Depois de ter publicado a biografia de José Cardoso Pires, Integrado Marginal (dois adjetivos bem sacados, ele que os usava com tanta parcimónia e rigor), perguntaram-me muitas vezes se gostava de o ter conhecido.

Ouviste, José? Andei contigo às costas mais de três anos, meu peso, minha sombra, meu companheiro, e eles a perguntarem-me se gostava de ter conhecido. Perdoa-lhes a falta de imaginação assim como eu lhes perdoei a preguiça, ámen. O que havia eu de lhes dizer, José? (perdoa-me também porque não te posso tratar por Zé, como te tratavam a Edite, as tuas filhas e os teus melhores amigos. Das poucas características que temos em comum, o pudor é a mais importante, a mais delicada. José. Está bem assim.)

Cardoso Pires nasceu a 2 de outubro de 1925, na Vila de Rei, distrito de Castelo Branco. Morreu a 26 de outubro de 1998, em Lisboa. Foto: DR

Que sim, então não gostava de te ter conhecido? Pois claro que gostava. Um copo no British, uma conversa no chafariz do Procópio às duas, três da manhã, vá, uma viagem até à Outra Banda, eu a conduzir porque conduzo melhor, perdoa-me agora a imodéstia, um almoço na praia, tu a tirares as espinhas com uma delicadeza que comovia o teu editor, os dois à noite no apartamento da Caparica, uma garrafa de whiskey e o mar negro lá ao fundo, a vigiar-nos, à espera da tua frase, do teu golpe.

Então não te conheci? Se não te tivesse conhecido, não estarias aqui agora, sentado à beira da minha cama, a fumar um cigarro atrás do outro, a espreitar por cima do meu ombro, com a tua tosse de fantasma, o único som que a tua mudez de morto te permite, as tuas mãos rudes e velhas de veias salientes e tão cuidadosas no instante de colher palavras com um só corte, um corte limpo.

Se não te conhecesse, diria que estás armado em PIDE. Lá vou ter de te pedir perdão outra vez. Não há pior insulto para ti, bem sei. Mas o que é que queres? Li todos os relatórios que escreveste sobre cada uma das tuas personagens – o Tomás da Palma Bravo, o Simas Anjo, a Maria das Mercês, a rapariga dos fósforos, aquele rapazinho de um conto de que já ninguém se lembra, a Alexandra Alpha, o cego d’Os Caminheiros, o Covas – e imagino-te a vigiá-las dia e noite, a seguir-lhes discretamente os passos, a encostares o ouvido ao peito para lhes escutares a respiração, os batimentos cardíacos, a música interior (ouvidinho, é preciso ouvidinho, como te disse o mestre Aquilino), sem elas darem por isso.

Pronto, um anti-PIDE. Está melhor assim? Um agente ao serviço da humanidade. Eles vigiavam para denunciar, tu vigiavas para revelar.

E revelavas tão bem, eras tão bom nessa arte do relatório humano, que até as mentes mais esclarecidas e progressistas e, no futuro, mais laureadas deste país, te confundiam com esses seres feitos do barro das tuas palavras, acusando-te de excessiva simpatia por algumas das tuas criações. Eles nunca se lembrariam de moldar um Tomás da Palma Bravo (esse grande cabrão misógino) inteiro e humano, a não ser para lhe aplicar vergastadas morais. Eles nunca se atreveriam a fazer de um polícia o herói de um romance.

Ou, se calhar, não saberiam. Faltava-lhes a mão, o ouvido, o coração. Faltava-lhes serem como tu, José. E, vê tu bem como são as coisas, eu é que não te conheci. Já que aí estás, envolto no fumo do teu cigarro, feito da mesma matéria, nuvem e passado, deixa-me dizer-te que, se fosse hoje, com essa tua mania de não fazeres das tuas personagens modelos edificantes, com esse teu feitiozinho de merda de quem se está nas tintas para a literatura das boas intenções, estavas bem fodido (prometo que é a última vez que te peço perdão aqui).

Bruno Vieira Amaral conheceu de perto a vida de Cardoso Pires e dedicou-lhe uma biografia. Foto: DR

Não sei que informações te chegam aí ao lugar em que agora habitas (porra, agora até deves ter dado um salto com este meu deslize de sacristia), se há por aí jornais ou se funciona tudo à base de telepatia cósmica. Para teu bem, espero que não haja redes sociais ou, se houver, que, além de mudo, sejas cego e surdo. Tout comprendre, c’est tout pardonner, dizia Madame de Stäel (e lá estou eu de volta aos perdões). Toma lá outra máxima: aquilo que ignoramos, não nos torna infelizes.

Tudo isto para te dizer que, quando publiquei a biografia, a tua biografia, José, alguns espíritos mais sensíveis (sabes que os filhos da puta são sempre muito sensíveis, não sabes) não gostaram que tivesse dito que eras “o” escritor de Lisboa.

Heresia! Pelo que percebi, serias culpado de não ter escrito o Ulisses de Lisboa, de não teres feito da tua cidade o que Dickens fez de Londres ou Victor Hugo de Paris. E, no entanto, Lisboa, que nem sempre é o cenário das tuas histórias, é certo, pertence-te e tu pertences à cidade. Porque te entregaste a ela, porque a escolheste e renegaste a terrinha onde, por acaso, nasceste.

Procuraste até ao fim, até ao último dos teus dias, essa música da cidade, a respiração mecânica, humana e total, a fala das suas gentes. Sei que estás aqui, José, ainda agora ouvi o dedo na pedra do isqueiro, a chama a queimar o cigarro. Ainda agora te ouvi. E sei que também me ouves porque foi sempre isso que fizeste: ouvir.


Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral é escritor. Em 2021, publicou a biografia de José Cardoso Pires, “Integrado Marginal”.

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