Houve um tempo em Lisboa em que as ruas pertenciam às crianças. Corriam em liberdade, inventavam jogos, misturavam-se entre vizinhos e enchiam as tardes de brincadeiras até que uma voz, vinda da janela, as chamasse para casa. Hoje, essas memórias sobrevivem apenas na lembrança dos mais velhos — a cidade já não oferece às crianças esse espaço de descoberta e encontro. Os carros ocuparam o lugar delas.
Isso não mudou apenas a paisagem das ruas, mas também a forma como os mais pequenos usufruem da cidade. Ter mais carros transformou o caminho para a escola numa travessia de riscos e receios, ocupou passeios, bloqueou vistas, impôs velocidade. São os carros que ditam as regras do espaço público em Lisboa.
E a mobilidade escolar tem grande peso nesta dependência. Só as viagens diárias de pais a levar filhos de carro representam cerca de 20% de todas as deslocações automóveis na cidade, segundo estimativas do município.
Desde 2015 que uma iniciativa tenta contrariar esta lógica: o CicloExpresso, um projeto da cooperativa Bicicultura que atua em Braga, Matosinhos, Oeiras, Palmela e Mafra. Em Lisboa, onde nasceu, passou a ser conhecido por “Comboio de Bicicletas” e foi incorporado como programa da Câmara Municipal desde 2020.
Apesar de ser um sucesso, a iniciativa vive um momento de incerteza.
Em plena Semana Europeia da Mobilidade, ficou a saber-se que, por falta de financiamento aprovado, os comboios de bicicleta de Lisboa não vão, para já, partir em direção às escolas da cidade.



Lisboa definiu como meta reduzir o uso do automóvel para 34% das deslocações até 2030, face aos 46% registados em 2017, e integra desde 2022 o grupo das 100 cidades europeias que querem alcançar a neutralidade carbónica até essa data. Mas o caminho está longe de ser claro: a utilização do automóvel continua a crescer e já ultrapassa os níveis pré-pandemia, com 390 mil carros a entrar diariamente na cidade — mais 20 mil do que em 2017.
Como a vontade de um pai virou programa municipal
Imagine isto: um grupo de alunos dos 4 aos 12 anos a pedalar juntos, em direção à escola, onde terão aulas. Faz lembrar um comboio, onde cada criança e bicicleta é uma carruagem, parando nas várias estações, que são as casas deles. Tal como num comboio regular, os comboios de bicicletas têm hora marcada e percurso definido.
Mas o combustível é outro: o desejo de transformar a mobilidade numa experiência de convivência e de devolver à infância a liberdade que lhe foi negada na cidade.
O pequeno Rafael, de 8 anos, vive em Alvalade e não tem dúvidas sobre o que mais gosta no comboio de bicicletas: “entrar na rua da escola com muitos amigos, a tocar as campainhas”. Conta que o percurso é sempre uma oportunidade de conversar e de se divertir com outras crianças. O caminho, que poderia ser simples e silencioso, transforma-se em festa.
Raul, o irmão mais novo, de apenas 3 anos, começou por ser transportado numa cadeirinha, mas agora sabe pedalar sozinho e acompanha o grupo dos mais velhos. A mãe, a professora universitária Guida Veiga, já olha para a bicicleta quase como uma extensão da vida da família.
Para ela, a maior aprendizagem que os filhos podem ter é que as ruas não são só trânsito: são também lugares de encontro e de descobertas importantes.
“É uma forma de mostrar que as crianças têm direito a ocupar e viver a cidade, não apenas a circular nela como passageiras. São reconhecidas como cidadãs de pleno direito, com liberdade para se mover, brincar e apropriar-se do espaço urbano.”
Guida Veiga, mãe


Esta ideia, que se materializou no programa dos Comboios de Bicicleta em 2015, nasceu de um pai, morador do Parque das Nações. Numa das capitais europeias em que mais se utiliza o carro, ele quis levar pais e crianças a questionar hábitos e a experimentar a bicicleta como alternativa ao carro da família.
No ano passado, os comboios de bicicleta chegaram a 35 escolas do concelho e o número de crianças inscritas cresceu de 35 para perto de 500, apoiados por uma equipa de 52 monitores. No mesmo ano letivo, percorreram 4.256 quilómetros.
O trabalho de acompanhamento, que antes era feito por voluntários, ganhou uma equipa de monitores especializados. Os pais recebem pelo telemóvel a localização em tempo real e são informados de todo o caminho até à chegada do grupo.
“Acreditamos que as famílias que permitem que os seus filhos participem nos comboios de bicicleta estão a contribuir ativamente para o desenvolvimento integral, preparando-os para uma vida mais saudável, independente e participativa”
Nádia Morais, gestora de projeto da Bicicultura
Para Nádia Morais, gestora de projeto da Bicicultura, são muitos os benefícios físicos, sociais e emocionais que a experiência pode trazer. Dá alguns exemplos: o fortalecimento do corpo, da saúde cardiovascular e respiratória, a melhoria da coordenação motora, do equilíbrio, da concentração e da capacidade de resolução de problemas.
A interação com o meio urbano também faz com que os mais pequenos ganhem mais autonomia e confiança ao movimentar-se pelo bairro, o que ajuda a aumentar o sentido de pertença.
Além deste, a cooperativa dinamiza ainda outros projetos, como o Cresc(h)e na Rua!, que utiliza triciclos para o transporte de crianças dos 2 aos 6 anos para creches, jardins de infância e espaços culturais da cidade. Há também o ComBINA, um projeto piloto de acompanhamento e mentoria em bicicleta que procura, através de sessões individuais, promover a autonomia de jovens do 2.º e 3.º ciclos no percurso casa-escola em bicicleta.
“Mãos ao Ar!” Em Lisboa, as crianças levantam as mãos para dizer que chegam à escola de automóvel
Entre 2018 e 2023, as crianças e jovens de Lisboa, do 1.º ao 12.º anos de escolaridade, levantaram as mãos para dizer como chegavam à escola. O inquérito de mobilidade “Mãos ao Ar!” tem como objetivo retratar os movimentos casa-escola, dando a conhecer o meio de transporte utilizado pelos alunos do primeiro, segundo e terceiro ciclos de escolaridade dos ensinos público e privado na cidade.
Em 2023 – o último ano em que o inquérito se realizou – participaram no estudo cerca de 27 mil estudantes – 78% do ensino público e 22% do privado.
As conclusões?
Em 2023, 43,9% dos estudantes chegava à escola de automóvel e apenas 25,7% de transporte público. Apenas 1,5% dos jovens estudantes fazia a deslocação de bicicleta, enquanto que 26,1% fazia o caminho a pé.
No ensino privado, a situação é ainda mais desequilibrada para o automóvel, com 79,1% a chegar de carro à escola, contrastando com 34,1% na escola pública.
Apesar disso, o inquérito dá conta de uma descida ligeira no peso deste modo nas deslocações para a escola, já que em 2019 48,6% declarava chegar à escola de carro.

“Lisboa tornou-se um espaço de ameaça”
Inês e Catarina têm 9 e 7 anos e fazem da bicicleta rotina e não apenas por lazer. Em 2022, juntaram-se ao comboio de bicicletas e, desde então, fizeram vários amigos. Para o pai, o biólogo David Avelar, que sempre gostou de pedalar com as crianças, é importante que elas se sintam parte de um grupo que partilhe este gosto, para não se sentirem isoladas num ambiente dominado pelos carros.
“Noto que estão com mais autoconfiança e com mais destreza a irem sem mim para a escola”, comenta.

De acordo com o especialista em transportes e mobilidade Mário Alves, pensar a cidade a partir da perspectiva das crianças não apenas ajuda a amparar uma parcela mais desprotegida da sociedade, mas faz com que todos sejam beneficiados. Afinal, ter mais passadeiras seguras e reduzir o tráfego motorizado nas zonas residenciais, por exemplo, diminui o número de atropelamentos e contribui para que a rua deixe de ser um ambiente tão hostil.
Mário Alves recorda que o excesso de automóveis compromete o bem-estar físico com a poluição, os ruídos trazem impactos ao sistema nervoso e a ausência de espaços verdes agrava os efeitos do calor.
“A nível psicológico e social, a impossibilidade de circular livremente leva ao isolamento, à redução da interação entre pares e ao enfraquecimento da relação com o território. A cidade de Lisboa deixou de ser um espaço de descoberta para se tornar um espaço de ameaça.”
Lisboa vive um paradoxo, alerta o especialista: o sentimento de insegurança nas ruas leva as famílias a confinarem os filhos aos bancos dos carros e, com isso, fortalecem ainda mais o fluxo intenso de automóveis, gerando perigos para outros peões.
“Esta dinâmica promove uma cultura de sobreprotecção que impede o desenvolvimento de competências fundamentais, como a orientação espacial, a capacidade de decisão e a socialização das crianças”, observa.
É preciso investir em políticas públicas que incluam o público infantil desde os processos de planeamento até à execução, diz. Chamar as crianças à mesa das negociações.
Por isso, é importante promover, desde pequenos, campanhas de sensibilização e também conteúdos relativos à mobilidade sustentável no currículo escolar, já que os hábitos adquiridos nesta fase tendem a perpetuar-se na idade adulta e influenciar futuramente os padrões de vida da comunidade.
É assim, entre casas, praças e avenidas, que o comboio passa a desenhar uma nova forma de habitar Lisboa. A cada manhã, o tilintar das campainhas anuncia algo que as crianças há muito tentam ensinar: que o caminho é sempre mais bonito quando partilhado.
Apesar do sucesso, a falta de financiamento assombra o futuro
O ano letivo de 2025 começou com uma má notícia. Para surpresa da coordenação do projeto, da cooperativa Bicicultura, e de centenas de alunos, a primeira semana de aulas não trouxe o regresso dos comboios de bicicleta às ruas de Lisboa.
Apesar de figurar nas Grandes Opções do Plano da Cidade de Lisboa – documento que elenca as prioridades de ação política de Lisboa para o período 2024-2028 – o Programa Municipal de Comboios de Bicicleta começa o novo ano escolar sem financiamento assegurado.
O significado prático disto? Os comboios estão indefinidamente suspensos, à espera de financiamento.
Ainda que, nodocumento estratégico do município, a expansão do programa aparece mesmo como objetivo da cidade para os próximos anos, esta não foi a primeira vez que o programa se viu obrigado a parar (confrontado com a não aprovação atempada de financiamento). Nos três últimos anos letivos, os comboios só tiveram início no início do novo ano civil, mais uma vez devido a atrasos “burocráticos” na aprovação do financiamento.



No ano letivo 2024-2025, foi atribuído ao Programa Municipal de Comboios de Bicicleta e ao ComBINA financiamento no valor de 106.547 mil euros, ao abrigo do Regulamento de Atribuição de Apoios pelo Município de Lisboa (RAAML). Tal asseguraria, entre janeiro e junho deste ano, o funcionamento de comboios de bicicletas em 35 escolas da cidade, assim como a equipa de monitores e sessões individuais para promover a autonomia na deslocação de bicicleta.
Mas a CML, que tentámos contactar sem sucesso, não garantiu o financiamento necessário ao reinício da atividade dos comboios, deixando a vasta equipa do programa à espera do sinal verde. É um trabalho diário e remunerado que agora é novamente interrompido.
“Falamos com as pessoas, desenhamos os trajetos, formamos os monitores, pagamos aos monitores. Fazemos os acompanhamentos, recolhemos dados e produzimos relatórios”, explica.
Em reação à notícia que chegou nos últimos dias, Nádia Morais mostrou-se “completamente surpreendida”. “Fizemos os pedidos de apoio conforme o calendário da Câmara, mas não tivemos respostas”, conta. “Agora, confirmaram-nos que [a aprovação do financiamento] não ia acontecer até às eleições”, que terão lugar no próximo dia 12 de outubro.
No passado dia 17 de setembro, os vereadores do PCP na Câmara, que já em janeiro tinham alertado para a possibilidade de interrupção do programa por falta de financiamento, enviaram um requerimento ao município. Nele, questionam o executivo sobre o compromisso municipal para a manutenção do programa, bem como sobre as razões que levaram a que não tenha sido garantido financiamento atempadamente.
Sobre a posição da CML, nada sabemos.
Este é o primeiro de dois artigos sobre a construção de cidades mais amigas das crianças, produzidos no âmbito de uma bolsa de jornalismo de soluções, com financiamento do JournalismFund Europe.

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Mas é isso ne? Sobre a CML nunca se sabe nada no relacionado com mobilidade, seja o elevador da Gloria, sejam os passeios ou passadeiras invadidas por carros, sejam as velocidades nao respeitadas, etc etc. Mas se se fala de estacionamento vamos ver a Emel fazer ate o impossível para que cada residente tenha uma vaga e gratis….
This article beautifully captures the heartwarming initiative of the Bike Bus in Lisbon, highlighting how it fosters community and freedom for children. It’s inspiring to see such creative solutions to urban mobility challenges.volleyball random unblocked
This article beautifully highlights the importance of sustainable mobility for children, showing how the Comboios de Bicicleta initiative fosters independence and community. Its inspiring but tragic that funding cuts threaten this vital program.Badminton
É uma pena que o programa dos comboios de bicicleta não esteja funcionando. As crianças deveriam ter a liberdade de explorar a cidade de uma forma mais lúdica e segura, né? A mobilidade sustentável é o futuro, mas precisa de apoio pra se concretizar!