Não foi só por tradição que Sahida, que veio do Bangladesh para Portugal com a família, se manteve nos primeiros tempos em casa, sem trabalhar, a ser uma boa esposa e suporte familiar. A barreira linguística impediu-a de encontrar um trabalho adequado aos seus estudos. Mas agora tudo mudou: Sahida conseguiu, não só um trabalho, como transformar-se no orgulho da família graças à organização onde trabalha — a We Cheffes. Este é um projeto com 15 cozinheiras de várias partes do mundo, em Portugal, que organiza um serviço de catering com pratos feitos por cozinheiras não profissionais, mas que cozinham comidas da sua terra, à maneira caseira.
O projeto permite que as mulheres valorizem uma competência frequentemente desvalorizada e de forma profissional: cozinhar.
Sahida tornou-se a heroína da família ao comprar uma vaca para eles, no Bangladesh. Este é um bem de grande significado cultural e valor económico, normalmente adquirido pelo chefe da família, normalmente um homem, durante festividades importantes.
Isso mesmo lembra à francesa Olivia Bourkel porque é que ela fundou a We Cheffes: com um toque de ironia feminista. O “chef” tem um estatuto elevado na hierarquia da cozinha mas é geralmente um homem. Os subordinados respondem com um “Oui, Chef” (sim, chef). Para Olivia, as mulheres até cozinham melhor, muitas para as suas famílias há anos, mas raramente lhes é reconhecido esse mérito com o título de “chef”.
Por isso, ela escolheu “cheffe”, a forma feminina de “chef” em francês. E acrescentou We, que, sendo em inglês, soa a “Oui, Chef”.
Olivia fez mestrado em Gestão do Turismo Sustentável, em Lisboa. O tema da tese foi sobre experiências gastronómicas inovadoras para a sustentabilidade social, o que inspirou a criação da We Cheffes.

Uma cozinha sem fronteiras
Como muitas das mulheres no programa, Olivia também se questionou sobre o que poderia fazer quando chegou a Lisboa. Juntou-se à Mama Food — uma aplicação que permitia comprar pratos caseiros a vizinhos – e conheceu várias das atuais cozinheiras. Em fevereiro de 2023, a Mama Food encerrou, mas Olivia decidiu não desistir e assim nasceu a We Cheffes.
Atualmente, a We Cheffes opera na Grande Lisboa e oferece pratos autênticos de 15 países de África, Ásia, América Latina e Europa. É como de fosse a multiplicidade de Lisboa, à mesa. A diversidade é tanta que, apesar de Olivia falar quatro línguas, por vezes tem de comunicar com as chefs por gestos ou com o Google Tradutor.
“Construímos uma comunidade calorosa onde partilhamos saberes gastronómicos. Para nós, a comida é a linguagem”, diz .
O serviço varia entre buffet, cocktail party, coffee break, com adaptações vegan, vegetarianas, sem glúten e halal. Elas tratam da entrega, montagem, limpeza, staff e decoração de mesa. As reservas podem ser feitas através deste link.
Construir Identidade Através da Cozinha
Minna chegou a Lisboa vinda de Hong Kong há quatro anos, cansada do ritmo acelerado da sua cidade e atraída pelo ambiente acolhedor de Portugal. Ainda assim, a pergunta “o que fazer?” pairava sobre ela — foi professora de inglês, de teatro e atriz. Mas a sua aparência asiática e a falta de domínio da língua dificultavam o acesso ao mercado de trabalho.
Foi na Mama Food, onde entrou por sugestão de uma amiga alemã, que percebeu que podia dar valor pessoal à sua cozinha, tal como antes o fizera como professora ou atriz. Foi ela que ajudou e incetivou Olivia a criar a nova iniciativa.

“É um orgulho ser uma chef ”, diz Minna.
O que começou como um hobby tornou-se uma paixão crescente: adora trocar receitas e experiências com outras chefs. Agora, além da comida de Hong Kong, também domina pratos japoneses e coreanos. E não quer parar — já tem um plano entusiasmante para juntar gastronomia e teatro.
Minna não é a única que redescobriu e ficou apaixonada pela culinária.
Luz, do Peru, chegou a Portugal há sete anos com o namorado meio-português e trabalhou num restaurante até este fechar na pandemia. Nasceu nas montanhas Andes, cresceu ligada à produção alimentar, e mudou-se para Lima para trabalhar como cozinheira com as tias. Há um ano abriu em Alcântara o restaurante Andes Mundo com a irmã.
Conheceu Olivia através do Impact Hub Lisbon o que a ajudou no objetivo de promover a comida e cultura peruana em Lisboa. Como tem restaurante, oferece o espaço para que as chefs se encontrem e troquem experiências. Sonha com um espaço ainda maior no futuro para expandir essa partilha.

Apesar da ausência de marketing, Olivia e as chefs celebraram o segundo aniversário da We Cheffes. “O meu único desejo é que a We Cheffes não feche”, brinca Olivia. “Talvez um dia encontre alguém que queira investir”.
Apesar da brincadeira, tanto ela como as cheffes olham para o futuro com confiança e esperança — todas estão prontas para continuar a contribuir para uma Lisboa mais multicultural.

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