Cold Brew para Fernando? Cold Brew para Fernando? Fernando Pessoa? Alguém consegue imaginar um dos maiores vultos da nossa cultura a compor as cartas para a sua Ofélia ou as odes aos nossos navegadores, trocando a bica e o absinto no Martinho por um café com topping de nata e caramelo e uma tosta de abacate numa loja onde (no país dos engenheiros e dos doutores), as pessoas são tratadas pelo nome e o ambiente é tudo menos clássico? Ou ainda, imaginar as tertúlias conspirativas dos carbonários para acabar com a monarquia ou, mais tarde, dos surrealistas para abreviar a ditadura a acontecerem num outro sítio que não o mítico Café Gelo?
E porque não?
Talvez os ambientes austeros sejam mais convidativos à abstração e à procrastinação. Porém, atualmente, são poucos os espaços onde conseguimos passar manhãs ou tarde inteiras sem sermos importunados à má fila. Recorrentemente e só porque sim. Hoje, estar a trabalhar no portátil, a conversar, ler, scrollar ou num dolce fare niente é raro. O normal é termos autênticos snipers de pratos e copos vazios, sempre com a mira apontada às nossas cadeiras e prontos a sentar os clientes do slot seguinte.
O caso mais chocante desta nova lógica de expulsão e combate feroz às estadias longas a todo o custo (i.e., mais que 1,5 horas e menos do que quatro) nem sequer é representado pelos cafés tradicionais de bairro ou pelas lojas das duas cadeias franchisadas mais habituais em Lisboa, honra lhes seja feita, o Starbucks e a Padaria Portuguesa. São, pasme-se, aqueles lugares muito cool e acolhedores em zonas trendy da nossa cidade, especialmente desenhados para acolher os “bruncheiros” demorados dos fins de semana de outono e inverno.
E como é que o fazem? Simples. Colocando música frenética ou um reggaeton manhoso em altos berros, trazendo os artigos do nosso brunch todos de uma vez e ir retirando os pratos, copos e chávenas assim que vão ficando vazios, criando listas de espera intermináveis, trazendo a conta antes de terminarmos o café, dificultando o acesso a clientes sozinhos e que andam (de forma ultrajante) com livros físicos dissimulados debaixo da axila esquerda ou direita ou tudo isto ao mesmo tempo. Como sabemos, até ver, a mente humana não tem limites.
Agora, porque é que decidi abordar este tema? Porque a Namur, uma das pastelarias da minha infância (apesar de a mais especial para mim ser a ‘Central da Baixa’ e os seus magníficos garibaldis) fechou as portas no início do Verão passado e deixou-me a pensar nas razões pelas quais os lisboetas se têm vindo a afastar de tudo o que é tradicional e histórico na sua mais que trimilenária cidade.
É verdade que esta Namur, inaugurada em 1964, tinha já pouco a ver com o sítio onde, quando era pequeno, ia buscar o bolo-rei para o Natal ou o Dia de Reis, numa altura em que ainda incluía um brinde a sério (que eu e as minhas irmãs tentávamos encontrar, espetando o dito aqui e ali com um garfo até sentirmos o embrulho com o tesouro), ou o pão do tipo de-quartos, à base de farinha branca e não da tão em voga massa-mãe.




Situada numa das três “Avenidas Novas” que celebram a República (em concreto, na Defensores de Chaves a tornejar para a Barbosa du Bocage) e com um nome que celebrava, há mais de 60 anos, a homónima cidade belga de origem celta, conhecida pelo seu waffle de Liège, acabou por sucumbir ao progresso de fachada que tem marcado a nossa urbe.
E nem os seus deliciosos mil folhas, jesuítas ou o famoso pão de azeite conseguiram evitar o triste desfecho: janelas pintadas de branco de cima a baixo e uma placa com um pesaroso ‘aluga-se’.
Mas porque é que os lisboetas estão a abandonar as suas pastelarias de sempre?
No caso da Namur, dificilmente poderemos culpar a localização. Terá a ver com o excesso de cabelos grisalhos e o fenómeno das redes sociais, em que os mais novos não frequentam os mesmos locais que os seus pais e avós? Será, antes, pela insistência em múltiplas valências (pastelaria, snack-bar, restaurante)? Ou, pelo contrário, pela ausência de uma oferta muito concreta, talvez única? Terá ainda a ver com opções estéticas e de conforto duvidosas ou pouco atuais, por vezes resultando na destruição de património classificado? O que se passa?
Sem dúvida, a receita para o sucesso deveria incluir o respeito pelas histórias e vivências – e porque não, sublimando os seus pasteleiros ou funcionários mais competentes ou icónicos? A exaltação dos seus habitués mais famosos? Pensemos, por exemplo, n’A Brasileira (Chiado), no Gelo (Baixa) ou na Cister (Príncipe Real).
Pois bem, não sei a resposta. Enquanto a solução certa ou possível não surge, eis uma boa notícia: a Vavá, congénere emblemática da Namur em Alvalade, conhecida pelos seus azulejos modernistas e por ter sido ponto de encontro de figuras das artes e cinema desde o final dos anos 1950, reabriu para uma (creio que) terceira nova vida como ‘Cervejaria Vavá’.


Lá está. Por mais que o mundo e a nossa cidade teime em andar às arrecuas, há sempre algo, alguém ou qualquer coisa que nos faz acreditar em dias melhores. Mais radiosos e conviviais. Não é isso delicioso?
leia também:
Vavá, a história de um café com muito cinema
Nasci em 1942, em Campo de Ourique. Passei sete anos da minha vida em Portalegre, para onde o meu pai, professor, foi deslocado para se efectivar. Regressei a Lisboa em 1958 e vim morar para as avenidas novas, precisamente para a avenida dos EUA, muito perto do cruzamento com a avenida de Roma. O Café…

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
