Considerado o maior cronista brasileiro, Rubem Braga costumava dizer que a crónica era um género forasteiro se tinha “adaptado muito bem ao Brasil”. É com a consciência e responsabilidade de “manter uma rica tradição” onde figuram nomes como o já citado Braga, mas também Ruy Castro, Nelson Rodrigues e António Maria, que o jornalista Álvaro Filho volta, duas décadas depois, a reunir em um livro as suas crónicas, com a compilação dos textos publicados na Mensagem de Lisboa.

“Eu não falo brasileiro” (editora Urutau) traz 25 crónicas publicadas na coluna de mesmo nome na Mensagem, um raio-x deste escritor e jornalista, nascido no Recife e radicado em Lisboa desde 2016, sobre a experiência de ser imigrante em Portugal.

Não apenas a sua, ou as dos brasileiros, mas de de uma perspetiva mais “holística” da imigração.

É o que acontece com a crónica “O Meu Vizinho Omar Sharif”, vencedor do Prémio de Crónica Jornalística  Rogério Rodrigues, atribuído pela Câmara Municipal da Amadora em 2023, onde o cronista se ocupa do seu vizinho indiano, dono de uma mercearia em Alvalade, que se chama Omar, “como o ator Omar Shariff”.

A este relato há que somar as reflexões, por vezes bem humoradas, noutras agridoces, sobre o quanto Lisboa mudou desde que o autor aqui chegou ou sobre as origens ibéricas da sua família, evidenciadas pelo seu próprio nome, com um genuíno lusitano António Maia Moreira, entre o Álvaro e o Filho. Lisboa continua a encantá-lo, mas o agravar da hostilidade em relação aos imigrantes obriga-o a viver “num estado de atenção”, de que não estava à espera.

O lançamento do livro em Lisboa acontece este sábado, dia 15 de novembro, às 16 horas, na livraria Snob, e conta com a presença do professor, tradutor e autor Marco Neves.

Leia aqui a entrevista feita ao autor e jornalista da Mensagem:

O que te levou a reunir em livro estas 25 crónicas?
Comecei neste negócio de livro há 20 anos publicando as crónicas que escrevia nos jornais no Recife. Depois, segui levando o texto jornalístico ao lado dos romances e só vim retornar às crónicas de forma regular aqui em Lisboa, em 2022, na Mensagem de Lisboa. No ano passado, a minha editora, logo após a publicação de O Mau Selvagem, convidou-me para inaugurar um novo selo, dedicado a textos jornalísticos, chamado de “Prensa Guerrilha”. Eu não falo brasileiro é, por isso, o primeiro livro aqui e no Brasil dessa coleção, o que me deixa vaidoso e essa vaidade vem com uma certa responsabilidade.

“Eu não falo brasileiro” estreia no Brasil e em Portugal o novo selo sobre jornalismo da editora. Imagem: Editora Urutau.

Há quanto tempo vieste para Portugal? o que esperavas, à partida, o que encontraste à chegada?
Cheguei em Portugal em 2016, logo após o Golpe, que depôs a presidente Dilma Rousseff. Vim para estudar, mas já suspeitava que o Brasil iria entrar num mergulho profundo rumo à escuridão. A ideia era passar a tempestade aqui e voltar, mas depois veio um divórcio, o que dificulta a administração de um filho pequeno no caso de um retorno, e um filho mais velho na faculdade. Enfim, fui ficando. Quando cheguei, Lisboa era uma “cidade possível”, como recentemente escrevi numa crónica (que não está no livro). Uma cidade pacífica, barata, acolhedora, um cenário idílico que aos poucos foi se alterando ao ponto de Lisboa se tornar hostil e não apenas aos imigrantes, mas igualmente para os lisboetas.

Sentes que a xenofobia tem aumentado nos últimos anos?
A xenofobia sempre existiu, como existe o racismo e outros desvios do caráter humano. Só não era exercida abertamente. A extrema-direita não cria nada de novo, apenas estende o tapete para os velhos problemas e preconceitos desfilarem. Claro que, antes, quando a xenofobia estava no armário, era mais “possível” para o imigrante se sentir acolhido e inserido na sociedade, mas agora vivemos em estado de atenção, assim como acontece no Brasil em relação aos bolsonaristas, tentando perceber se aquele português que conversa connosco é ou não xenófobo em algum grau, antes de abrir a guarda.

Na crónica “Álbum de Família”, falas da relação ancestral da tua família com Portugal. Que relações são essas?
Meu nome de família não dá margens: entre o Álvaro e o Filho há um “António Maia Moreira”. Maia de avó, Moreira de avô, cada um deles descendente de um português que se embrenhou pelo interior do Brasil em algum momento, mas como a documentação no país até meados do século passado era o batistério, resgatar esses registos é quase impossível. Pela ancestralidade da mãe, há registos espanhóis, do Massaneiro (que vem de manzaneira), embora como o Filho evidencia, só carregue os sobrenomes paternos. Enfim, em algum lugar dentro de mim, corre um sangue ibérico.

A crónica “O meu filho, o amor e o português” é especialmente dura porque fala da vivência do teu filho mais novo na escola. Como é que tudo aconteceu?
Aconteceu e tem acontecido. Ao ponto de infelizmente desistirmos do ensino público português, após experiências terríveis em duas escolas diferentes. Meu filho foi amarrado numa cadeira por uma professora, perseguido por outra por “não falar português” e também por um grupo de alunos portugueses que criaram um grupo no Whatsapp com a imagem da cabeça dele recortada e enfiada numa lixeira com os dizeres “Vamos varrer Portugal”. E ninguém no sistema de educação português fez nada a respeito. Nada. Ele agora anda na Voz do Operário e parece que as coisas estão a correr de forma diferente. Mas essa experiência toda, como toda experiência na vida, principalmente as mais dolorosas, acabou por virar material para o meu próximo romance, que vai tratar nas entrelinhas sobre essa cultura de perseguição e desentendimentos na educação portuguesa.

O que é que ainda te encanta em Lisboa?
Acho Lisboa linda como cidade, o que é um problema, pois sempre quando viajo por aí as outras cidades não me impressionam mais. Ao contrário de muitos brasileiros que cá vivem, meu círculo de amizade é quase todo português e tenho tido sorte com esses lisboetas que encontrei e sei que posso confiar e contar com eles. Lisboa também me abriu portas no jornalismo numa proporção maior do que tive no Brasil e, embora isso não se repita na literatura na mesma intensidade, não posso reclamar, sou publicado, ando por aí a falar dos livros e a dar meia-dúzia de dedicatórias.

E o que te exaspera?
Esse estranhamento recente, esse estado de alerta, tem me exasperado bastante, principalmente em relação aos meus filhos. Sei como me defender, mas me preocupo por eles. Há também um outro ponto, esse mais piegas e ordinário, mas para mim não menos importante, pois sou um homem que não administro bem a minha solidão e, apesar de ter tentado por aí e conhecido portuguesas fantásticas, ainda não encontrei uma companhia para dividir os dias de frio e de calor em Lisboa.


Maria João Martins

Maria João Martins

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2 Comments

  1. Como adquirir a coletânea “Eu não falo brasileiro ” do escritor Álvaro Filho? Resido no Algarve.

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