Para entrar, é preciso saber o que se procura. Sem tabuletas ou luzes de néon, o número 1 da Travessa do Ferragial guarda um dos últimos redutos da Lisboa antiga. Atrás de uma porta de madeira e três lanços de escadas, o ruído do Chiado dá lugar ao tilintar das bandejas e ao cheiro a pastéis de massa-tenra: estamos na Cantina das Freiras – o nome é um batismo que ninguém sabe bem de onde veio, uma espécie de mito urbano que toda a Lisboa repete. Mas por esta cozinha nunca passou uma freira.
As mesas cobertas por toalhas de xadrez e as cadeiras de madeira fazem-nos acreditar que estamos a entrar em casa da avó. Mas, em vez de um espaço para dez pessoas, aqui cabem cerca de 100. Neste lugar aportam sobretudo turistas, aliciados por vídeos virais de Instagram e TikTok que dão conta de uma “cantina tradicional” em Lisboa, onde a comida é servida em tabuleiros, a sobremesa em tigelas de inox, com menus por dez euros.
Ao lado da cozinha, há um tesouro que muitos turistas ali procuram: a esplanada com vista sobre o rio. A quem a sorte calha de trabalhar todos os dias de frente para o Tejo é a Vera Bernardo. Tem 40 anos e é chefe de cozinha há dois. Com a Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei a recortarem o horizonte, Vera diz que trabalhar aqui “dá muita energia, mesmo quando está a chover, a paisagem é sempre bonita”.
A vista é elogiada, mas o que talvez ainda não se conheça sobre a cantina, é que nasceu com uma missão social muito forte: não ligada a freiras, que esse é um dos mistérios deste lugar, mas para apoiar mulheres em risco.
O refúgio social que virou cantina
A história da cantina está ligada à Associação Católica Internacional ao Serviço da Juventude Feminina (ACISJF), que ocupa o Palacete O’Neill (ou Casa de Santa Maria), em Cascais há décadas. Foi criada na Suíça em 1897, e em 1914 ganhou uma sede em Portugal. Nos anos 40, “a casa foi dada à associação, que a nível mundial apoia mulheres em risco”, explica Beatriz Bernardino, que ali trabalha há 26 anos como administradora. Na altura, funcionava como um refúgio para mulheres em situações de vulnerabilidade, algumas das quais sem proteção depois da Primeira Guerra Mundial.
Hoje, Beatriz, 57 anos, e Vando Gonçalves, 37, são administradores da atual cantina, onde ajudam a manter viva esta missão.
A cantina surgiria mais tarde.

Em 1969, abriu um self-service que “na altura era só para senhoras”, recorda Beatriz. “Trabalhavam muitas senhoras aqui à volta, tinham duas horas de almoço e traziam comida de casa para aquecer.” Depois do 25 de Abril de 1974 abriu para homens que também requisitavam apoio. Desde então, passaram a cozinhar, a vender as refeições e a ajudar na distribuição.
No mesmo edifício da cantina, em Lisboa, existe também uma residência universitária feminina e várias iniciativas de apoio social, geridas pela associação católica. Sendo a Cantina das Freiras um negócio social, as refeições ajudam a financiar parte do trabalho da Junta Nacional da ACISJF, através de parcerias com instituições e outros projetos de apoio alimentar.
A associação continuou a expandir o trabalho social, e hoje existem núcleos no Porto, Faro, Braga, Viana do Castelo e Funchal. Algumas destas casas acolhem mães jovens em situação de risco, mantêm creches e outras atividades sociais.
“A realidade mudou muito… Hoje já não são só as mulheres que estão desprotegidas.”
Beatriz Bernardino
Uma cantina que nunca teve freiras: a explicação do mito e do nome
Apesar do nome pelo qual ficou conhecida, a Cantina das Freiras nunca foi, na verdade, gerida por mulheres de qualquer ordem religiosa.
As trabalhadoras não são utentes da instituição nem mulheres em risco. “O nome é um batismo que nós não sabemos bem de onde veio”, explica Beatriz.
Vando explica, então, o mito urbano: conta que, “ao início, não havia homens a trabalhar” e, por ser uma associação católica, isso alimentou a ideia de que tinha freiras a trabalhar. Mesmo não sendo uma cantina gerida por freiras, o espírito de irmandade permanece, remata.
Curiosamente, o nome não era sequer usado oficialmente dentro da própria casa. “Durante muito tempo era simplesmente o self-service da ACISJF”, diz Vando. Só há poucos anos começou a assumir-se o nome que hoje tem: Cantina das Freiras.

Comida tradicional… a preços tradicionais
Aqui é servida comida portuguesa, simples e caseira. Um exercício de resistência, enquanto os restaurantes à volta sobem os preços. Na cantina, come-se uma refeição completa (sopa, prato principal, bebida, sobremesa e café) por menos de dez euros.
“É comida de conforto, tentamos que seja comida caseira, muito no registo da comida da avó.”
Vando Gonçalves

Entre os favoritos estão pratos tradicionais e salgados feitos na casa. “Os pastéis de massa-tenra e os ovos verdes continuam a ser das coisas que as pessoas mais pedem”, diz Vando.
A oferta mudou pouco ao longo dos anos, embora tenha sido adaptada a novos hábitos: depois da pandemia de covid-19, surgiu, pela primeira vez, uma opção vegetariana.
Os turistas do Tik Tok
A clientela também mostra que os tempos são outros em Lisboa.
Existem funcionários de escritórios da zona, professores e antigos alunos da Faculdade de Belas Artes que continuam a voltar anos depois. Antigamente “era um segredo”. “Era mais gente que já estava aqui há muito tempo que sabia da existência disto”, conta Zidânia Semedo. Tem 21 anos e trabalha na cantina há três anos. Servia cafés no balcão enquanto falávamos, naquele dia. Conta-nos que, nos últimos anos a cantina deixou de ser apenas um segredo local.
Luciano, de 60 anos, vive em Lisboa há sete anos e só recentemente descobriu a cantina ao ver o terraço online. “É um lugar muito único”, diz, destacando também que é ideal para trazer amigos. Ainda assim, admite: “é bom para o negócio, mas ao mesmo tempo perde um pouco o efeito especial” com tantos turistas.
Com a chegada das redes sociais, onde a cantina viralizou, a dinâmica mudou. Hoje, turistas de vários cantos do mundo descobrem o espaço através de fotos, vídeos e recomendações online. O movimento aumentou. “Antes tínhamos 60 ou 70 pessoas por dia”, explica Vera Bernardo, “agora já tivemos dias com mais de 100”.
“As redes sociais vieram impulsionar a facilidade com que se partilha a informação. Vêm muitos influencers, fazem publicações, e as pessoas vêm à procura da mesma experiência”, diz Vando Gonçalves. “Os turistas dizem que a comida é muito boa, é barato… a vista também ajuda”, acrescenta Vera.
Antes um refúgio para mulheres em risco, hoje o refúgio da autenticidade no centro de Lisboa. Mais do que servir refeições, a missão da Cantina das Freiras é manter o cheiro da sopa no ar.

*Texto editado por Catarina Reis

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