Ibsen, autor de “Um Inimigo do Povo”, fotografado por Gustav Borgen em 1898

O que pode a voz da lucidez contra a sedução da propaganda e o poder dos interesses instalados numa determinada comunidade? Esta questão, velha como a ganância e a sede de poder, foi o ponto de partida do dramaturgo norueguês, Henryk Ibsen, quando, no final do século XIX, escreveu a peça Um Inimigo do Povo. No texto original, a voz que se ergue é a de um cientista desconfiado das muito propaladas qualidades medicinais da água numa pequena cidade termal, cuja economia está totalmente dependente do turismo em torno da bendita fonte. E se essa água estiver, afinal, gravemente poluída, com riscos acrescidos de saúde para quem a toma, o que fazer?

A insistência do protagonista em fazer prevalecer a verdade torna-o persona non grata aos olhos da população que, afinal, procurava defender. E este texto, de uma atualidade evidente, há muito que despertara o interesse do encenador e cineasta, Marco Martins (autor de filmes como Alice, São Jorge, Great Yarmouth, da série de TV Sara, ou encenador de peças como As Criadas, Blooming ou A Colónia, entre outras).

A ação policial contra imigrantes, na sua maioria de origem indostânica, na Rua do Benformoso, na Mouraria, a 19 de dezembro de 2024, levou-o a cruzar Ibsen com a atualidade portuguesa. E ainda com outros textos que, de algum modo, acrescentam camadas e perspectivas ao tema. Entre outros, Elias Canetti, Hannah Arendt, Cesare Pavese, Pier Paolo Pasolini ou Marguerite Duras.

Registo da ação policial na Rua do Benformoso, a 19 de dezembro de 2024. Foto: DR

Esta versão contemporânea, adaptada à complexidade da Lisboa de hoje, Um Inimigo do Povo pode ser vista no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, depois de ter estreado em dezembro, no Theatro Circo, em Braga (a convite de Braga – Capital Portuguesa da Cultura 2025), e de ter passado pelo Teatro Rivoli, no Porto.

No elenco, estão os atores Rita Cabaço e Rodrigo Tomás, em contracena com um grupo de imigrantes das comunidades afetadas pela intervenção policial de dezembro de 2024. Um grupo que não se “limita” a ir a palco, mas que participou na construção do texto.

“A partir de um grupo de 28 imigrantes – alguns residentes na Rua do Benformoso -, iniciámos o processo de construção deste espetáculo, ancorado nas biografias pessoais de cada um deles e nas razões que os trouxeram para Portugal. O grupo foi sendo reduzido até um total de dez, que, com os atores, constituem o elenco deste espetáculo”, conta Marco Martins.

Para ele, a construção do texto é um momento crucial no trabalho de estúdio com os intérpretes: “Este é, de certa maneira, um texto coletivo onde a natureza heterogénea dos materiais convocados numa mesma cena pode ser entendida como a criação deliberada de um confronto entre sinais contraditórios (observados diariamente à nossa volta), frequentemente orientado por um gesto, um movimento, uma estrutura musical ou um impulso rítmico. A presença de atores e não-atores acentua este confronto.”  

A construção do texto faz-se, assim, de elementos surgidos de uma conversa gerada pelos próprios intérpretes, de improvisações orientadas, de diários privados, de correspondência pessoal, de fragmentos literários ou de excertos da obra de Ibsen (aqui utilizada no seu original e na adaptação contemporânea de Thomas Ostermeier e Florian Borchmeyer).

“Partindo da mulher que tirou a famosa fotografia aos homens encostados à parede naquele dia, fomos encontrando uma comunidade com medo, profundamente marcada por este acontecimento”, diz ainda o encenador.

Fotografia ilustrativa da peça “Um Inimigo do Povo”, de Marco Martins, em cena no CCB até 15 de março. Foto: Lais Pereira

O papel da investigação jornalística

Para esta construção textual, também contribuiu a investigação conduzida, ao longo de seis meses, pelas jornalistas do Expresso, Joana Pereira Bastos (que já tinha trabalhado com Marco Martins na escrita de A Colónia, a partir das histórias reais de crianças filhas de presos políticos no final da ditadura) e Raquel Moleiro. Um caminho cheio de obstáculos, como nos conta Joana: “Fui para a Rua do Benformoso, com a minha colega Raquel Moleiro, com o objetivo de fazer entrevistas aprofundadas com os habitantes, sobretudo com os mais atingidos pela operação policial. Mas não foi fácil. Por um lado, havia muitas pessoas traumatizadas, e naturalmente desconfiadas, depois do que aconteceu. Outras, pura e simplesmente, por causa da sua cultura, não falavam com mulheres.”

Valeu, nestas dificuldades, o recurso a um intermediário, “Rana Uddin, uma pessoa com ascendente na comunidade de Bangladesh, que tem ajudado em vários aspectos da vida portuguesa, até com questões da AIMA”. Só com essa salvaguarda e esse aval é que as pessoas ficaram mais dispostas a falar.

“Quando houve um desbloquear do diálogo, compreendemos de que estas pessoas estavam muito conscientes de que as imagens em que aparecem encostadas  à parede, por ordem da polícia, tinham corrido mundo, incluindo os seus países de origem. Falámos com um senhor de uma loja de telemóveis, engenheiro no seu país, que foi naturalmente confrontado com as perguntas ansiosas da família. Primeiro, pensaram que ele tinha cometido algum crime ou ato graveDepois, perguntavam-lhe: Como é que tal coisa acontece num país de que ele dizia tão bem?”, conta Joana.

Estabelecidas as sempre tão frágeis relações de confiança, o diretor de casting, José Pires, juntou-se a Joana Pereira Bastos e Raquel Moleiro. O seu papel foi contactar os intervenientes para um workshop de representação de três semanas. A partir desse trabalho de estúdio, a seleção de atores foi afunilando até chegar aos 10 escolhidos.

Joana recorda a emoção especial que foi ver alguns dos seus entrevistados em palco: “Foi muito transformador para mim e para a Raquel ver ali aquelas pessoas, a quem ninguém, alguma vez, dera voz, como intérpretes de um espetáculo, com a missão de chamar a atenção para a complexidade das suas vidas. Temos de pensar que estes são habitualmente elementos muito invisíveis na nossa sociedade.”

Mas a multiculturalidade deste Um Inimigo do Povo está assegurada não apenas pela participação destes atores inesperados, mas também pela possibilidade de nos falarem nas suas línguas – já que a peça é falada em português, inglês, bengali e nepali, sempre com legendagem em português.

O que aconteceu na Rua do Benformoso

Marco Martins assume que gosta de trabalhar “textos bem ancorados na realidade.” Por isso, quando estava “a ponderar trabalhar a partir de Um Inimigo do Povo, centrado no tema do conflito entre o indivíduo que não desiste da verdade e o coletivo”, a operação da PSP na Rua do Benformoso, na Mouraria, em Lisboa, chamou-lhe a atenção. E se este fosse, afinal, um exemplo atual e inequívoco desse conflito?

Tudo aconteceu a 19 de dezembro de 2024, quando esta rua, habitada e frequentada por muitos imigrantes do subcontinente asiático, em particular do Bangladesh, foi encerrada e dezenas de pessoas foram forçadas a encostar-se à parede, de costas e com as mãos sobre a cabeça. E assim foram obrigadas a permanecer durante cerca de duas horas. As imagens, captadas por vários habitantes e comerciantes da zona, tornaram-se virais e correram mundo. Pelo menos, chegaram tão longe que muitos dos seus familiares e amigos, nos países de origem, as puderam ver, com justificada aflição.

Esta operação mobilizou mais de 100 polícias e 20 veículos, e incluiu a realização de buscas a seis estabelecimentos comerciais, a identificação de 73 pessoas, a detenção de duas e à apreensão de duas armas brancas e de outros materiais, como documentos e numerário.

A rua do Benformoso, na Mouraria, Lisboa. Foto: Frederico Raposo

A operação policial, amplamente divulgada pela comunicação social, motivou uma queixa endereçada à Provedoria de Justiça com 600 assinaturas. Em julho de 2025, a Provedoria pronunciou-se sobre os acontecimentos, considerando terem existido “falhas graves quanto à previsão da necessidade de realização de revistas pessoais e à sua justificação”.

De acordo com o ofício assinado pelo provedor-adjunto Ravi Afonso Pereira, a realização de revistas pessoais é uma “interferência grave” nos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e por isso, tem de ser “devidamente justificada”. Mas nas várias informações e relatórios analisados sobre a operação, a Provedoria não encontrou os motivos e fundamentações subjacentes à intervenção policial.

As normas ditam ainda que a revista deve ser realizada em local resguardado sempre que possível, sendo dever dos elementos policiais garantir o pudor e dignidade pessoal dos visados. “Na situação concreta, não só as revistas foram realizadas na rua, ficando as pessoas perfiladas contra a parede e de braços erguidos, durante um período de tempo que não foi possível determinar, como foi chamada, pela PSP, a comunicação social”, critica a Provedoria da Justiça, frisando ainda que as revistas foram “realizadas de forma intrusiva e prolongada, em desvio às normas e sem que a excepcionalidade que pudesse justificar tal desvio se encontre devidamente fundamentada”. 

Este Um Inimigo do Povo far-se-á ver e ouvir no palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, até 15 de Março, sábado (14) às 19:30 e no domingo (15) às 17 horas.

Este artigo tem o apoio do Centro Cultural de Belém


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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