Funcionam como uma extensão da nossa casa. De uma crise, a da habitação, nasceram cidades de garagens, com acesso reservado, onde se vende o que tem faltado aos lisboetas: espaço. Por trás de cada porta, acumulam-se móveis com memórias afetivas, caixas com objetos que aguardam o dia em que tenhamos uma casa maior, o que ficou dos divórcios, heranças, obras ou objetos fora de época. Chamam-lhes boxes ou self storage, um serviço que nasceu pelos anos 60 nos EUA e que cresce, recentemente, por cá: só no distrito de Lisboa, são hoje mais de 40 centros de armazenamento, na cidade e na periferia.
As casas estão cada vez mais pequenas
As casas em Lisboa estão cada vez mais pequenas. Dados do INE mostram que, entre 2011 e 2023, as habitações novas passaram de uma média de 118 metros quadrados e quase cinco divisões, para menos de 80 metros quadrados e pouco mais de quatro divisões.
As despensas ou arrecadações parecem espécies em extinção. E “a moda dos open space“, como lembrava João Azevedo, presidente da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica, está a mudar a forma como vivemos dentro de casa – e o espaço que temos. “Por todo o lado, vemos obras destas em Lisboa”, dizia, em entrevista à Mensagem.

“As casas estão mais caras, é cada vez mais difícil comprar casa, então, as pessoas optam por habitações de dimensões mais pequenas” e mais baratas, explica José Serrado, regional manager da Bluespace, uma das empresas dedicadas ao self storage em Portugal. Uma realidade confirmada pelos números do INE: nos últimos três meses de 2024, o preço médio por metro quadrado nos municípios da Grande Lisboa rondava os 4 425 €/m2.
Aos poucos, o que sobra da vida acumula-se: caixas nos cantos, malas debaixo da cama, armários cheios de roupa que já não se usa. Até que um dia a casa deixa de ter espaço. E é aí que entra este novo negócio — o de alugar espaço fora de casa, em armazéns, para guardar o que não se quer (ou não se consegue) deitar fora.
Uma espécie de segunda casa — ainda assim, mais barata do que comprar ou alugar outra (pelo menos da mesma dimensão). A título de exemplo, o aluguer de 7 metros quadrados de armazenamento ronda os 180 euros mensais.
O acesso é feito com um código ou uma chave, a qualquer hora do dia ou da noite, todos os dias da semana.



De uma crise, um negócio
Há quem alugue pequenos cacifos com apenas um metro quadrado, onde cabem, por exemplo, caixas de livros, brinquedos ou roupa. Outros preferem áreas maiores, com dezenas ou até centenas de metros quadrados. As soluções adaptam-se às rotinas, às necessidades de cada um e ao que se quer guardar. José Serrado explica que “o cliente particular opta sempre por espaços ligeiramente mais pequenos e o cliente empresarial por espaços maiores”.
A Bluespace, empresa espanhola com mais de duas décadas de experiência, escolheu Portugal em 2019 como o primeiro país para expandir internacionalmente. Começou na Portela, depois em Massamá, e hoje tem armazéns em Alfragide, Carnaxide, Telheiras, Montijo e, mais recentemente, nos Anjos.
Quem são os clientes? “Cerca de 75% são particulares”, indica Serrado. Mas não se trata, geralmente, de jovens no início da vida adulta. O Eurostat (Serviço de Estatísticas da União Europeia) mostra porquê: em 2024, os jovens portugueses saíam de casa dos pais, em média, apenas aos 29 anos. “O perfil típico é de adultos com poder aquisitivo mais estável”, acrescenta.

O contexto ajuda a perceber o crescimento do setor. Um estudo do projeto Housing4Z, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, aponta o que já se sente na cidade: salários baixos, rendas altas e um mercado imobiliário que se fecha à maioria.
Foi também dessa realidade que nasceu a Kuboo, em 2018. “As rendas em Lisboa são caras. Uma pessoa quer uma casa com arrecadação ou garagem, mas tem de pagar muito mais”, explica Diogo Pereira, diretor de marketing da empresa.
Carnaxide foi o ponto de partida por ter uma localização estratégica, relativamente perto de Lisboa e Oeiras, zonas onde vive muita gente. “À medida que fomos crescendo, reparámos que os armazéns têm tido bastante procura”, diz Diogo Pereira.

Criada por dois amigos (Pedro Rodrigues e Ralph Dfouni), a Kuboo quis ser uma alternativa “menos fria” ao conceito tradicional de armazém. Hoje, a marca está também na Abóboda e no Seixal. “Em países como Espanha, Inglaterra ou França, este negócio já está consolidado. Em Portugal, o self storage ainda dá os primeiros passos — e continua concentrado nas grandes áreas metropolitanas.”
“Em 2018, as casas já começavam a ficar um bocadinho mais caras. Não fomos os primeiros operadores a abrir em Portugal, mas havia muita procura, e o Pedro e o Ralph perceberam que era necessário oferecer este serviço. Escolheram Carnaxide para abrir o primeiro armazém, por ser uma localização relativamente perto de Lisboa, que permite servir tanto a zona de Lisboa como a de Oeiras, onde vive muita gente. Por exemplo, em Carnaxide, o armazém inicialmente era só este edifício, mas tal era a procura que tivemos de o expandir para o espaço ao lado”, conta.
Um negócio que é tradição já em países como Espanha, Inglaterra e França, onde existe “há mais tempo e está mais presente”. “Há mais armazéns, há mais empresas, há mais oferta”, sublinha o diretor de marketing da Kuboo.
Em Portugal, o setor está ainda a dar os primeiros passos. “A oferta tem vindo a aumentar, mas continua a ser mais limitada às grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.”






O que se guarda (e o que não se pode guardar)
Sofás e camas, móveis herdados, eletrodomésticos antigos mas funcionais, roupa fora de época, pranchas de surf à espera do verão, material de campismo, equipamentos desportivos.
“No fundo, são coisas que ocupam espaço, mas que as pessoas não querem deitar fora — por valor emocional ou porque acreditam que vão voltar a usá-las”, explica Diogo Pereira.
Mas há limites: produtos inflamáveis, tóxicos ou frescos estão proibidos. Ainda assim, há exceções curiosas — como a de um cliente dono de uma loja de comida oriental que guarda ali parte do seu stock de produtos secos e enlatados. “As pessoas trazem tudo em caixas. Nós não abrimos — por isso nunca sabemos exatamente o que entra”, admite o diretor.
Um negócio com estações
Tanto na Bluespace como na Kuboo, há uma certa sazonalidade no negócio. “Notamos que a partir de abril até setembro ou outubro, são os meses mais fortes”, observa José Serrado, da Bluespace. São meses marcados por mudanças de casa, obras e arrumações, que muitas vezes aproveitam o bom tempo.
Já nos meses de inverno, como janeiro ou dezembro, o cenário é diferente. “Também há momentos do ano em que as pessoas têm mais despesas na sua vida pessoal e, por isso, tentam poupar e evitam ter uma despesa extra como o self storage”, esclarece o diretor de marketing da Kuboo. É normal que, em alturas como o regresso das férias ou o Natal, prefiram rever o que têm em casa antes de recorrer ao serviço.
Mas esta necessidade de espaço extra não vive apenas nas grandes marcas. Em plataformas como o OLX ou o Idealista, multiplicam-se anúncios de garagens e arrecadações para arrendar em Lisboa e na Área Metropolitana — uma espécie de self storage informal, nas mãos de particulares. Se uns são para guardar o segundo carro, ou o carro único numa zona de difícil estacionamento, outras são procuradas para armazenamento de bens.
Nestes espaços, o negócio é mais discreto: vizinhos que alugam boxes de condomínios, garagens individuais ou arrecadações vazias, muitas vezes pelo valor atual de renda de um quarto em Lisboa (entre 500 e 600 euros). Saindo de Lisboa, os preços dos anúncios descem.

O fenómeno mostra que a procura por espaço para guardar “o que não cabe em casa” já existia — o self storage apenas a profissionalizou e tornou visível, com códigos de acesso, segurança e faturação incluídos.
O negócio parece ter vindo para ficar. Mas a sua popularização deixa exposta uma face menos visível da vida urbana em Lisboa: a falta de espaço tornou-se uma mercadoria. E o que antes cabia numa arrecadação agora vive do lado de fora — nas garagens da Grande Lisboa.
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