário.”

A banda já não é apenas juvenil. E há quem venha em família. Há irmãos, há primos e até um pai que tinha cá os filhos e acabou por assumir a bateria, que precisava de intérprete. “É aberto a todos, desde que assumam o compromisso de vir”, diz o maestro André.

Os professores também vêm por amor à música. Simioni, professor de flauta, viaja todas as semanas desde Portel: “Já não imagino um sábado sem vir. Cria-se este vínculo com os miúdos.” Sentimento partilhado por Valter, professor de clarinete, que chegou em setembro e está a gostar muito da experiência.

Foto: Líbia Florentino

Os concertos são frequentes: Natal, 25 de Abril, convites de instituições parceiras, apresentações “arranjadas” por iniciativa das famílias. “Vamos fazendo o que aparece e têm aparecido muitos concertos”, diz André.

No “fim do dia”, a banda é mais do que música. Como resume o professor: “Uma banda mantém as pessoas na música. Aqui juntamo-nos, trabalhamos, ensaiamos e fazemos concertos. Corra bem ou mal, fizemos juntos. Acho que fazem muita falta a Lisboa as bandas filarmónicas, que são um ponto de encontro, estimulam a prática da música e acabam por ser uma segunda família”.

Encontrarmo-nos é preciso

A frequência da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul é tudo menos linear. Não há um público único nem facilmente definível: há um cruzamento constante de pessoas, interesses e hábitos. Moradores da freguesia, visitantes ocasionais, estrangeiros que passam à porta e entram por curiosidade, estudantes de artes, seguidores atentos nas redes sociais.

Um “bom mix”, como lhe chama Virgínia Barbosa, mas também um desafio permanente.

A diversidade da programação — cinema, concertos, literatura, artes visuais, banda — faz com que cada iniciativa atraia públicos específicos, fiéis, mas dispersos.

Ainda assim, há sinais claros de ligação ao território: quando a oferta é mais clássica ou inclui parcerias com escolas de música, a presença da freguesia é mais visível.

A internacionalização do bairro, por outro lado, traz novos públicos, sobretudo para propostas menos convencionais, como jazz ou concertos singulares. A Cossoul vive, assim, numa geografia diluída, entre bairros, freguesias e circuitos culturais que já não obedecem a fronteiras claras.

O mesmo acontece com os associados. Embora existam muitos sócios, poucos participam ativamente na vida da coletividade. As assembleias juntam algumas dezenas; os realmente envolvidos contam-se por 30 ou 40.

A direção insiste em campanhas de angariação e na criação de laços, mas reconhece que o espírito associativo se perdeu com o tempo: excesso de oferta cultural, ritmo acelerado, dispersão digital, necessidade de retorno imediato.

Foto: Líbia Florentino

Ainda assim, a aposta mantém-se: criar comunidade, fidelizar relações, construir uma “comunidade Cossoul” que sobreviva ao ruído dos tempos e à lógica do consumo rápido. O futuro joga-se aí — na capacidade de continuar, reinventando-se sem perder o sentido de casa, diz Virgínia Barbosa.

O realizador Zé Pires, fã incondicional da Cossoul e do trabalho voluntário e “extraordinário” da atual direção, deita mais uma acha à fogueira. Para ele, o declínio das coletividades não é exclusivo de Lisboa nem resulta apenas da pressão imobiliária. É um sintoma mais fundo: a quebra dos encontros, a substituição da convivência pelos auriculares, pelos ecrãs, pela vida fragmentada. 

“As coletividades nasceram de uma necessidade humana básica — a de se juntar, agremiar, de se reconhecer no outro — num tempo em que não havia distrações digitais nem consumo permanente de conteúdos. Quando esses espaços desaparecem, instala-se o medo”, diz. 

Não por acaso, lembra Zé Pires, peças marcantes da Cossoul, como o Monta-Cargas, do Harold Pinter, falavam do medo e foram encenadas em ditadura. Hoje, o medo regressa sob outras formas: solidão, radicalismos, autoritarismos. 

O realizador Zé Pires.

Como referia Jorge Silva Melo, citado no documentário de Zé Pires, “as cidades deixaram de ser lugares de troca para se tornarem lugares de venda”. Mas a troca permanece possível: “não é preciso um palco para que o teatro exista, basta o encontro”, diz o realizador, para quem a Cossoul continua a cumprir essa missão original. 

É um espaço de resistência porque insiste em agregar pessoas, em criar pontos de contacto entre gerações, práticas e linguagens.

A diversidade da programação acaba por ser estratégia de sobrevivência, adaptação inteligente aos tempos. Onde há jazz, cinema, exposições ou fragmentos performativos, há encontro. E é nesse gesto simples — sentar-se, falar, escutar — que se combate o medo, o autoritarismo e o populismo. As coletividades importam porque juntam as pessoas. E enquanto houver encontro, há esperança.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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