Hoje são muitos e muito talentosos os jovens guitarristas que podemos encontrar nas casas de fado, quer acompanhando artistas, quer tocando a solo ou em duo; muitos deles aprenderam o ofício nos bairros populares com pais, tios e vizinhos; mas outros vieram de longe para frequentar a Escola de Guitarra do Museu do Fado, que deve muitíssimo a um guitarrista excepcional que perdemos recentemente. Falo, claro, do enorme António Chainho.
Chainho (1938-2026) nasceu numa aldeia de Santiago do Cacém onde o pai tinha um café no qual se juntavam à noite amantes do fado das várias aldeias em redor só para ouvir a mãe de António cantar. Foi com o progenitor que o rapaz começou a dar os primeiros passos na guitarra portuguesa e dizem que, com os fados e guitarradas que ouvia no rádio, aos treze anos já acompanhava a mãe em público e era muito elogiado pelo seu talento.
Conta-se que durante o serviço militar – primeiro em Beja e depois em Moçambique – não largava a guitarra nem sequer quando ia para o mato e que, como nesse período tocava sempre fardado, mesmo quando estava de licença, o público aplaudia-o entusiasticamente, pedindo sempre mais uma ao “Magala”. Quando acabou a tropa, como trazia algum dinheiro de África, António Chainho comprou a sua primeira guitarra feita pelo famoso João Pedro Grácio. Seria uma de muitas.
Pouco tempo depois, veio viver para Lisboa e estreou-se na televisão com sucesso imediato. Criou um quarteto com outros guitarristas conhecidos e acompanhou fadistas de nomeada como Maria Teresa de Noronha, Tony de Matos, António Mourão, Hermínia Silva, Frei Hermano da Câmara ou Lucília e Carlos do Carmo.
Porém, virtuoso como era, cedo percebeu que poderia deixar de ser apenas um “acompanhador” e começou a dar concertos a solo em todo o mundo e a dividir o palco com figuras de renome como, por exemplo, Paco de Lucía. Foi um dos primeiros guitarristas portugueses a gravar um disco com a Orquestra Filarmónica de Londres e também a virar a tradição do avesso e a pedir a cantoras que o acompanhassem, num exercício de renovação do fado: Fafá de Belém, Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Elba Ramalho e muitas outras.
No concerto de inauguração da EXPO’98, Chainho foi o guitarrista escolhido para tocar ao lado de José Carreras no Pavilhão Atlântico. Dez anos antes, já tinha sido convidado a tocar no Olympia de Paris e no Canecão do Rio de Janeiro.
Além de ser um artista extremamente completo e um guitarrista único, tornou-se uma figura essencial na criação de uma Escola de Guitarra no Museu do Fado para garantir que o instrumento não morreria, inventando um novo método de ensino e integrando o corpo docente ao lado de José Luís Nobre Costa, Carlos Gonçalves e António Parreira, sempre satisfeito por poder ensinar toda uma nova geração de guitarristas, muitos dos quais estão hoje a desenhar um percurso quiçá tão rico como o do mestre.
Numa entrevista realizada para a revista Fadista pelo jovem e talentoso guitarrista Rui Poço, António Chainho diz que teve a sorte de nascer com bom ouvido e por isso aprendeu quase tudo com os “professores” que o ensinaram através da Emissora Nacional: Raúl Nery, Jaime Santos, José Nunes, Domingos Camarinha, entre outros.
Morreu no mês passado, no dia em que faria 88 anos. Mas não será esquecido, nem por aqueles que o ouviram nem pelos que com ele aprenderam.
A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico.

Maria do Rosário Pedreira
Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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