Ainda há dias, numa das nossas conversas da série Fala-me de Ti, Lisboa, veio à baila um troço de rua lisboeta. Geralmente passa-se por ali com a indiferença do último autocarro 58 quando, de madrugada, recolhe à estação da Pontinha. Mas daquele lugar logo o foco pousou num momento singular: foi quando um clube, que até lá, 1908, se passeava pela cidade sem chão nem campo próprio, se apresentou, ali, pela primeira vez, com nome completo – Sport Lisboa e Benfica. Mais terra-a-terra era impossível, foi na Estrada de Benfica, à volta da igreja, em três minutos a pé, daqui para ali, que andámos a caçar os testemunhos antigos desse acontecimento simples.
Para o contar, não quisemos misturar A Bola com a Revista Portuguesa de História. Não falámos de jogos de 90 minutos tornados lendas como a batalha de Ourique; nem de cavaleiros desafiando-se na Torre do Jogo da Péla, no Martim Moniz; nem debatemos o estranho não regresso de D. Sebastião, ou de outro treinador, depois de um torneio internacional em que levámos uma cabazada no deserto.
Contámos o batismo de um clube que viria a ser célebre, sobre a terra batida de um caminho urbano, enquanto, ao lado, lavadeiras estendiam a roupa a corar na margem esquerda da ribeira de Alcântara.
Conhecem nascer mais lindo?
Há mais de um século, na Estrada de Benfica, logo a seguir à igreja da Nossa Senhora do Amparo – nas traseiras da fila de táxis que hoje esperam por passageiros – em plena rua (ao tempo ainda sem asfalto), havia um campo de futebol com nome de quinta esquecida, Feiteira, onde um clube, que até lá se chamava Sport Lisboa, estreou o nome inteiro que exibe até hoje.
Não foram erguidos nem Arco do Triunfo nem estátua do Marquês de Pombal para festejar o facto. Mas há um facto: foi ali.
No jogo inaugural do Maracanã, o mais famoso dos estádios, o Brasil ganhou por 4-0, facto que logo se tornou irrelevante porque aconteceu no Mundial de futebol de 1950 que os brasileiros acabaram por perder. Já o campo da Feiteira soube escolher glórias mais duradouras: há fotos, muitas, com o Benfica a jogar, no ano inicial de 1908, uma baliza plantada onde hoje é a porta de entrada do Centro Comercial Nevada, com os jogos prosseguindo, meio por estrada pública, meio em arreto agrícola, pelos convencionais 100 metros e pico das regras do futebol, até à outra baliza e vice-versa. E sempre ao longo da várzea de uma ribeira (antes, claro, da cidade, o bairro, a estrada e os prédios encanarem o riozinho até ao Tejo).

Esse episódio, ide ver aqui, foi contado metendo um capitão da equipa com nome de descobridor marítimo. Aparecia ainda o líder do clube que escrevia populares peças de revista que enchiam os teatros do Parque Mayer. E um guarda-redes que fundaria o Cruzeiro, a revista mãe do jornalismo brasileiro. E um miúdo santomense, júnior que impôs “não, o Benfica não fecha antes de começar!” (frase agora inventada, mas que exprime bem o que aconteceu) e, feito o feito, o miúdo partiu para o norte de Angola fazer uma roça de laranjas famosas e até cantadas (também houve foto, meio século depois, dele, já de carapinha branca, recebendo no seu quintal em Luanda, os José Augusto, Coluna e outros que vieram agradecer-lhe terem chegado a bicampeões)…
E tudo isso só falando de gente dos verdes, salvo seja, anos do tal clube.
Relatos sublinhando o singular dos personagens, porque o melhor que uma equipa pode ter é cada nome, cada homem. É um bom costume, o do futebol, onde tudo se relata com nome, pois não é sobre anónimos. Serve para cada um de nós, comuns, também sonhar não sermos um desconhecido.
Contar gente e feitos, mas não só, deitar mão também a pedras e cal. Então, naquele pedaço da Estrada de Benfica do lado da ribeira não havia casas. E do outro, a igreja e o adro ainda ficavam ligeiramente afastados da primeira baliza.
Já o chalet do avô do escritor António Lobo Antunes, que seria derrubado na década de 1970, também foi espectador de futebol, com varanda fotografada, vimo-la, que bem ficaria como camarote presidencial, tomara hoje o do estádio da Luz.
Isto para dizer que entre a igreja e o chalet, sobretudo duas vivendas gémeas ajudaram-nos a relatar o tal episódio da bola.
A Vila Ana já lá estava desde 1890 e a irmã, a Vila Ventura, embora só construída em 1910, ainda teve tempo de ver jogos no campo da Feiteira. Logo antes do clube, sem sair do bairro, ter passado em 1911 para outro “estádio”, vizinho, na avenida Gomes Pereira e noutra quinta, como contámos.

Protagonistas, as vilas geminadas, ainda hoje estão no lugar do acontecimento. Por isso elas foram, de novo, convocadas: Falem de vocês, Vilas Gémeas, pois sois memória. E, já agora, não só de ouvir dizer, mas como coisas, que pegaram de estaca.
Como sempre em Fala-me de Ti, Lisboa, fomos caçar pormenores. Coisas aparentemente anódinas que, sujeitas a carinhosa atenção, pipocam como papoilas saltitantes. Podemos não ter ciência para muito assunto, mas quando lavadeiras do rio se debruçam numa bandeirola de campo de futebol sabemos reconhecer uma boa história. Às duas vivendas basta elas terem coexistido com aquela imagem para qualquer vizinho da Estrada da Luz se julgar um Almeida Garrett nas Viagens na Minha Terra.
Mais, caçar pormenores, iluminar o significado deles e relacioná-los com o que os cerca, isto é, saborear um lugar, leva quase sempre a encontrar outras surpreendentes razões para continuar a comer.
Sim, as vivendas são extraordinárias por terem assistido ao começo de um clube. Mas, logo depois de nos terem ganho a atenção, as duas simples casinhas aprontaram outras seduções. É o que se segue.
Na última semana de novembro de 2017, um vizinho da Estrada de Benfica, mais uma vez a caminho da praça de táxis, passou por duas irmãs abandonadas. Eram casas, mas elas já eram também personagens do bairro e o vizinho lançou-lhes o habitual olhar de carinho.
Com mesmo número de porta (aliás, de quintal), 674, a mesma beleza gasta, duas silhuetas cansadas, olhando-se em espelho. Cada uma com dois andares, ambas ladeadas por um torreão de quatro águas e outro de duas, abertos por lucarnas e janelas redondas, em óculo. Casas centenárias, com toques de gosto de quem as construiu, ricos brasileiros de torna-viagem, para fazer inveja a quem passa.
Há dez anos, as duas estavam abandonadas, ou quase.
Uma buzinadela insistente rasgou a Estrada de Benfica, um carro mal-estacionado obstruía outro. Ao chinfrim, a vivenda da esquina, a Vila Ana, permaneceu impassível. Já ninguém a habitava, sem portas nem janelas, estava cercada por um tapume com um cartaz em que se anunciavam obras atrasadas. Na vivenda ao lado, janelas entaipadas, só uma do 1.º direito tinha cortinas.
Foi essa que se abriu de par em par. Uma cabeça branca espreitou. Era a dona Emília Cândida, a última habitante das vivendas que esperavam não se sabia bem o quê, talvez que a dona Emília Cândida não abrisse mais a janela. Ah, um pormenor mais, naquela esquina à espera do pior, a janela da dona Emília tinha dois vasos de flores.
Ela deu a entender que ia descer e o vizinho decidiu esperar. Só a conhecia à janela. Vinte anos antes, tinha-a visto pela primeira vez, mas desenhada e estampada na capa de um romance. Envolta em cortinados azuis, atrás dos quatro quadradinhos de vidro duma janela debruada a branco, cotovelo pousado e face repousando na mão aberta – já ela então, 1985, quando saiu o livro, olhava o que, num dia de 2017, veio espreitar: a sua Estrada de Benfica de sempre.

No romance a personagem chama-se Teresinha Rosa e a vivenda, Villa Celeste, com duplo “l”, como os das Villas Ana e Ventura estavam atarraxados nas paredes fronteiras. A autora – a escritora Hélia Correia, que vivia em Benfica – talvez quisesse sublinhar que não inventava nada, só imitava a vida. A história de Villa Celeste – Novela Ingénua era sobre uma mulher que ficou muito perturbada quando alguns vizinhos começaram a despedir-se dela: “Tornaram a chegar cartas de oferta para a compra da Celeste. Teresinha ditava respostas malcriadas”. Fim da ficção.
Nos anos 1950 e 1960, a Emília Cândida de carne e osso começou a ver os vizinhos partir.
Ela ficou e impediu, só por ficar, que mais um prédio manhoso dessas décadas pobres substituísse as Vilas gémeas.
Desculpem, só mais um bocadinho de ficção, ouçam a Teresinha, que estava a ficar velha, a pensar: “E a [ela tratava a sua casa como uma pessoa] Celeste? Assim que ela morresse, caíam-lhe ao assalto, matavam-na também. Seria esse verdadeiro fim, quando as paredes se abatessem sobre o chão e a memória de tudo ficasse soterrada…”
Voltemos, aos factos, deixemos o livro. E atendendo ao que nas últimas décadas iria suceder ao cenário envolvente – as duas arruinadas Vilas gémeas – o mais adequado seria mudar o género literário, de novela ingénua para fantasia sombria: os canos secaram, os fios elétricos fundiram, o gás apagou e as paredes apodreceram.
O novo milénio chegou com o destino inexorável: “aquilo” cairia por si. Só a simples existência de Emília Cândida e a modesta renda sempre paga ainda impediam o destino marcado. Ela continuava a morar, única inquilina nas duas vivendas, no primeiro andar da Vila Ventura.
E, se bem se lembram, na última quarta-feira de novembro de 2017, ela descia as escadas.
Aguardando-a, em baixo, o já há referido vizinho do bairro colecionava provas do abandono geral à volta. A parede virada à rua mostrava uma frase com algumas letras metálicas aparafusadas e buraquinhos de outras, arrancadas. O todo compunha uma espécie de jogo de palavras: “VI… V..T..A”. Letras, um espaço e um buraquinho por cada letra perdida. Foi fácil ao vizinho decifrar: “VILLA VENTURA” Mesmo o duplo “l” em falta, não o confundiu, toda a gente sabia que as vilas era do tempo de ortografias centenárias.

Quando a dona Emília Cândida surgiu trazia com ela a aura de uma aldeia gaulesa irredutível. Como Obélix, ela parecia ter mergulhado na poção mágica que torna forte os simples. De comum, ainda, ela ter um gatito, como o gordo gaulês tinha o canito Ideiafix. De diferente, a gentileza de dona Emília Cândida em cada gesto.
Ela descera para trazer comida ao gato, o último de uma chusma que vivera no jardim das duas vivendas, suspenso um metro sobre o passeio da Estrada de Benfica. Por coincidência, o carteiro passava e entregou-lhe um envelope da Meo. Ela abriu-o e qualquer coisa a confundiu, talvez o valor, mais de 400 euros para pagar. O gato, aos pés, esperava que ela lhe desse de comer, mas a dona estava alheada. Ao menos com os gatos é simples, não se lhes dá nome e chamamos-lhe gato. Emília Cândida decidiu ir saber da conta da Meo, afagou o seu gato sem lhe dar nome e voltou a subir ao apartamento.
Reapareceu com casaquinho de bom corte, apesar de coçado. Numa malinha de mão, as contas arrumadas, os papéis da operadora televisiva, da eletricidade, da água e do aluguer, 30 euros e 88 cêntimos. Gás já não tinha, passou para bilha desde que um último vizinho estragou a ligação.
Na malinha levava a papelada da vida inteira e com ela andava sempre que saía das vilas. A carta da proprietária que, nos anos 1990, vendera a uma imobiliária o apartamento que esta alugava a Emília; a carta da empresa, em setembro de 2016, prevenindo-a de que lhe dava prazo para sair, por causa de obras; da mesma empresa, no mês seguinte, amaciando a proposta: Emília Cândida só sairia da Vila Ventura quando as obras da Vila Ana permitissem que ela fosse para um apartamento dali, com garantia de voltar à vila inicial, “para um T0, talvez um T1”…
O vizinho do bairro que ia a passar, lançara o habitual olhar agradecido às Vilas Gémeas e só por causa de uma buzina chegou à fala com a dona Emília Cândida, pediu autorização para se atrelar a ela. E já que ele passara por ali para apanhar um táxi, disse ele, teria muito gosto de a levar onde ela quisesse.
Emília Cândida foi à Meo, em Picoas. Apresentou a papelada toda e até disse, um pouco a despropósito, que era filha de Eugénia Teolinda. O vizinho ouvia tudo interessadíssimo, como se ela fosse uma paixão antiga: “Que nomes extraordinários!…”, ouviu-se ele a pensar. E ele ainda não tinha ouvido tudo. Emília Cândida disse que tinha 84 anos, a funcionária agitou gentilmente o Cartão de Cidadão e sussurrou-lhe com um sorriso: “85…” A Dama das Villas Gémeas não contestou: “Tiro sempre um ano.”
Foi preciso que lho lembrassem, ela tinha ido ali por causa de uma conta que o carteiro lhe entregara nesse dia, ainda há pouco. Ela sorriu como quem decidiu que a bola de Berlim era sem creme. Então, Emília Cândida soube que em agosto passado tinha ido ao Colombo e assinou o fim do contrato, que só acabava para o ano seguinte. Com aquilo da fidelidade e tal, ela tinha de pagar mais de 400 euros… Assinou? Provavelmente, sim, a assinatura estava lá. Talvez a atenção da Emília Cândida estivesse cansada pelo tanto que deu – não, agora não falamos de alcavalas nos contratos para enganar os humildes, dissemos deu no sentido de gostar dos da porta ao lado.
Ela morou, para que o à sua volta não morresse.
O vizinho do bairro voltou de táxi para depositar a dona Emília Cândida na casa do seu destino. E depois ele foi para o seu trabalho. Como era jornalista, dir-se-ia, para o seu jornal. Mas não. O jornal dele era uma memória que tinha sido amputada da sua casa. Desde o ano anterior, 2016, o belo edifício do Diário de Notícias, na Avenida da Liberdade, fora vendido para apartamentos de luxo. Anunciava-se o que é hoje notório para quem passa na avenida. Raras eram as noites em que uma janela revelava um inquilino usando o interruptor – como se fossem todos almas penadas. Ou mais prosaicamente, não se morava, investiu-se.

Nada que não tivesse sido avisado por Almada Negreiros, com vários murais naquele edifício, que foi uma casa vivida pelo DN. O seu génio cínico levou-o a prevenir quem – jornalistas, figuras públicas, entrevistados e meros portadores de notícias ou anúncios – entrasse pela porta que cumpria a função cívica do jornal. No cimo desse mural da entrada, que era o mais movimentado todos os dias, Almada desenhou esta frase camoniana: “Quem não sabe arte não na estima”.
Enfim, que casa de Lisboa a contar-se, ali se perdeu!
No sábado seguinte ao susto de dona Emília Cândida com a fatura da Meo, 2 de dezembro de 2017, o Diário de Notícias publicou uma reportagem sobre o assunto único que aqui temos tratado:, a cidade e os seus lugares com tanto para contar. Vinha assinada pelo mesmo jornalista que assina esta crónica na Mensagem.
O título era: “A mulher que via partir os vizinhos”.
E a reportagem tinha esta entrada: “Duas vilas seculares, ao fim da Estrada de Benfica, aguardam não se sabe o quê. Se for demolição, o bairro e a cidade perdem uma história onde entram o bairro e a cidade. E Luís Pacheco e Spínola e Maria Lamas e Lobo Antunes e, sobretudo, nós.”
Falemos, então das gentes. Retalhos de Bem-Fica é um blogue que recolhe testemunhos de antigos moradores. Um dia, um vizinho lembrou o que era para ele as duas Vilas Gémeas: “Do óculo do torreão, vimos o incêndio do Palácio de Queluz.”
A memória é precisa também porque ensina o que não fazer. Comprovado por uma testemunha do incêndio do Palácio de Queluz, fica-se a saber que na Estrada de Benfica, ainda em 1934, se via seis quilómetros além. No fim da segunda metade do século passado, já quase todas as casas ricas da Estrada de Benfica tinham sido derrubadas, E o horizonte passou a acabar do outro lado da rua – nos prédios de quatro andares com varandas fechadas a alumínio. Não há pior que pobre de braços caídos.
O Retalhos de Bem-Fica foi um dos representantes dos cidadãos cientes de que o destino de Emília Cândida era preciso ser cumprido. Deixar arrasar certas casas era desligar uma fonte. Desde 2009, um grupo de cidadãos fez uma petição pela salvaguarda das casas gémeas.
Como se escreveu na novela ingénua? “Se as paredes abaterem sobre o chão, a memória de tudo ficava soterrada.” Que lema foi o da vida de Emília Cândida? “Fico.” Que impôs o miúdo do clube agónico? “Não acaba.”
Semanas depois do artigo do Diário de Notícias, em maio de 2018, uma carrinha de mudanças veio buscar os pertences da dona Emília. A paróquia trazia-lhe as refeições, ela já não cozinhava, partiu mais velhinha e fraca, mas não derrotada. As obras arrancaram nesse ano, a fachada original manteve-se e as vilas Ana e Ventura transformaram-se em apartamentos bons e sólidos e são cara chapada das vilas anteriores.
A aldeia do Astérix também já não é a mesma desde a morte de Goscinny, mas continuam a publicar-se álbuns e com bons novos personagens. O essencial é que a pedra fique, para ancorar as memórias. Viva as novas Vilas Gémeas. É de mau gosto chamarem Condomínio Bouganville quando tinham 125 anos de inspiradores nomes,Vila Ana e Vila Ventura. Mas, tenhamos fé, a força de um lugar é também o passado que ele carrega.

Insistamos em relembrar.
A Vila Ventura e a sua inquilina resistente inspiraram Hélia Correia. Vejam a capa do livro dela: é da Ulmeiro. A editora fundada por José Ribeiro, mais do que um livreiro de Benfica, mas ponhamos assim, porque neste texto ser do bairro é medalha. Sabem porque se chama Ulmeiro? Por causa das árvores soberbas que ensombravam as margens da ribeira de Alcântara – ali ao lado, mas que já não há. Mas estão na capa de livros.
Repararam na relação? Parece a frase batida: isto anda tudo ligado… Pois, batida agora, mas antes quem a inventou foi o jornalista e mais e mais Eduardo Guerra Carneiro. O “Isto Anda Tudo Ligado”, 1970, era uma coleção da (é preciso dizê-lo?) Ulmeiro.

Além disso a novela Villa Celeste foi editada por um famoso vagabundo nacional. Olhem a coincidência: “Em Benfica era assim: de um lado a Villa Ventura e do outro a Villa Anna, que era a casa dos meus avós”, palavras de Luiz Pacheco, o de O Libertino Passeia por Braga…, que morou nos fins da década de 1940 na casa da sua família burguesa.
E que também se passeou por Lisboa: “Eu dei-me mais com o António Maria Lisboa foi em Benfica, na Villa Anna, no Verão de 1950, antes de ele ir para Paris a primeira vez.”
Imaginem o poeta surrealista e o provocador de toda a vida chegarem cansados ao nº 674 da Estrada de Benfica, sempre através de palavras do Pacheco: “Lembro-me que quando perdíamos o último carro do Arco do Cego para Benfica que era à uma e meia… então, íamos a pé por aí fora.”
Terá alguma vez um deles evocado esse cadavre exquis que tinham vindo a pisar: “Sabes quem nasceu em cima deste asfalto, antes de ser asfalto?” Que bom vai ser quando a Inteligência Artificial inspecionar o passado.
Duas casinhas modestas e já temos três escritores diretamente ligados a elas. Já para não voltar a referir António Lobo Antunes, prolixo, graças a Deus, em crónicas dedicadas ao chalet do avô, ao lado da Villa Ana. As coincidências são danadas por acontecimentos simultâneos.
No texto anterior dedicado à Estrada de Benfica, lembrou-se muito Lobo Antunes, em recordações de adolescente, cronicando sobre as coxas da sua cozinheira, no chalet vizinho, quer dizer defronte às janelas laterais da Vila Ana, meados de 50. Como não ansiar por um dia aparecer um texto do Pacheco sobre a mesma senhora?
Na década de 1920, o futuro marechal e Presidente António de Spínola, estudando ainda no Colégio Militar, morou também na vivenda Ana. É giro como já damos estas coisa de barato. Não é mais um escritor a juntar à lista das Gémeas (se descontarmos Portugal e o Futuro), mas é outra coincidência. Só por o escritor libertino e o militar de monóculo e pingalim terem vivido na mesma casa, embora em tempos diferentes, já era um argumento definitivo contra a demolição daquele lugar.
Acresce que falta à lista já tão longa, a personagem mais parideira de espantos. A sério, ela também por aqui andou?! À direita das vivendas gémeas, no prédio quase encostado à Villa Ventura, viveu a escritora Maria Lamas (1893-1983).

No primeiro andar, por cima dos primeiros CTT de Benfica, na esquina da rua Ernesto da Siva quando esta desemboca na Estrada de Benfica, e também numa casa daquela rua, a Vivenda Natalina, durante as décadas de 1920 e 30.
Há uma foto dela posando com as três filhas, posando num banquinho, frente à vivenda.

Neste exercício de procura de pormenores que nos deem asas para saber mais, Maria Lamas só pode ser contada com um rol de quem tem tanto para contar. É uma ironia associar um hábito de dona de casa a uma portuguesa que, como poucas houve, tão mais mulher do mundo foi.
Outra contradição é, num texto que privilegia o pormenor localizado e o pequeno facto que encontramos ao ir ao fim da nossa rua, com Maria Lamas termos de remontar às Terras do Fim do Mundo.
Em 1911, Maria Lamas acabava de fazer 18 anos, estava a parir a primeira filha, Maria Emília, em Capelongo, no extremo sul de Angola, um forte militar nas margens do rio Cunene. Viera com o marido, o major Ribeiro da Fonseca. Era mato, mato, só com histórias raras a acontecer à volta.

Era a última ocupação colonial a consumar-se em Angola, submetiam-se os muílas, donos de gado que se revoltavam com a imposição cristã de as mulheres deles não poderem andar de mamas ao léu. Isto cruzado com as caravanas de boers calvinistas, casais loiros com caterva de filhos e as suas carroças puxadas cada uma por 16 bois. Atravessavam o rio Cunene, fugindo da derrota infligida pelos ingleses, subiam por Angola dentro.

Maria Lamas regressou com fotos, mal guardadas em placas de vidro, difusas e grávida de outra filha, Madalena, 1913. O marido era macaense, o irmão ia ser o último governador da Índia, o pano de fundo era imperial, mas ela vai desinteressar-se dessa inevitável decadência.
Divorciou-se, o que era então raro.
Voltou a casar-se, com um monárquico, Alfredo Lamas, que de importante lhe deixou a terceira filha, Cândida, e o nome, Lamas, que ela vai guardar a vida inteira. Ao marido não, também se divorciou dele.

Dois maridos arrumados. Um republicano, metido em politiquices que até participou num dos últimos duelos de Lisboa (e contra um primeiro-ministro, três fotos na capa do DN, 1924); e um monárquico, fundador de jornais humorísticos com bons títulos (O Papagaio Real, O Cacete…) – Maria Lamas cedo arrumou também a questão de regime.
Passou a interessar-se exclusivamente com questão maior do seu país. Vai evoluir com a ideia e a prática, primeiro, até culminar num livro grandioso, As Mulheres do Meu País.
Para ela, a questão.
O pai, burguês republicano da província, ajudou-a a cortar a direito: deu cabo da fortuna ao jogo e a família teve de vir de Torres Novas para a capital.
Foi assim que Maria Lamas se encontrou em Benfica, três filhas e obrigada a trabalhar. Começou na Agência Americana de Notícias, de facto brasileira, e dirigida por uma alentejana mestiça, lésbica e feminista, Virgínia Quaresma.
Esta chegava ao Brasil e os jornais do Rio disputavam-na como repórter. Sabiam que houve isso, um dia? O Brasil interessado em portugueses? Ah, é verdade, já falámos do guarda-redes de Benfica que revolucionou a Imprensa brasileira.
Quanto a Maria Lamas: Virgínia Quaresma, impressionante, mas não o suficiente para intimidar quem já tinha mundo do tamanho de já ter parido nas terras do fim do mundo, ainda adolescente. O essencial juntava-as, camaradas de escrita e mulheres.
Maria Lamas lapidava a arma com que iria atravessar a vida. Escrever útil.
Tratava-se mesmo de instrumento de trabalho, caneta para transformar e virada para o jornalismo. Um primeiro romance, Humildes, de 1923 e com pseudónimo, Rosa Silvestre, e um dos primeiros poemas, Crianças! (datado: “Benfica, maio de 1925”), eram só gosto.
Entretanto, ela arredondava os fins do mês (divorciada, três filhas, não esquecer), dando aulas no Instituto Luso-Belga, escola próxima, em Carnide.

Anúncio, a 18 de dezembro de 1926: “Récita a favor dos pobres de Benfica na sede do Sport Lisboa e Benfica. Na 1ª parte, algumas palavras da Sra D. Maria Lamas, distinta professora do Instituto. Seguido de baile.”
Mais um piscar de olho às coincidências desta história.
Maria Lamas, anos 20, morava no prédio vizinho das vivendas gémeas que conheceram os primeiros passos e passes do SLB. Entretanto, o clube, dez minutos a pé, subira a Estrada de Benfica, virou à direita e alojou-se na sua nova sede, na Avenida Gomes Pereira, em 1926, já com cinema e tudo. No fim desse ano, Maria Lamas foi lá e deu baile. Les bons esprits… No Instituto, Maria Lamas também dava aulas de francês.

Entretanto, nessa avenida, desde 1921, construía-se a maior fábrica de vestuário de Lisboa e logo foi a empregadora de Benfica e arredores, junto à sede do tal clube. Hoje a Fábrica Simões aderiu à moda, transformou-se em condomínio de luxo, com a simpatia de oferecer uma biblioteca dedicada ao escritor local (é com um abraço de agradecido que se escreve isto) António Lobo Antunes.
Entretanto a travessa onde isto se localiza, passou a chamar-se Rua José Simões, uma das mais recentes de Lisboa e homenagem a um operário, tornado empresário e que chegou a dar trabalho a mais de 2 mil operários, sobretudo operárias.
Daí voltarmos a Maria Lamas. Arredondando sempre os fins do mês, Maria Lamas, divorciada, mãe de três filhas e cidadã, também passou a ir à Fábrica Simões. Por duas razões. Para dar aulas de alfabetização a operárias e buscar e entregar lingerie, camisas e casacos, em que ela, em sua casa, costurava pormenores e caseava botões. Eram, além de suplemento de ordenado, aulas práticas para ela preparar a sua obra mestra, saber das mulheres do seu país.

Em 1929, Maria Lamas foi convidada a dirigir a revista Modas e Bordados, do jornal O Século. Foi uma revolução. Ou melhor e mais, foi uma reforma. De uma coisa de modas e bordados, ela fez um tratado de tentar tirar a canga do pescoço a meio mundo (já sabem qual meio). A palavra mais importante na frase anterior é “tentar”. É que ela queria mesmo fazer.
Ao correio das leitoras, ela respondia como Tia Joaninha, culta e prudente, um bálsamo eficaz e inteligente. Um sucesso para a revista, que de deficitária passou a locomotiva do jornal. Mais forte, Maria Lamas começou a ousar. Um dia expôs tapetes de Arraiolos nos salões de O Século e conseguiu que algumas das tecedeiras fossem à exposição. Não foi fácil, elas estavam presas nas Mónicas.
Uma foto dela em outra exposição, no jornal, 1936, mostra-a com o Presidente Carmona, galante, e Salazar olhando atentamente para um tear transmontano.

Se quiserem armar em espertos, apostem que aquilo iria acabar mal. Acabou, mas foi um tiro fortuito, sabemos lá. O importante eram os passinhos em frente de Maria Lamas, um método persistente e muito mais corajoso.
Lá para a frente da vida dela, ela vai ser despedida, dedica dois anos, 1948-50, a fotografar e contar as mulheres do país dela, vai ser presa, vai exilar-se aos 68 anos, idade pouco usual para o exílio mesmo quando é para Paris.
Este texto não é sobre Maria Lamas. A sê-lo, há 79 caixas no espólio de Maria Lamas, onde se guardam cartas. Como esta: “Fiquei tão contente, querida Maria Lamas, com a sua cartinha! Ando com ela na minha carteira e é raro o dia em que não a releio.”

Este texto é sobre duas vivendas da Estrada de Benfica, as Vilas Ana e Ventura e os pormenores, em pedra e em pessoas, em factos e em lendas com que a nossa cidade nos surpreende.
E sussurros. Por exemplo, lembram-se da nossa querida velhinha que lutou toda a vida pela sua casa? Sim, essa que em 2017, tinha 85 anos. Nasceu, em 1932, a nossa Emília Cândida. Ela até teve o cuidado de nos informar, como quem não queria a coisa, aliás, que a mãe se chamava Eugénia Teolinda. Então está recebido o recado, vamos já transmiti-lo.
Sra Dona Maria Lamas, a sua vizinha, a dona Eugénia Teolinda, lembra-se?, lá de Benfica, mandou-nos dizer, que ficou muito orgulhosa quando a senhora foi para a Modas e Bordados. Teve é pena que Sra. doutora já aparecesse menos no bairro.
Mas olhe, ela, Eugénia Teolinda, quando engravidou, teve muito gosto em dar ao bebé os nomes das filhas da Sra. doutora, da maior e da pequenita: Emília Cândida.
Nesta série da Mensagem, “Fala-me de ti, Lisboa”, Ferreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

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Vivi e revivi muitos os meus anos em Benfica. Trabalhei na Gomes Pereira, mas na CIPAN, durante 32 anos. Vivi junto aos antigos correios na esquina da Estrada de Benfica, no prédio ao lado onde morava o jogador José Águas antes de ir viver para o Bairro de Sta. Cruz.
Lembro-me perfeitamente do ribeiro/a de que falam. Do local onde era o Futebol Benfica, depois era aí que as marchas faziam os ensaios. Tudo isso acabou. Comi muitos bolos da Nilo, e quando vou a Benfica às tertúlias no Palácio Baldaya, vou recordar esses bolos. Obrigada por estas boas recordações.