Nesta série da Mensagem, “Fala-me de ti, Lisboa”, Ferreira Fernandes (texto) e Nuno Saraiva (ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.

“Fala-me de ti, Lisboa…” é mais uma coisa da Mensagem de Lisboa em forma de assim e feita pela melhor das razões, porque sim. É um jogo simples e instrutivo. Por exemplo, estou parado e espremido no mais aborrecido lugar lisboeta, a esquina da Igreja do Loreto.

Parece um não assunto, certo? Ora, basta um pequeno e fácil esforço e logo dou conta de que é um lugar do caraças. O truque, insisto, é simples: estar atento. Quem lida com Lisboa tem a obrigação de fazer por a merecer.

Quem passa naquela esquina quase sempre não dá por ela. Aliás, não passamos, paramos, ali paramos sempre, porque nela somos mera multidão compactada. Juntamo-nos comprimidos, turistas ou marçanos, entre a porta lateral e o adro da igreja, uma e outro com escadarias de pedra e vazias. Esperamos que o passeio para o Chiado desentupa ou o semáforo nos permita avançar para o Camões.

Entretanto, somos a maior e bovina multidão da cidade. Todos os dias, milhares de vezes ao dia, cronometrados pelo semáforo da EMEL armada em VAR, máquina de vermelho e verde, num derby alfacinha, sobrelotado como todos, mas com adeptos manifestamente indiferentes ao que lhes acontece. Lá está, não é admissível nem irremediável a indiferença. Basta dizer: “Fala-me de ti, Lisboa…”

Um dia destes, estava eu naquela esquina. Assim cheguei, assim fiquei, nenhum passo me foi permitido. Virei o pescoço em vários sentidos e ninguém se interessou cruzar os olhos comigo. O habitual. Aconteceu, porém, ter visto uma adolescente encostada ao semáforo e ela trazer na mão um O Primo Basílio, talvez acabado de comprar na FNAC, estava em promoção. E aquilo foi como um flash.

Então, como já me tinham falado do tal novo jogo da Mensagem, sussurrei: “Fala-me de ti, Lisboa…”  E de imediato surgiu uma resposta ao desafio: “Apressou o passo, ao Loreto parou”, ouvi.

Juro.

Não foi Lisboa que respondeu, é certo, mas quem melhor pode falar pela cidade, senão Eça de Queirós? Foi dele que ouvi a frase clara, bem soada, embora esquisita. “Apressou o passo, ao Loreto parou”. À minha volta, a pasmaceira geral continuou. Pelos vistos, o jogo era giro, mas só entusiasmava o próprio.

O facto é que puxei pelo fio e aconteceu o que se segue.

“Apressou o passo, ao Loreto parou”, disse-me Eça, falando de Luísa, a infeliz protagonista de O Primo Basílio. Aquela frase, a meio do romance, precede o seu momento mais dramático.

Já lá vamos aos pormenores, mas, entretanto, repararam?  Até Eça reconheceu que em chegando ao Loreto, para-se. Já em finais do séc. XIX, era assim.

Fui transportado para as memórias do livro. Ao fim duma manhã, ainda no jardim de São Pedro de Alcântara, Luísa de Mendonça de Brito apressara o passo pela rua da Misericórdia (Eça escreveu “de São Roque”, então o nome da rua). Ao seu lado, intrometido havia pouco, ia o conselheiro Acácio, que falava, falava – “acaciano”, como Eça cunhou até hoje o tipo de conversa moralista, pomposa e balofa. Já Luísa, ela só tinha cabeça para o encontro com o primo, mais logo, entre lençóis.

Pouco depois, já ouvimos, ouvi só eu, mas confiem: Luísa apressada, “ao Loreto parou”. E com ela assim ficámos todos, a saber de um lugar com muito para contar como, por exemplo, a Nau Catrineta, o fresco de Almada na gare de Alcântara. Isso, ou do outro lado do rio, poder vir-nos à memória Bordalo, o das figuras eternas em desenho ou cerâmica. Uma vez ele esteve de quarentena no lazareto de Porto Brandão, quando regressava do Brasil – olhem foi no ano seguinte a ter sido lançado o livro que levou Luísa ao Loreto.

Em tantos lugares lisboetas, há centenas semelhantes, a nossa cidade tem sempre respostas para dar ao apelo “Lisboa, fala-me de ti…” Respostas que engrenam outras perguntas e assim por diante. Há sempre alguém, alguma coisa, um susto, uma alegria a espevitar-nos.

As cidades como Lisboa são um museu aberto, um laboratório de estímulos, memórias que não só nos agarram, empurram também. Lendas e pessoas de carne e osso, personagens de obras literárias e gente de mão-de-obra, cais de porto e bancas de mercado, tudo vale a pena exceto os distraídos.

Durante séculos, a Cerca Fernandina marcou o que viria a ser a rua por onde veio Luísa enquanto fingia aturar o conselheiro Acácio. A igreja foi construída em 1550, já do lado de fora da muralha, na porta de Santa Catarina. É, a esquina onde Luísa parou já foi um dos lugares por onde se entrava e saía da cidade. E lá estamos agora, na esquina da igreja do Loreto, onde me aconteceu a epifania.

Quando Eça chamou ao lugar “o Loreto” cometeu, certamente porque o queria, uma sinédoque, essa espécie de glória gramatical de tomar a parte pelo todo ou o todo pela parte, para sublinhar que aquele sítio, coisa substantiva, merecia o artigo definido.

O Loreto não pode ser esquecido. Era o, como as coisas vividas e únicas; não era um, como um qualquer.

No tempo de Eça, “o Loreto” não tinha sido tragado pelo vizinho Chiado, imperialismo que avançava, mas ainda não chegara ali. Ia-se ainda ao Loreto, parava-se no Loreto, o Loreto era um mundo e a capital dele era a sua única esquina. O Chiado ainda não o reclamava, nem o ocupara, como Putin, hoje, à Crimeia.

Por falar nisso, guerras, posso dar já outro exemplo de como caçar maravilhas em Lisboa é tão comum que as coincidências se apanham aos molhos. Minutos antes, quando a caminho da esquina do Loreto, passei pela vitrina de uma velha loja de charutos, a Casa Havaneza. Tivesse eu, então, usado o tal método de abrir memórias – “Fala-me de ti, Lisboa…” –, outro livro cantaria aqui, que não O Primo Basílio. Certo e sabido, teria aparecido uma voz a contar outro sucesso extraordinário.

“Nos fins de maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havaneza, ao Chiado, onde uma tabuleta suspensa se colocavam os telegramas da Agência Havas; sujeitos de faces espantadas saíam consternados, exclamando logo para algum amigo mais pacato que os esperava fora: – Tudo perdido! Tudo a arder!” – palavras do último capítulo de O Crime do Padre Amaro.

Mais uma vez, seria Eça armado em cicerone, iluminando um passado que nos associava a hoje. É uma bênção reconhecer casos similares entre Lisboas longínquas no tempo, separados por século e meio, mais e menos, mas sempre entre a mesma pedra e caliça nas paredes. No mesmo lugar, à porta da Casa Havaneza, sobre assunto igual, a guerra, consumidores quotidianos de diretos televisivos da Ucrânia e de Gaza, isto é, nós, éramos comparados com o testemunho de figuras literárias que liam telegramas, acabadinhos de chegar da Paris incendiada durante a Comuna.

Em Lisboa tropeçar em coincidências na História e nas histórias é tão comum que até podemos escolher qual a fonte que nos dá mais jeito. Para falar do pequeno e aparentemente maçador Loreto, preferimos ter começado por lembrar O Primo Basílio.

Mas podia ser outro o livro: “Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna…”

O estilo é notável, o largo referido era o Loreto e a frase está no antepenúltimo parágrafo d’ O Crime do Padre Amaro. Mas Eça é tão lúgubre nesse livro, que o trocámos de bom grado pelo Primo Basílio. À Luísa, “aquela linda senhora, tão olhada”, a burguesinha lisboeta metida em pecado de adultério e que vai morrer disso, Eça levou-a até à esquina do Loreto e ali a deixou a marinar. Se querem que vos diga, desconfio que o escritor não sabia bem o que fazer com ela.

Num outro momento, mas dos mais enfastiados de Luísa, ela não sabia se ia ter com o amante ou não. Atirou com uma moeda de cinco tostões ao ar. Saiu coroa, o que ditou que ela devia ir. E foi. À corrente literária deste Eça chamou-se Realismo, a personagens como Luísa chama-se-lhes bocejo. Mais uma razão para persistirmos com O Primo Basílio como sócio. Quanto mais Lisboa sobreviva a estes parceiros eventuais, mais o brilho dela resplandece.

Se subirmos ao adro da igreja do Loreto damo-nos conta, à distância de um olhar, que toda Lisboa por ali passou e passa. Pessoas reais e pessoas inventadas, pessoas contando e pessoas contadas.

O pai da reportagem fotográfica em Portugal, por exemplo. No fim da monarquia, Joshua Benoliel, fotógrafo do rei D. Carlos, fez uma bela fotografia da esquina do Loreto.

Foto do Loreto, no fim da monarquia, de Joshua Benoliel/Arquivo Municipal de Lisboa

E em 1918, em plena República, no mesmo lugar, sob o adro da igreja, Benoliel, de caixote de fole a tiracolo, foi fotografado a comprar uma flor, na campanha Dia da Flor, de apoio aos soldados portugueses nas trincheiras da I Guerra Mundial.

Joshua Benoliel fotografado a comprar uma flor, na campanha Dia da Flor, para apoiar os soldados portugueses nas trincheiras da I Guerra Mundial.

Sempre do adro, olhando em frente, fixa-se uma imagem que pode ser do presente. A dois minutos descendo a pé pela rua do Alecrim, no Largo Barão de Quintela surge a estátua de Eça de Queirós. O escritor ampara uma bela mulher desnuda, de braços abertos, seios expostos, que um manto semiesconde. Uma frase escrita à mão na pedra do pedestal, já servira de epígrafe em outro romance sensual e irónico de Eça, A Relíquia: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.”

Tudo quieto em pedra, animado pelas gentes de hoje. É imagem fácil de gostar. Mas se a cotejarmos com o que ela carrega ficamos ainda mais bem servidos. A inauguração da estátua aconteceu a 9 de novembro de 1903 e teve muito que contar. 

Na Ilustração Portugueza, então recente revista do já poderoso matutino O Século, Rocha Martins contou a cerimónia. Na década de 1940, bastas vezes, os ardinas iriam apregoar-lhe o nome, num grito de respeito, deles e dos leitores: “Hoje fala o Rocha! Hoje fala o Rocha!” 

O jornalista nascera em 1879, no ano seguinte à publicação de O Primo Basílio e de os portugueses terem sabido, pela primeira vez, que Luísa apressou o passo e parou no Loreto. Na Ilustração Portugueza, erro de agenda, a reportagem da inauguração foi contada sem a notícia da presença do Presidente do Conselho de Ministros, Hintze Ribeiro, apesar de ele lá ter estado e descerrado a estátua.

Mas, por outro lado, o jovem Rocha Martins fez questão de trazer personagens queirosianas para o seu texto. Aliás, intitulou a reportagem, assim: “A Gente do Eça”. Reportou o conselheiro Acácio, quer dizer, contou-o como pessoa autêntica, passeou-o no Largo do Quintela. E naquele dia da inauguração da estátua até o pôs a discursar, ao estilo que lhe conhecíamos na ficção. Na importante cerimónia pública, que aconteceu, mesmo, naquela data e local, ouviram-se acacianos aplausos: “Grande talento! Grande talento!” E, ficou escrito na revista, que até surgiu um patriótico grito final: “Viva o Ministério!”. Isto aconteceu mesmo?

O certo é que a revista escreveu sobre o “Eusebiozinho, muito encolhido e com um furúnculo” e descreveu o “Palma Cavallão de grande pança e de lápis em punho tirando apontamentos”, ambos também vindos do mundo criado por Eça e ali presentes naquele dia.

Amparada por Eça de Queirós, a alegoria A Verdade, desnuda e que tão expressivamente Teixeira Lopes martelou em pedra não deixou de causar efeitos nos seus colegas fictícios saídos de livros. O jornalista Rocha Martins viu e escreveu – é certo que escreveu, mas viu? – “o padre Amaro a cobiçar os braços tenros da estátua, recordando os da Ameliazinha”. 

Outro impressionado pelas formas da estátua foi Basílio. Fizeram-lhe lembrar Luísa, garantiu o repórter. E o famigerado primo “ao vê-la assim, num arrepio, sentiu-a fria no seu mármore, morta”.

Um pouco tétrico, mas aparentemente verdade, pois não consta a Ilustração Portugueza ter recebido desmentidos. Entre memórias das amantes, os fantasmas literários, ressuscitados na homenagem ao seu criador, mostraram que tinham sentimentos ou pelo menos pulsões eróticas.

Poderá tudo isto, confuso e anacrónico, ser passado a notícia? Que tolice, claro que sim. Não é a vida, a real, estranha? Como podemos nós, filhos do 2025, esquisita data, apontar o dedo a estranhezas.

Para não sair do local, o largo do Quintela, recordemos José Cardoso Pires, também ele descendo pela Rua do Alecrim abaixo “pelas nove e tantas da manhã e no outono”.

Ele passou pelo Eça, pelo véu e pela beldade: “Nem me volto, sigo em frente.” E aqui sai citação longa, com admiração: “Nisto, quando olho para o fundo da rua, descubro que os enormes guindastes da Lisnave da Outra Banda do rio se encontram quase no lado de cá, em cima do Cais do Sodré. Atravessaram o Tejo ou foi o Tejo que encolheu durante a noite?” 

Vem isto em Lisboa – Livro de Bordo, título seguido de avisos à navegação – “vozes, olhares, memorações” – e que foi escrito em tempos da Expo’98, mostrava-se Lisboa ao mundo.

Só não vê guindastes a atravessar o Tejo pelo próprio pé quem desistiu de ver Lisboa. Obrigado, José.

Dão-se conta, agora, da maravilha, ou sabe-se lá o quê, que aconteceu entre a Luísa parar no Loreto e, um quarto de século depois, os seus colegas pavonearem-se, logo ali abaixo, na festa da estátua?

Só tinham passado três anos da morte do escritor (Eça faleceu em Neuilly-sur-Seine, arredores de Paris, 16 de agosto de 1900) e já as suas criaturas gozavam por Lisboa, compareciam a cerimónias públicas e declamavam boutades tiradas das suas próprias cabecinhas!

Aquele dia grande que marcou Lisboa e a Ilustração Portuguesa tão bem relatou pode ser hoje consultado em nossa casa, nem precisamos de nos deslocar à Hemeroteca de Lisboa, o acesso é grátis e pela Internet.

Numa daquelas esperas até o semáforo da esquina do Loreto virar verde, deveríamos subir a escadaria do adro da igreja. E com um olho no telemóvel e outro no largo do Quintela, confirmarmos sempre quanto isto tudo está ligado. Um dia, quem sabe, aparece-nos uma figura gravada, não sabemos como de uma futura Imaginação Artificial (I.A.2), confirmando quanto a nossa cidade é surpreendente.

Para retribuir a dádiva, o que a Mensagem de Lisboa e os seus leitores podiam fazer de vez em quando, era de microfone e da escadaria, ler páginas do Eça à sempiterna multidão aos seus pés. Tipo ação kamikaze dos da Climáximo, mas inteligente.    

Naquela edição da Ilustração Portuguesa, só um personagem menor, o visconde Reinaldo, dândi, aristocrático estrangeirado, envergonhado de ser português – tão português, enfim – não se desviou um centímetro sequer do papel a que o seu dono, o grande escritor Eça de Queirós, o açaimou pela eternidade fora. 

Vendo a emoção do amigo, o visconde com ânsias de saxónico achincalhou: “Shocking… Ó Basílio, estás um lamechas. Cousas portuguesas!” E dando-se conta da escultural beldade, o peralta voltou à carga: “Ó menino. Não é feiazinha! Mas portuguesa! Ora levanta-lhe o manto. Aposto que usa ligas de algodão!”

Naquela cerimónia de 1903, outra revista, O Occidente, esta já com anos de publicação e mais formal, não se esqueceu de anunciar que no largo do Quintela, com a estátua coberta pela bandeira nacional, “foi o sr. conselheiro Hintze Ribeiro, presidente do Governo, que puxou o cordão e logo uma salva de palmas saudou o modesto monumento grande pela arte do autor.”

A revista O Occidente dá conta dos discursos solenes. Foto: Hemeroteca de Lisboa

Mais um jornal a confirmar que o conselheiro Acácio esteve mesmo presente, naquele dia, ali e com o estilo habitual.   

O mais importante discurso da cerimónia, o de Ramalho Ortigão, foi quase integralmente reproduzido nessa edição de O Occidente (já a Ilustração Portuguesa publicou uma gravura com ele lendo, entre cavalheiros de labita e senhoras de estola e chapéu). 

A ramalhal figura, reclamando-se do amigo (“Eu e ele fomos íntimos companheiros de trabalho durante 30 anos”), autorizou-se a falar dos personagens de Eça como se fossem seus.

Cita-os às dezenas – Fradique Mendes, Carlos da Maia, o Libaninho, o padre Amaro, a Gouvarinho, a Maria Eduarda, a Dona Leopoldina…

E mais disse Ramalho Ortigão: “As personagens de Eça são outros tantos autênticos, atuantes e ponderosos moradores de Lisboa que iremos hoje mesmo encontrar na Havaneza ou descendo o Chiado às 4 da tarde.”

Falava de gente, não de conceitos abstratos.

Ele, que compaginou com Eça Os Mistérios da Estrada de Sintra, sabia que essa primeira obra começou por ser publicada entre as notícias de um jornal, antes de virar livro. Aliás, o homenageado iniciara-se para o grande público como repórter do Diário de Notícias, enviado à inauguração do Canal do Suez e dessas notas factuais– digamos por Gaza, para as relacionarmos com a nossa atualidade – serviram-lhe para inspirar figuras literárias, por exemplo n’ A Relíquia, 20 anos depois.

Repetimos, a realidade das pedras da cidade confunde-se com o povo andante e também com os personagens literários que pairam nas esquinas.

Naturalmente, “a desgraçada e trágica Luísa” também foi citada por Ramalho. E era aqui, com intuito utilitário, que eu queria chegar. Só por mero realismo tolo aquela inauguração da estátua no largo do Quintela, em 1903, não podia ser explicitamente relacionada com a protagonista que deixámos, um quarto de século antes e alguns parágrafos atrás, 100 metros de rua do Alecrim acima, na esquina do Loreto. Quando Ramalho discursou ainda Luísa existia, o problema dela não era já ter sido dada como morta em novela. Era não ser grande como personagem. 

Como explicar que Eça de Queirós, logo no primeiro ano que se apanhou no Panteão de Lisboa, perante um apelo sussurrado por um repórter da Mensagem de Lisboa, se tenha apressado a lançar uma frase de um livro rapidamente identificável: “Apressou o passo, ao Loreto parou.” Evidentemente, Eça quis cotejar a verdade que está no largo do Quintela e a fantasia que parou na esquina do Loreto (ou vice-versa). Enfim, Eça quis dar emoção ao Primo Basílio

Quando o amigo íntimo e maior colaborador de Eça usou os personagens deste num discurso de saudade, é porque reconheceu neles uma condição de que em 1903 ainda não se sabia a força toda: ser lisboeta.

Gentílico que não define só os indivíduos, mas também as pedras, as paisagens, as lendas e os fantasmas. E os factos históricos, não a aura, os factozinhos sem conta e admiráveis.

Uma das nossas grandezas é sermos poucos, o que leva a coincidências mais do que muitas. Tropeçarmo-nos entre nós continuamente não é maleita, é feitio, tão, tão emocionante.

A Luísa da esquina do Loreto teria todo o interesse em ouvir Ramalho, que conhecia de Eça, amigo de peito, todos os enredos. No discurso, entre todos os personagens queirosianos, incluindo o autor em mármore, Ramalho qualificou a criada de quarto de Luísa (e senhora dos segredos da patroa) com o pior dos insultos que foram usados por ele. À dita criatura, ele chamou “a abominável Juliana”. E isso, a Luísa que ainda estava na esquina do Loreto, ainda não sabia. 

A dado passo do seu discurso, Ramalho, sanguíneo, antigo passarinheiro e caçador de coelhos, como dizia de si próprio, definiu o amigo Eça “delicado, nervoso, atraído pelo dramático problema da humanidade que encerram as quatro paredes de cada prédio de uma cidade.”

E meia dúzia de linhas depois, Ramalho descreveu a despropósito “o largo do Quintela, onde a desoras, vagueiam vultos suspeitos e onde chegam os palavrões dos cocheiros, por onde passam os Basílios, após perfídias.”

Em 1903, Ramalho Ortigão discursando do largo do Quintela, estava a avisar Luísa para saltar fora do livro de Eça. Ele sabia-a momentaneamente parada no Loreto (ninguém acredita que Ramalho não conhecesse de cor e salteado cada uma das páginas do amigo). Então, ali tão perto, ela certamente o ouviria. E mesmo que ao tempo não houvesse altifalantes, a boa literatura haveria de inventar pressentimentos para colmatar as insuficiências técnicas e fazer chegar a mensagem à Luísa: vai-te embora.

Na verdade, o destino de Luísa de Mendonça de Brito nem precisava de ser tão radical. Na verdade, sair do Primo Basílio, quando ela estava na esquina do Loreto, seria abandonar o livro que ia quase literalmente só a meio (na página 166, da edição que tem sido consultada, com 326 páginas). Saltar seria um escândalo. Bastava à senhora dar a volta e regressar casa.

Mas não, ela não aceitou o aviso de Ramalho Ortigão e na esquina do Loreto, virou à esquerda. E, assim, e infelizmente, o livro continuou o que estava previsto por Eça.  O conselheiro Acácio, vendo passar uma carruagem, “tirou profundamente o chapéu” (ele, até a cheirar rapé, o fazia profundamente) e disse à Senhora Dona Luísa, a seu lado: “É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um sinal de dentro.”

Isto foi escrito em 1878! E em 1903, ali perto, a cem metros se tanto, Hintze Ribeiro, o presidente do conselho de ministros, como os jornais confirmaram, voltou a ser visto com o conselheiro Acácio, numa cerimónia pública. Outra enorme e incrível coincidência aconteceu! O encontro entre conselheiros, o Hintze e o Acácio, em criação literária, primeiro, repetiu-se mais tarde, em facto…  

Perdão, há ali um leitor com o braço no ar… Ah, há um erro? Hum!… Na verdade, no parágrafo anterior foi sugerido um anacronismo. Quando O Primo Basílio foi publicado, ainda Hintze começava a carreira, o chefe do Governo era outro. No livro, Eça não o citou. Mas isso não é importante. Repare-se, no livro Eça carregou nos pormenores quando pôs Acácio a cumprimentar alguém na carruagem: “É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um sinal de dentro. O nosso primeiro parlamentar, vastíssimo talento!”

É, no livro ninguém falou de Hintze Ribeiro. Mas já agora que se fala nisso, com aquele “de dentro”, do conselheiro Acácio, a novela não podia esclarecer que eminência era aquela, pois dentro da carruagem fazia escuro. Querem ver que o maroto do Eça, suspeitando da rebaldaria dos seus personagens depois da sua morte, foi quem engendrou mal-entendidos para o futuro?…  Ainda bem, é também essa Lisboa confusa que queremos contar.

Desesperada por não se desenvencilhar do conselheiro Acácio, Luísa mentiu-lhe uma desculpa: “Vou aqui fazer uma devoçãozinha!”, e entrou na igreja dos Mártires. Em vão, o emplastro esperou-lhe a saída, “todo satisfeito de descer o Chiado com aquela linda mulher, tão olhada”.

Assim mesmo, “descer o Chiado”, tal como Ramalho, no seu discurso previra para as personagens fictícias. Ele só errou na hora, ainda não eram “4 da tarde” como ele garantira e veio escrito na revista O Occidente, em 1903. Minudência.

Às 4 da tarde, Luísa não estava na cama com o primo – perfidamente Basílio não esperara por ela. No regresso a casa, um cocheiro insultou Luísa em pensamento: “Que bicha!” E à noite a abominável Juliana exibiu à Luísa as provas das culpas e, pela curta vida fora, agoniou a patroa até à morte.

Tudo isto foi escrito no romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós, em 1878. Tudo pormenores que Ramalho Ortigão adiantara num discurso histórico, como que saltando páginas do livro do amigo.

Oh, quanto ficamos a saber quando paramos numa esquina de Lisboa…

*Este projeto foi feito com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa

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Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

Nuno Saraiva

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4 Comments

  1. Maravilhosa narrativa do que é ser lisboeta e pertencer a esta Lisboa que
    tão bela e sempre tão actual que nos
    dá tanto orgulho, sim queremos ter
    sempre novas histórias para ler

  2. Muito interessante e cruzar o inigualável Eça de Queirós com as curiosidades sobre Lisboa é uma óptima ideia, até porque estamos sempre a aprender.
    Já agora, como refere o ardina, talvez poucos tenham reparado na estátua que lhe é dedicada. Encontra-se no jardim de São Pedro de Alcântara, Bairro alto.

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