No palco do CCB, a partir de sexta-feira, vai acontecer uma coisa estranha. E não apenas artística, que este palco está habituado a estranhas artes. Vai estar em palco uma pessoa ilegal em Portugal. E todos vão aplaudir. Como se fosse normal? Ou como uma manifestação de desagrado? Veremos. Essa pessoa é Adilson, que dá nome e inspiração à ópera que o músico Dino D’Santiago criou para o BoCA – Biennial of Contemporary Arts, sobre este bailarino e coreógrafo de origem cabo-verdiana que viveu toda vida em Portugal e, além de não conseguir a cidadania, está agora ilegal.

“Encarei esta ópera como a missão de revelar a hipocrisia da sociedade”, resume Dino. “Esta pessoa vai estar aqui em palco, ilegal, a assistir à história da sua vida. E vai continuar ilegal.”

Adilson Correia Duarte foi apanhado nas burocracias do fim do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), da pandemia e da agora AIMA (Agência para a Integração Migrações e Asilo), que impedem outros 400 mil imigrantes de se legalizarem.

“Em 2019, caducou a residência dele e nunca mais conseguiu tornar-se legal no nosso país.”

dino d’santiago
O cartaz da ópera Adilson

E há mais: “Um filho da diáspora cabo-verdiana, nascido, por acaso, em Luanda, mas moldado no corpo e na alma pelas margens do Algarve. Cresceu a tentar ser aceite como português num país que, esquina após esquina, lhe foi armando armadilhas burocráticas e simbólicas. Um país que lhe ensinou a língua, mas nunca lhe deu a palavra final: pertença.”

Dino explica melhor: “Este homem completará, no dia 6 de outubro, 42 anos de idade, e por ter tido a infelicidade, entre aspas, de ter nascido em Luanda, por acidente, e ter lá vivido durante apenas 11 meses, quando chega a Lisboa, em novembro de 1984, com os pais, que cá viviam, desde esse momento até ao dia de hoje, não tem cidadania portuguesa.”

Adilson foi apanhado nas malhas da vida. Um pai que não tratou dos assuntos a tempo antes de abandonar a família, uma mãe com mais filhos que recursos, e uma lei de nacionalidade que mudou, que deixou de dar cidadania quase automática aos filhos de imigrantes.

“Já três irmãos que nasceram cá depois dele tiveram cidadania portuguesa, dos outros dois que nasceram em Cabo Verde, os mais velhos, um deles já conseguiu ter”, explica Dino, com a força de quem conhece esta história com alma e sangue: Adilson é primo dele e viveu em Quarteira, no mesmo bairro, quando eram pequenos.

Uma reflexão para todos

É óbvio que não é só a questão familiar que justifica o interesse de Dino D’Santiago. É o tema da vida do músico que nasceu no Algarve, filho de cabo-verdianos, viveu entre várias cidades, origens, países, cores, heranças musicais: o questionamento do que é ser português.

A resposta de Dino é sempre larga e inclusiva: é muitas coisas. E é isso que está presente na sua vida, na sua música, nas suas palavras, nos seus abraços e nos seus discursos. E neste palco do CCB, dia 12 a 14 de setembro.

Como ele diz, fazendo de si próprio em palco:

Fogo lento, eu cozinho dor.
Transformo as cicatrizes num prato de sabor.
Não corro, não fujo, eu enfrento o calor.
Fogo lento, faço do medo, amor.

A última cena da ópera recebe Adilson a dizer “Eu não sou português, eu sou Portugal, um país à espera”.

“Foi a frase que o Adilson disse, na entrevista, no final”, explica Dino. “E então nós (Dino e Rui Catalão, autores do Libreto) dissemos: ‘esta frase tem que estar na ópera, é o que vai fechar’. Quer dizer o que muitos de nós sentimos na realidade. É o que o Adilson diz na ópera: ‘vim para aqui com 11 meses e nem sabia andar. Não conheço outro lugar. Eu sou de onde eu aprendi a andar, neste chão, nestas ruas. Nestas esquinas’”.

Uma ópera destas, feita num lugar com a pompa e o público do CCB, “devia servir de reflexão para todos nós que aqui estamos”, sobre o que é isto de ser português e o que é isto de se sentir Portugal.

E o que é?

“Todas as diferenças, todos os pontos de encontros, de convergências e divergências, isso é ser Portugal. E quando nós reclamamos a nossa Portugalidade, não estamos a ser justos ao fazê-lo porque estamos a escolher de forma seletiva quem nós consideramos ou não português. E, às vezes, as pessoas nem precisam de abrir a boca. É veres a cor e distingues logo quem é português e quem não é. E depois começas a descer para os nomes. E é baixo, em termos sociais é baixo. É fraco, sem conteúdo, não é real.”

“Portugal é o território talvez mais aculturado da Europa e continuamos com falácias que nem sequer pertencem a este canto. Nem a nós.”

Neste canto, Adilson surge obviamente num momento bastante sensível da polarização, crescimento do racismo e crescente intolerância. Dino sabe disso.

“Eu sinto que cada vez mais se torna impossível explicar isto. As pessoas não querem ouvir, nem estão para aí viradas. As pessoas estão determinadas a exterminar tudo aquilo que não é semelhante a elas. Literalmente. Então, não vale a pena tentar explicar. É trazer manifestos artísticos, é confiar na educação, confiar na história, confiar no que tu queres trazer para o mundo, queres deixar, porque nada termina aqui nem começa aqui. Por isso, eu acredito que este tempo que estamos a viver é muito importante. Lamento as vidas que estamos a perder, lamento muito, choro-as. Mas ao mesmo tempo, vai chegar um momento em que, sim, vai chegar um momento em que vamos tornar-nos mudos durante tanto grito. E a mudez, eu acho, pode ser trazida à arte, porque tem mesmo um papel. Temos de estar em silêncio para escutar a história”, partilha.

E é desse silêncio que nasce a escuta sobre Adilson. “Ele tem de ver a sua história a ser escutada por mais de 3 mil pessoas, ocupando o CCB, nos três dias, e em silêncio, a refletir sobre a sua vida e a sentirem que estão a assistir a uma peça artística, mas que é a vida real.”

Tão real que o “manifesto desta ópera” é Adilson ter a cidadania.

Dino D’Santiago é primo de Adilson, o homem cuja história inspirou esta obra. Foto: Líbia Florentino

“E por isso foi para mim importante trazer aqui esta história. Quando tu só falas de forma geral, não há um rosto, não há um nome. Aqui há um nome que não é estrangeiro, que as pessoas entendam. De carne e osso. Sempre trabalhou, estudou a vida toda em Portugal, saiu por duas vezes quando era mais novo, França e Holanda, para dançar. Começo a ópera a dizer que ele foi batizado em Portugal, fez a primeira comunhão em Portugal, fez a profissão de fé em Portugal, fez o crisma em Portugal. É uma pessoa que sonha em português, não conhece outra realidade. Não conhece Cabo Verde, a terra dos pais. Não conhece Angola.”

DINO D’SANTIAGO

A ópera termina com o diálogo bastante surreal entre Adilson e um funcionário da AIMA. Ele pergunta-lhe: ‘que idade você tem? 26?’. ‘Eu já existo antes de existir o SEF. Já veio o SEF, depois veio a AIMA. Vocês continuam a mudar, mas a minha situação não muda.’

Uma ópera com sonoridade dos PALOP

Desde que Dino d’Santiago recebeu um convite da BoCa, que desafia artistas para saírem da sua zona de conforto e trabalharem mais a questão performativa, de teatro, que pensou que tinha de fazer algo sobre imigração e misturas. “O John Romão pensou muito na criação de uma ópera crioula. A primeira coisa que eu pensei foi que todas as claves, do início ao final da ópera, tinham de ser de todos os países que se expressam na língua portuguesa”, diz.

“Esse foi logo um primeiro desafio, todas as canções terem claves de Angola, Cabo Verde, Brasil, Guiné, Portugal, Moçambique e São Tomé. Foi onde eu investi mais tempo. Perceber qual é a dinâmica, que ritmos é que poderiam ser…ter uma dinâmica mais forte para as cenas mais fortes. Quando é que eu posso baixar os ritmos, trazer mornas.. Todos os instrumentos também. Vem desde os adufos, a ferrinho de Cabo Verde, a mbira de Moçambique, a tina da Guiné-Bissau.”

dino d’santiago
Dino D’Santiago fala das sonoridades tão distintas que encontramos nesta ópera. Foto: Líbia Florentino

Só como estudo, diz o artista, “já foi muito interessante perceber a riqueza”. “Sempre entendi esse lugar da riqueza dos nossos sons, mas depois quando vês os instrumentos em ação para servir uma orquestra, em vez de ser a típica bateria, foi ainda mais interessante. E também vou ter o beat, como no Kuduro. E o John aceitou logo o desafio.”

Como a obra ganhou um rosto, Adilson

Depois, o Rui Catalão, “convocado para escrever o libreto”. “Entrevistou várias pessoas. Com histórias verídicas, que ficcionámos.”

A história de Adilson surgiu no meio deste processo, com um telefonema desesperado do primo. “Isto não é vida!”, dizia-lhe ele.

“Eu estava a basear a ópera muito de uma forma generalista na história dos imigrantes na Europa, mais precisamente em Portugal. Mas quando ele liga, tudo mudou.” O primo contou-lhe o seu drama e as consequências. “Não posso alugar uma casa, não posso ter uma conta no banco, não posso ter um trabalho, preciso que me passem recibos por mim, fazer tudo de forma clandestina, preciso de um fiador e outra pessoa que aluga a casa”.

A comparação com o próprio Dino era gritante. “Ele olha para a minha vida e diz: ‘tu tens os documentos, sais, viajas…’ Ora, nós crescemos os dois nas artes, foi com ele que eu comecei a cantar, a dançar, sempre foi aquele coreógrafo que andava comigo pelo país e muito admirado, mas depois quando surgiram as verdadeiras oportunidades ele nunca pôde sair daqui. Então, viveu com um rancor e, às vezes, com raiva até do meu percurso.”

Essa raiva está nas falas de Adilson, o próprio, em palco:

Tudo o que fazias, eu fazia também,
mas onde viste alegria, eu, eu vi
desdém. As portas que a ti sorriram,
sorriram com decisão, para mim
(todos) deram murro e exclusão.

Eu não sabia que estava fechado,
que o país me dizia: “és indesejado.”
Que o meu destino vinha escrito num recibo,
com limite marcado: “só até ao Bugio.

Que essa raiva tenha resultado nesta ópera é um pouco o epítome deste artista de luz que é Dino D’Santiago. Na peça, ele põe-se em causa, expõe falhas e desafios. Mas está lá, sempre, para nos levar no seu canto de união.

Se eu cantar sem trazer o Adilson comigo,
não levo o bairro, não sou meu abrigo.

Que Portugal aprendeu a amar Dino, todos sabemos. Talvez ainda não tenha aprendido com ele tudo o que devia. Veremos como correm as palmas e reações a este espetáculo no CCB.

Estamos ao serviço de algo maior do que nós.
Não queremos palmas vazias.
Queremos respirações suspensas.
Queremos lágrimas sem palavras.
Queremos que quem assista leve esta ópera no corpo – como quem
regressa de um lugar que não sabia que habitava.


Adilson
Conceito e Encenação de Dino D’Santiago
Libreto e Dramaturgia Dino d’Santiago, a partir do texto original «Serviço Estrangeiro», de Rui Catalão
Direção Musical de Martim Sousa Tavares
Composição Musical / Produção Musical de Dino D’Santiago e Djodje Almeida
Intérpretes: Michelle Mara, Cati, NBC, Soraia Morais, Koffy, Rebeca Reinaldo, Rúben Gomes
Convidado especial Adilson Correia Duarte a.k.a Bonny
Arranjos para Orquestra de João Martins
Música de Iuri Oliveira, Djodje Almeida, Mais Hreish, Raúl da Costa
Orquestra Sinfónica Juvenil (CCB, Lisboa)
Assistência de Encenação Solange Freitas
Colaboração na Direção de Atores de Cláudia Semedo
Direção Vocal de Francisco Pessoa Júnior
Cenografia de Pedro Azevedo
Desenho de Luz de Rui Monteiro
Desenho de Som de Bruno Lobato
Direção de Cena de Francisca Rodrigues
Figurinos de José Tenente

Onde?
CCB – Centro Cultural de Belém

Quando?
Sexta, 12 setembro de 2025 – 20:00
Sábado, 13 setembro de 2025 – 19:00
Domingo, 14 setembro de 2025– 17:00


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Catarina Carvalho

Jornalista desde as teclas da máquina de escrever do avô, agora está a fazer o projeto que lhe dá mais gozo: histórias de pessoas, próximas e profundas. Lidera redações há 20 anos – Sábado, DN, Diário Económico, Notícias Magazine, Evasões, Volta ao Mundo… – e é atenta seguidora dos media internacionais – faz parte do board do World Editors Forum. O melhor de ser jornalista é poder transformar o local em universal.


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