Este texto é o segundo capítulo de uma outra crónica. Leia aqui.
Depois da surpresa inicial de tão improvável conversa, terá ficado a pairar a ideia de se poder lançar um outro desafio, ou seja, poder-se identificar, de entre a vasta e respetivas obras, qual ou quais os títulos que melhor poderiam traduzir realidades ou espelhar mitos que o Comércio tem permitido viver e vivenciar pelo conjunto de atores envolvidos, seja do lado da oferta e daqueles que fazem do Comércio o seu ofício, seja do lado da procura e daqueles que fazem dos Comércios o palco de expressão da sua “arte” de melhor poder e saber satisfazer as suas necessidades.
Face àquilo que foi o início desta “nossa Conversa”, e às obras fontes de inspiração daquilo que suportou o argumentário de cada um dos autores, de imediato emergiram à ideia dois títulos, já então apontados, ou seja, “LIVRO DO DESASSOSSEGO” e “A CAVERNA”, livros que, só por si, dariam azo a que tanto se pudesse refletir sobre o tema – Comércio, fosse apenas pelos títulos que, por si, já dizem muito, fosse pelos livros, em si mesmo, na sua plenitude, que muito dizem sobre…
Dos desassossegos de sempre do Comércio, vindos de há 100 anos, naquilo que Pessoa passou a escrito na famosa revista “COMÉRCIO E CONTABILIDADE”, até outros desassossegos, mais recentes, incluindo os focados na própria alegoria d´“A CAVERNA”, de que Saramago se socorre, com a mestria de vida que lhe é reconhecida e o reconhecimento que lhe será eternamente devido, para escrever aquele que se constituirá como um “Tratado” sobre o Comércio, os comércios, a produção e o consumo, a muito custo resisti, pelo que reservo tais obras e suas inspirações, tanto de um certo Desassossego d´A Caverna como da incerta Caverna dos Desassossegos, para explanação futura, se a “Conversa” a tal se proporcionar!
De José Saramago emerge escrita que, na perceção de quem sobre Comércio escreve e gosta de o fazer, tudo parece convergir para a tal atividade económica, social e/ou cultural dos comércios, dos afazeres de quem o vive e pratica, das decisões e comportamentos de quem dele precisa para satisfazer suas … precisões.
De Fernando Pessoa, a intemporalidade revelada pelos seus, a sua pertinência e a “entrepenetração” de conteúdos com muito daquilo que são as realidades, ainda hoje, vividas pelo(s) nosso(s) Comércio(s) que, de facto, não é só um, longe disso, parece permitir enformar de forma perfeita aquilo que têm sido e são, ainda hoje, os nossos dias, marcados pelo passado, marcantes no presente e que farão acontecer o(s) futuro(s) do(s) Comércio(s)!
No caso, o feitio ou o defeito será de quem vê, ou julga ver, esta “arte”, quiçá “ciência” de um certo Comércio, em tudo, ou quase tudo, o que lê, lendo por vezes o que não encontra escrito ou apenas querendo-o poder ler, quase e apenas por tanto o crer!
Não se tratará de (in)justiça, de (in)compreensão, de (des)conhecimento, de (des)interesse, de (des)informação, de ignorância, decerto que não, pois será curial concluir que de comércio(s) todos percebemos um pouco, quanto mais não seja pela simples razão de que todos, sem exceção, somos afinal, protagonistas, figurantes, público, somos procura, somos clientes, somos consumidores, somos atores!
Em suma, importa e urge deixar citado:
“Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais nem querendo ser mais que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espetáculo que posso”.
Se necessária fosse uma só razão que seja ou a procura de suficiente justificação, ingrata com toda a certeza, para integrar uns e excluir outros, refiro-me aos textos de Pessoa, pelo simples argumento de abordarem o tema – Comércio, afigura-se que a melhor forma de o tentar fazer, pelo menos assim me parece, poderá ser um texto síntese que de forma abusiva tentei impor nesta “conversa”.
Precisamente 100 anos depois de os mesmos terem sido escritos, qual espécie de epílogo que poderá sempre suscitar a dúvida – terá sido “pensado na íntegra”, em 1926 e, então, escrito, ou “pensado, na íntegra, agora”, tendo por base o escrito em 1926, o pequeno texto, de seguida transcrito, surge, assim, inspirado por títulos (a maiúsculas) de textos de Pessoa, os quais “entrepenetrados” parecem ter sido escritos de forma avulsa, mas que juntos parecem “respirar Comércio”, suscetíveis de inspirar tanta e tanta escrita sobre o mesmo.
Já no caso de José Saramago, um “Ensaio sobre … Comércio(s)” seria título plausível, resultante de um possível vislumbrar “Comércio” na sua obra, como um exercício de leitura aberta, solto de amarras e de conceitos pré-estabelecidos, livre de preconceitos, dado a uma interpretação livre e criativa inspirada, também, nessa liberdade plena da qual o autor sempre fez ponto de honra no valor da sua vasta obra e nos valores que a mesma sempre enalteceu.
De entre dezenas de títulos da sua obra saltará à vista, para todos os que se interessam pelos temas do Comércio, o livro “A CAVERNA” (de 2000). Para além da alegoria que lhe está subjacente, até uma leitura menos aprofundada será suscetível de conhecer e entender Comércio a cada página. Lendo a narrativa em causa é com normalidade que nos vemos, imaginando, na pequena olaria, no grande centro comercial, não só nos meandros da naturalidade do seu dia-a-dia, como também na artificialidade que os tempos e as vontades arrastam para com ambas as “religiões ou correntes” de Comércio em apreço. Crentes e céticos nos comércios do Comércio, todos reconhecerão nas páginas de “A CAVERNA” a essência daquilo que há muito defendem. A transição do patamar da produção versus satisfação de necessidades de quem vende e de quem compra, para um outro patamar em que a compra dá lugar ao consumo, mais tarde, pelo enviesamento conferido por uma tal modernidade, empurrada por supostos novos tempos, alicerçada, no entanto, pelas velhas e novas vontades, apenas e tão só … o consumismo!
Mas inspiração bastante, é possível de ser extraída de outros títulos que tão bem suportariam, ou melhor, suportarão o dito … Ensaio sobre Comércio(s).
De “ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ” (de 2004), mais recente do que antigo, ao “ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA” (de 1995), mais antigo do que recente, o caminho ensaiado acerca da lucidez necessária a quem pretende fazer vida do Comércio, até à cegueira de quem em frente do espelho do “ser-e-fazer Comércio” já vive, sem que com isso se importe, do consumismo e não do consumo, da compra, sobrevivendo da venda de tudo aquilo que é vendável e já não daquilo que é… apenas comprável.
A propósito de Comércio(s), as “PALAVRAS INICIAIS” destas “Conversas”, ainda que “Improváveis”, não devendo ser excessivamente marcadas por mera “TEORIA E PRÁTICA” não poderão deixar de percorrer a “EVOLUÇÃO DO COMÉRCIO”, na medida em que “MUITA GENTE FALA DE COMÉRCIO COMO SE ELE FOSSE SÓ UM”, revelando desconhecer a verdadeira “ESSÊNCIA DO COMÉRCIO”, desconhecimento esse, marcado, de forma indelével, por “RÉGIE, MONOPÓLIO, LIBERDADE”, talvez demais nuns casos, de somenos noutros, mas também por (in)capacidades e/ou (in)competências aprisionadas por “ALGEMAS”, que jamais lhes permitirão “ORGANIZAR”, sequer, simples ideias, num tempo, “O NOSSO TEMPO, EM QUE TANTAS ACTIVIDADES COMPLEXAS SE DESENVOLVEM” e, em que à semelhança de passados, mais ou menos, presentes, “OS HOMENS DIVIDEM-SE, NA VIDA PRÁTICA, EM TRÊS CATEGORIAS”, todas elas quase tão inábeis para tirar melhor partido da “VERDADEIRA OPORTUNIDADE” como pouco hábeis para explorar os “ELEMENTOS DE VITÓRIA”.
Nestas coisas, ditas, também, da (r)evolução do Comércio, baralhando e voltando a dar conceitos (talvez, simples palavras!), crescimento e desenvolvimento, cegueira e lucidez, têm-se revelado sinónimo(s) em que se parece confundir o significado das palavras com a significância dos números que, ao que parece, tanto sustentam, justificam e pretendem com isso fundamentar.
Poderá ser que neste confronto, neste dilema, que somos levados a outra obra marcante – “O HOMEM DUPLICADO” (de 2002), em que cada qual que vende e que faz disso vida, sempre compra algo a outro, ao passo que nem todos aqueles que compram, saberão o que é vender e disso fazer vida. Mas o homem duplicado pode muito bem ser aquele que olhando para o espelho, cada vez menos destrinça entre o que compra para consumir e o que consome, apenas, por comprar!
Por fim, e porque tempo e espaço, em Comércio, têm valor, afirmam-se pelos valores, de “LEVANTADO DO CHÃO” (de 1980) poder-se-ia vislumbrar o quotidiano de adversidades com que tantos comércios se deparam, pondo em causa a persistência do ofício, a manutenção do negócio, ponderando encerrar portas como solução, mas resistindo e lutando, contornando as dificuldades e os obstáculos, levantando-se, reconstruindo-se, (re)erguendo-se do chão, dia após dia, preservando os passados, mantendo vivo o presente, não abdicando do(s) futuro(s).
Retratar Comércio(s) a partir destes cinco títulos já seria desafio bastante, mas para quem possa não o entender assim, atente-se naquilo que não poderiam despertar alguns outros títulos, de obras talvez menos conhecidas, como “DESTE MUNDO E DO OUTRO” (de 1971), “OBJETO QUASE” (de 1978), ”VIAGEM A PORTUGAL” (de 1981), “A JANGADA DE PEDRA” (de 1986), a “ESTÁTUA E A PEDRA” (de 1997) ou “AS PEQUENAS MEMÓRIAS” (de 2006).
Cada título, cada palavra escrita, se lidos, por si só ou em sã camaradagem com as que as rodeiam, tanto aos títulos, como às palavras, parece respirar Comércio, inspira, decerto, Comércios!
Ainda que tenha cometido o atrevimento de já ter apelidado o Comércio como uma espécie de “arte da coincidência”, pelo facto de o mesmo só acontecer, de facto, quando oferta e procura “coincidem”, bem saberei que Comércio não é arte nem ciência, porque não se experimenta, experiencia-se, não se ensaia, estreia-se todos os dias.
Este tal… “ver-Comércio” em obras de José Saramago não é, portanto, algo de intrínseco à obra, mas de todo aquele, leitor das obras, que, podendo olhar, verá e, certamente, reparará no(s) Comércio(s) que … mesmo que não esteja(m) lá, podia(m) muito bem … estar!
Com toda a certeza, incorrigível defeito de quem lê, feito, enorme feito, de quem escreveu tão (re)conhecidas obras, de seus nomes … José Saramago já depois, como Fernando Pessoa, bem antes.
E que esta “Conversa”, e muitas outras, sobre Comércio, possa ter a continuidade merecida e que o conteúdo das obras de ambos decerto permite, assim todos o queiramos, assim todos… conversemos com “eles”, entre nós, sobretudo entre todos!
(continua…)

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Nunca tinha pensado nessa possível conversa (ou será relação?), mas, agora que pensei, duvido que funcionasse, pois creio que nenhum dos dois gostaria do outro; quanto às obras, talvez Saramago gostasse da obra de Pessoa, mas creio que a reciproca já não seria verdadeira – e nem O Ano da Morte de Ricardo Reis, se salvaria… Note-se que eu gosto de Saramago, estou só a tentar imaginar o que seria a opinião de Pessoa…