“Quando crescer, quero ser atleta e advogada porque não gosto de ver as pessoas a serem injustiçadas.” Beatriz Pereira tem 11 anos, parece decidida, na pista ou fora dela. Vive no bairro do Zambujal, um lugar onde as oportunidades nem sempre passam pela porta, muito menos pela pista. O sonho de ser atleta costuma esbarrar na falta de espaços, de meios, de quem acompanhe. Até um clube ter mudado este destino: o EDP Clube Runners, uma iniciativa da empresa multinacional em dois bairros – além deste, a Cova da Moura -, para jovens dos seis aos 16 anos que querem ter acesso ao atletismo profissional.

“Para quem tem talento, esta é uma porta aberta”, diz Jackilson Pereira, da associação Moinho da Juventude, que cresceu no bairro e agora coordena os treinos na Cova da Moura.

Promovido pelo EDP, em parceria com a iniciativa sem fins lucrativos Social Innovation Sports, a iniciativa conta com o apoio das associações Moinho da Juventude, Academia do Johnsson e CAZAmbujal.

“O objetivo é que todos partam do mesmo patamar, independentemente do local em que cada um vive”, resume Vítor Monteiro, da associação CAZAmbujal.

Correr é criar identidade

No Polidesportivo da Cova da Moura, a energia é evidente. Os miúdos chegam com as camisolas vermelhas onde se lê “Corre corre corre” e correm, sim, mas para abraçar a treinadora Ana Silva.

Adérito, de 13 anos, relembra o essencial: “O nosso objetivo é ganhar, mas o mais importante é estarmos juntos.”

Gosta de correr, mas talvez nem imagine que ali, onde mora, na Cova da Moura, já houve um clube de atletismo. O desporto não tem vingado no bairro por falta de financiamento. O regresso da corrida à Cova da Moura é, pois, motivo de euforia para todos: “Para mim o clube é muito bom porque aprendi a ter resistência!”, “Mais resistência, mais saúde, melhor respiração!”, gritam os pequenos atletas em uníssono.

Não muito longe dali, no bairro do Zambujal, a máxima parece a mesma. O clube pratica-se na rua das Mães de Água, onde fica Academia do Johnsson, que também promove atividades desportivas. Os treinos estão ao comando de Rui Corvelo e do líder comunitário Vítor Monteiro. “O EDP Clube Runners deu uma identidade, não só aos jovens, como aos pais e à comunidade do bairro. Tornou-se motivo de orgulho e de pertença.”

As equipas dos dois bairros são já mais ou menos fixas, mas o caminho para captar os mais novos para os clubes nem sempre foi fácil, diz a treinadora Ana: “Chegar às famílias nem sempre é fácil: basta os miúdos portarem-se mal ou tirarem más notas para deixarem de aparecer. Mas já consegui que algumas mães me viessem conhecer.”

Para além do contacto com as associações locais, os clubes trabalham ainda com o dinamizador local Martim Lomelino, do Social Innovation Sports, que estabelece a ponte com a EDP, tratando de toda a parte logística e operacional do projeto. Para além dos treinos bissemanais, leva, uma vez por mês, os pequenos atletas a conhecer outros espaços como, por exemplo, o Estádio de Alvalade, o Estádio do Jamor e Monsanto.

Para muitos deles, espaços completamente novos e desconhecidos.

Medalhas… e uma rivalidade saudável

Ambas as equipas, no Zambujal e na Cova da Moura, já arrecadaram prémios e medalhas em várias corridas: participaram na 16ª Milha Urbana de São Marcos, da qual trouxeram uma medalha de ouro, três de prata e três de bronze; na EDP New Generation, ganhando duas medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze; e ainda participaram no Rio de Mouros Cross Run.

As atletas Beatriz Pereira e Kelly Vaz contam como o clube de corrida lhes permitiu melhorar a resistência, mas também alimentar o espírito competitivo: “Espero que ganhemos mais medalhas!”, dizem as duas.

running clubs
Beatriz Pereira, Rui Corvelo e Kelly Vaz, no bairro do Zambujal. Foto: Rita Ansone

A treinadora Ana Silva não se coíbe de elogiar os pequenos atletas do bairro da Cova da Moura: “Temos aqui meninas com aptidão para as barreiras, pés de ouro para os saltos, mas é tudo um processo, a formação é isto mesmo!”.

Entre as duas equipas, há até uma certa rivalidade: “Eles gostam de defender o seu bairro, até fazem hinos a gritar ‘Zambujal’ e ‘Cova da Moura’. Vemos que os miúdos têm orgulho em vestir a camisola. Tem sido um dos pontos fortes: a fidelização que os miúdos têm com o projeto”, diz Martim Lomelino.

Esta história começa em março de 2024, quando a EDP, que tem vindo a patrocinar corridas e maratonas ao longo dos últimos 20 anos, se apercebeu de uma lacuna no seu trabalho: estava em falta um projeto de formação e de impacto social ligado às corridas.

“Pensámos em dar a oportunidade a crianças de bairros mais vulneráveis de correrem nas nossas provas”, começa por explicar Catarina Barradas, diretora de marca da EDP. Mas, para isso, era preciso ir à raiz do que os afasta dessas provas.

A EDP optou por trabalhar em bairros nos quais já tinha intervindo através da instalação de painéis solares: a Cova da Moura e o Zambujal. Foi neles que, através da parceria com a Social Innovation Sports, partiu em busca de membros influentes nestes bairros que pudessem ajudar na implementação do projeto. E assim encontraram Jackilson Pereira e Vítor Monteiro.

“Sabemos que nestes bairros é importante ter líderes comunitários. No fundo, são eles que conhecem as famílias”, diz Catarina.

Com planos para participarem em mais corridas e maratonas, a EDP equaciona alargar o projeto a outros bairros e, na verdade, já foram fundados clubes numa outra cidade, o Porto, onde se corre nos bairros do Cerco, do Falcão e do Monte da Bela. Mas, para já, na Amadora o objetivo mantém-se: nunca parar!



Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt

Mariana Riscado

Nasceu, cresceu, estuda e vive em Lisboa há 20 anos. Encontra sempre, ainda assim, mais um canto da cidade para conhecer, mais uma história para contar. É estudante de Jornalismo na NOVA FCSH e estagiária na Mensagem de Lisboa.


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