As telas de Bruna Varela são coloridas. Corpos femininos sem rosto, mulheres guerreiras, que dançam ou carregam os filhos às costas. É esta a forma de expressão preferida da pintora e poeta, nascida e criada em Marvila. “Nas mulheres dos meus quadros ninguém toca. Elas estão protegidas dentro da tela”, conta, com um olhar sério. A partir de agora, Bruna também divide a sua arte com as reportagens que produz na Gazetta do Bairro, o novo jornal hiperlocal de Chelas, apadrinhado pela Mensagem de Lisboa.

Até aos quatro anos, Bruna viveu “nas barracas”, na chamada Quinta dos Cravos. “Nunca fui uma criança de estar fechada num sítio. Na altura, saía muito e andava com um cão.” Era o seu companheiro de passeios quando “fugia de casa”. Foi aqui que começou a sentir a “dinâmica de aldeia”, expressão que hoje usa para descrever o bairro. Quem a encontrasse fazia questão de a levar novamente até à mãe ou avó.
Nos meados da década de 1990, Bruna mudou-se para os prédios de Chelas, na zona M, acompanhada pelas pessoas que já conhecia antes. Teve de se habituar a ter menos espaço. Entre subir e descer os elevadores, a sua brincadeira de criança, Bruna entretinha-se com os livros que a mãe, doméstica, lhe trazia da casa dos patrões. “Estava sempre à espera de saber qual era o livro que ela me ia trazer”, recorda.
Foi assim, confessa, que começou a sua paixão pelas artes. “Sempre gostei de entrar noutros mundos”.

Inspirada pela biblioteca do bairro
Foi também através dos livros, dados à mãe por quem já os tinha lido, que Bruna viu uma pintura pela primeira vez. Num deles estava uma imagem da Noite Estrelada, de Van Gogh – o quadro de fundo azul e pormenores amarelos. Ficou “fascinada” com a arte do pintor neerlandês, até hoje um dos seus quadros favoritos.
Um dia, desafiaram-na com uma prova de desenho: tinha de replicar uma obra à sua escolha. “Eu consegui replicar, com maestria, porque sempre fui muito perfecionista, aquela obra do Van Gogh”. É um momento de que se lembra com orgulho e um sorriso.

Mais tarde, Bruna encontrou conforto na antiga biblioteca do bairro, que já não existe. A primeira vez que acreditou que podia ser escritora e pintora foi percorrendo as estantes dessa biblioteca.
A psicóloga que a acompanhava encorajou-a a continuar a desenhar. “Ela disse-me que eu podia fazer tudo aquilo que quisesse desde que colocasse esforço e consistência nisso”. “Lembro-me sempre das palavras dela e penso que sou capaz”, conta Bruna.
Depois de um caminho dito “normal” até ao 9º ano, Bruna foi para a Escola Artística António Arroio, em Lisboa, na zona da Alameda. Mas as coisas não correram como esperava. “Ninguém tinha muita vontade de estudar. Éramos os loucos artistas, queríamos criar”, diz, entre risos.
No 11º ano, escolheu especializar-se em fotografia. Ainda dependente da mãe, Bruna não conseguiu comprar a sua máquina fotográfica e o fator financeiro desmotivou-a. Começou a faltar às aulas e chumbou o ano. As artes, o mundo que antes lhe trazia alegria, deixou de ocupar um lugar central na sua vida.
A artista que nasceu junto com a filha
O nascimento da filha, em 2020, trouxe-lhe a pintura de volta. Teve uma depressão pós-parto. “Isolei-me e não queria estar com as pessoas. Recomecei a pintar”. Um dia, estava a fazer compras e pousou o olhar num papel cavalinho. “Pensei: vou comprar isto e vou meter tudo num papel”. Surpreendeu-se com o resultado final. “A primeira tela que eu fiz estava fantástica. Quando terminei disse: não acredito que fiz isto”.
Bruna então nunca mais parou. As telas tornaram-se uma rotina e uma espécie de momento terapêutico.

“Comecei a perceber que os meus níveis de ansiedade diminuíam quando eu pintava”.
Começou a ficar “mais criativa” a pintar e a expressar melhor o que sentia. Ao desenho e às cores, juntou a escrita. “Escrever fez com que eu aprendesse a controlar não só o que eu sinto, mas também as coisas que digo e a forma como as digo”, revela.
“Foi assim que começou o meu processo criativo, para tentar sentir-me melhor e para ser melhor para as outras pessoas”, completa.
O próximo parecia o mais difícil, o da dedicação exclusiva à arte. O que passava por abdicar de um trabalho “tradicional” e de um salário regular, um desafio para a tal “dinâmica da aldeia”. Mas, quando se despediu do seu trabalho numa loja de roupa para conseguir ser artista atempo inteiro, sentiu-se pouco apoiada pela sua “grande família”, as pessoas do bairro.
“Estamos a falar de pessoas de bairros sociais, que não têm muitas oportunidades, o que faz com que se tornem mais competitivas, ainda que inconscientemente. Pensam que se tu deres certo, elas vão ficar para trás”, conta, com alguma tristeza na voz.
As mudanças não pararam por aí. O ano marcou também o engajamento de Bruna no projeto que está a dar vida à Gazetta do Bairro. “Foi o Nuno Varela que me trouxe para a Gazetta do Bairro. Já há muito tempo que tinha vontade de escrever sobre as pessoas e relatar histórias reais”, conta
A escrita jornalística, acredita, pode complementar o trabalho que faz com a poesia. “Eu só escrevo sobre mim e sobre a minha visão do mundo. Era o momento, novamente, de entrar noutros mundos.”
A experiência pode servir ainda para que contribua de alguma forma na mudança de perspetiva de quem é de fora sobre o bairro. “Estou um pouco cansada de pessoas que não vivem no bairro a representar as pessoas do bairro. É preciso ter atenção à forma como se fala destas pessoas. São humanos”, pontua.
Bruna acredita ainda que o projeto pode revelar novos artistas, como ela própria.
“Há por entre os prédios coloridos de Chelas, sentada nos cafés ou forçada a ser ignorada pela falta de tempo, aquilo a que Bruna chama uma mina de criatividade. Neste bairro, como em outros ambientes semelhantes, é preciso usufruir dessa energia, de forma positiva. Quando essa força é direcionada para a criatividade, surgem coisas únicas”, reforça.
O projeto Gazetta do Bairro funcionaria assim para Bruna como a pintura, “uma forma de conseguir apresentar uma versão verdadeira de si e das pessoas que a acompanham todos os dias, de expressar aquilo que vê e sente. Como nas telas”.

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