Leonardo Medeiros hesita na comparação, mas acaba por fazê-la: ex-militar no Brasil, viveu a fúria de um furacão no Haiti, em 2015, mas nunca esperou encontrar uma provação como esta nas estradas portuguesas. Tem 41 anos, mora em Leiria e é motorista da Rede Expressos. Diz que o seu autocarro foi o primeiro a conseguir sair de Leiria, após o pico da tempestade Kristin, “caçando” lugares para passar entre o entulho: árvores caídas a cada 50 metros, postes de iluminação e camiões tombados nas autoestradas.

Leonardo Medeiros, motorista da Rede Expressos, no Terminal de Sete Rios. Foto: Katherine Fonseca

Viu a aflição nos passageiros e questiona se “as máquinas” azuis que conduz deveriam sequer estar na estrada, perante fios de alta tensão que parecem prestes a cair. “Não estamos carregando um bem material, estamos carregando vidas.”

Lisboa, terça-feira, terminais de Sete Rios e do Oriente. Os painéis de LED piscam com uma normalidade enganadora: Leiria, 15:00. Coimbra, 15:30. Passa-se uma semana desde que a tempestade Kristin matou, deixou milhares de pessoas sem acesso a energia e outras tantas sem teto nestas regiões. O vento, que ultrapassou os 200 km/h em alguns lugares do país, transformou as autoestradas num labirinto de metal e madeira, para quem as navega.

Com as linhas ferroviárias cortadas pela queda de árvores e o fornecimento de eletricidade em colapso, o comboio rendeu-se – à data da publicação desta reportagem, a circulação ferroviária na linha do Oeste está suspensa, assim como os serviços Urbanos de Coimbra e regionais entre Entroncamento e Coimbra B. Restaram os autocarros e os homens que os conduzem. Eles que nunca fizeram uma viagem assim: já não levavam apenas residentes, de um lado para o outro, mas também voluntários que se preparavam para um destino final muito diferente do local de partida.

Em Leiria, por exemplo, o terminal dos autocarros viu o teto desabar. Ficou fora de serviço. Já não é ali que os autocarros têm parado. A partir desta sexta-feira, 6 de fevereiro, passará a funcionar provisoriamente junto às piscinas municipais.

Para-brisas: o ecrã de um desastre

Manuel Ribeiro, veterano com 35 anos de estrada, recorda a viagem para Fátima, depois da tempestade, como um teste de sobrevivência. Com a autoestrada cortada desde Torres Vedras, teve de lançar as toneladas do autocarro pelas estradas nacionais, desviando-se de um cenário que parecia saído de um filme de guerra.

“Agora o que se vê por aí é tudo destruído, desde árvores cortadas mesmo, parece que passou ali uma faca a cortar manteiga”, descreve.

Na sua memória de décadas ao volante, incluindo anos fora de Portugal, nunca viu nada igual: camiões de lona tombados pelo vento, placas de publicidade rasgadas como papel e, o mais surreal, telhados de casas depositados sobre autocarros.

Carlos Palmeiro, 55 anos, motorista e coordenador, resume a fragilidade do momento com a calma de quem já viu muito, mas nunca nada assim também. “As estradas não oferecem grande segurança.”, desabafa. Para Carlos, a Kristin expôs um país sem defesas: “Portugal não está preparado para isso. Embora nós, motoristas, continuemos a trabalhar em prol dos passageiros, dentro das condições de segurança.”

Carlos Palmeiro, motorista e coordenador na Rede Expressos. Foto: Katherine Fonseca

Mas a segurança, nestes dias, é um conceito elástico.

Mesmo com as medidas de segurança que estão sempre aplicadas no transporte de passageiros – por exemplo, quando chove, os motoristas têm sempre de reduzir a velocidade – este caso foi especial: os motoristas tinham que fugir das árvores que estavam no caminho e orientar-se com as placas tapadas. 

O regresso ao escuro

Carlos lembra que a companhia mudou nos últimos dias. “Muita gente que viaja connosco está lá a fazer voluntariado, em Leiria, na Marinha Grande, em vários pontos do país em que houve a catástrofe. Voluntários que têm a vida facilitada pelos autocarros para aquelas zonas.”

Aliás, a Rede Expressos indica mesmo que houve “um aumento significativo da procura por parte dos passageiros para estes destinos, refletindo uma expressiva mobilização solidária de apoio às populações atingidas”.

Por isso, até dia 11 de fevereiro, a empresa reduziu os “preços até 50% nas viagens com destino às localidades mais impactadas” e está a fazer o “reembolso integral dos bilhetes adquiridos para viagens que os passageiros decidam não realizar perante as condições climatéricas adversas atuais”.

Terminal rodoviário do Oriente. Foto: Katherine Fonseca

Nas filas de espera em Lisboa, os passageiros carregam o peso do que vão encontrar. Bruna Gabriel, 30 anos, faz o caminho de volta para Leiria. Para ela, a tempestade tem duas faces: a do centro da cidade, onde a ajuda chega, e a das aldeias periféricas, esquecidas no breu.

Era o oitavo dia sem eletricidade, lamentava Bruna.

Trabalha em Lisboa, onde o mundo ainda parece funcionar. No regresso a casa, leva o espírito de missão: tem ajudado associações de animais destruídas, transportando ração e areia. Nas aldeias, diz, o apoio não veio do Estado, mas dos vizinhos que partilham a água e o pouco que resta.

Com uma nova tempestade, a Leonardo, o medo é que o pouco que ficou de pé acabe por cair.

A Kristin testou o cimento e o ferro, mas foram as pessoas – os motoristas que “caçaram” caminhos e os vizinhos que dividiram a água – que impediram o isolamento total. Enquanto o país contabiliza os danos, nos terminais de Lisboa, os motores continuam a roncar, como o elo de ligação de um Portugal que, apesar de ferido, teima em não parar.


Como ajudar?

São muitas as ações de solidariedade ativas para as zonas afetadas. Aqui, encontra algumas delas:

Plataforma Tempestade SOS:
Criada por voluntários para ligar quem precisa a quem pode ajudar. Pode oferecer desde bens materiais a serviços de transporte ou mão de obra. Saiba mais aqui.

Fundo Cáritas Diocesana de Leiria-Fátima:
A Cáritas criou um fundo destinado à reconstrução de habitações e apoio direto às famílias e está a prestar auxílio nas seguintes localidades: Leiria (todo o concelho); Alcobaça: especial enfoque em Aljubarrota, Pataias, Alpedriz e Martingança; Pombal: especial enfoque em Carnide, Vermoil, Meirinhas, São Simão de Litém e Albergaria dos Doze; Alcanena: intervenção na Vila de Minde; Batalha, Porto de Mós, Marinha Grande e Ourém (concelhos). Pode contribuir, doando da seguinte forma:
MB WAY: 961 483 691 | ou, no menu “Ser Solidário”, selecionar a “Cáritas de Leiria”.
IBAN: PT50 0035 0393 00142459930 30
Utilize o descritivo “Tempestade Kristin” em todas as transferências.

Cruz Vermelha Portuguesa:
Está ativa uma campanha nacional para reforço de estruturas móveis e apoio aos desalojados, aqui.

Verifique se, na sua zona, há instituições ou associações a organizar recolha de bens e donativos. E tenha atenção às burlas – verifique a veracidade das ações de solidariedade.


Katherine Fonseca

Tem 26 anos e é natural de Londres. Está a tirar o mestrado de jornalismo na Universidade Católica de Lisboa, movida pela paixão de criar e comunicar de forma autêntica. Amante de cinema, de viajar e de escrever por onde passo, inspira-se no ritmo dinâmico de Lisboa e nas narrativas que têm o poder de cativar. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

Sara Bassini

Nasceu em Itália, Veneza, e migrou para Lisboa, onde é estudante de jornalismo na Universidade Católica. É estagiária na Mensagem de Lisboa.

*Texto editado por Catarina Reis

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