“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
No Oeste, o sol tem intermitências capazes de exasperar os veraneantes mais necessitados de calor. Enquanto o Sul brilha e escalda, o Oeste cobre-se de neblina e frio. A cacimba insiste, manhã após manhã, em adiar o esplendor da luz; camisolas relutantes são obrigadas a trocar o fundo das malas pelo corpo dos burgueses, que suspiram pelo Algarve como o salmista por Sião.
Até cismáticos como eu – para quem o “fresco” é uma virtude e a experiência de ser torrado durante horas na areia se aproxima do Tédio Absoluto – devem reconhecer, em períodos longos de nortada, que o melhor a fazer é trocar a praia por outro programa qualquer. Foi precisamente à custa de um desses verões ventosos no Oeste – obrigado, ó Arte, consoladora dos veraneantes falhados – que descobri o Museu José Malhoa, bom motivo para uma visita às Caldas da Rainha.

A colecção inclui alguns dos maiores nomes da pintura portuguesa dos séculos XIX e XX. Do pincel sereno de Silva Porto aos retratos de Columbano, o Grupo do Leão está bem representado. Perante as cenas campestres do primeiro e a “Cabeça de Rapaz” do segundo, os meus pequenos inconvenientes climáticos foram logo votados ao esquecimento. O grande chamariz do museu é, no entanto, como seria de esperar, a obra do próprio José Malhoa, uma homenagem vivíssima à vivacidade dos costumes populares.
Esta obra pode também ser redescoberta em Lisboa, onde não existe nenhum sítio com a concentração de “Malhoas” característica do Museu das Caldas mas onde, espalhados pela cidade, se conservam alguns quadros notáveis do pintor. Para ficar pelo exemplo mais emblemático, “O Fado”, que retrata a prostitua Amândia ‘Facadas’ em pose dengosa e o marginal Amâncio Esteves de guitarra em punho, pertence ao Museu da Cidade e está exposto no Museu do Fado, em Alfama – Maria do Rosário Pedreira contou já, na Mensagem, os bastidores caricatos da execução do quadro.
Nascido na freguesia de Nossa Senhora do Pópulo, nas Caldas, Malhoa viveu em Lisboa durante a maior parte do tempo, embora tenha intercalado a vida lisboeta, a partir de dada altura, com temporadas frequentes em Figueiró dos Vinhos. Terá sido em 1863, com apenas oito anos de idade, que se mudou para a capital. Estudou aqui, na Real Academia de Belas-Artes, tendo como professores Tomás da Anunciação e Miguel Ângelo Lupi. Para lhe servir de morada e atelier, adquiriu também aqui, já pintor consagrado, a Casa Malhoa, agora Casa-Museu Anastácio Gonçalves, edifício que mereceu o Prémio Valmor em 1905 e que hoje destoa orgulhosamente dos prédios desenxabidos de S. Sebastião da Pedreira.

No MACAM, o hotel-museu inaugurado em 2025 que acolhe a colecção de Armando Martins, encontramos, entre quadros de Almada Negreiros, Ângelo de Sousa e outros grandes pintores, uma pintura de José Malhoa chamada “A sesta dos ceifeiros”. Visto ao vivo, talvez seja o quadro certo para afastar o Malhoa postalizado que a era da reprodução técnica e das lojas de “souvenirs” consagrou. O título não engana. Através deste óleo sobre tela, 95 x 132 cm, passamos do espaço sofisticado do museu para um mundo diferente: ar livre, ruralidade, o dia-a-dia da classe trabalhadora de um Portugal passado.

O jogo de cores chama de imediato a atenção: o contraste entre a seara dourada pelo sol, na metade superior, e a sombra da metade inferior em que os jovens trabalhadores descansam, é de uma expressividade maravilhosa; juntam-se-lhe ainda os azuis e avermelhados das saias e dos lenços das raparigas em flor. Dominando a cena, ao centro, mais desperto que os companheiros, vemos um rapaz sentado, com dois cães aos pés que reforçam a ideia de contacto com a natureza e a ideia de “vida de cão”. Mas, mesmo apontando para um ambiente social difícil, o quadro destaca-se mais pela ternura humana que por qualquer tipo de comentário sociológico. Emite vibrações agradavelmente preguiçosas, que tornam quase palpável o prazer do descanso merecido.
“A sesta dos ceifeiros” é um exemplo da especificidade do talento de Malhoa: saber honrar a riqueza expressiva dos costumes populares, sem cair num pitoresco sem alma. O artista das Caldas parece, assim, bem sintonizado com a lição de Baudelaire em “O Pintor da Vida Moderna”. Esse texto marcante – que entroniza Constantin Guys como modelo da nova atitude estética – advoga uma arte mais atenta à dignidade do circunstancial e à beleza do histórico. “Extrair o eterno do transitório”, eis o mandato da modernidade artística segundo Baudelaire e um ideal presente nos trabalhos de Malhoa.

De facto, a atenção às idiossincrasias do povo português parece ecoar a referência de Baudelaire à «alta espiritualidade da toilette» e, de modo mais geral, o reconhecimento da grandeza escondida nas convenções de cada lugar e época. Quadros como “A sesta dos ceifeiros” ou a “As Promessas” – tela que mistura, num cortejo de cores espantosas, rituais de sacrifício e copos de vinho emborcados à socapa – disso dão testemunho. Quanta vida transborda dos comportamentos mais tradicionais, dos códigos mais inconscientemente adoptados!
*O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico


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