Este artigo faz parte de uma série de jornalismo ambiental com foco no concelho de Setúbal.
É o resultado de uma parceria com a Câmara Municipal de Setúbal e integra as Jornadas de Ambiente do município.
Certa noite, Rute, “uma menina curiosa”, vai deitar-se com uma inquietude, depois de ouvir notícias do degelo na Antártida. Quando adormece, a inquietude transforma-se em sonho e, no sonho, surgem avisos, mas também sugestões de comportamentos sustentáveis que todos podem adotar.
Poderia ser verdade, mas esta é uma história que nasceu da imaginação de uma turma de 20 alunos do 6.º ano da Escola Básica Barbosa du Bocage, em Setúbal. Durante três meses, numa espécie de ritual das tardes de quinta-feira, pegaram em ilustrações já feitas para construir uma história sobre alterações climáticas e sobre comportamentos que ajudam a contribuir para a sustentabilidade ambiental.
Isso deu um livro para “acordar a terra”.
Os alunos dispõem-se em semicírculo, ensaiando as posições que assumirão no dia da apresentação pública do livro. Colocam na cabeça os chapéus que fizeram e que aludem à história e preparam-se para o último ensaio da leitura.
A professora e diretora de turma Susana Estrela, que fora do seu emprego na escola pertence a uma companhia de teatro, é quem os tem acompanhado ao longo de todo o processo, do desenho inicial da história à apresentação pública do livro. “Aproveitamos sempre algum do conhecimento para as atividades escolares”, conta.





“Eles aprenderam imensas coisas com este projeto. Além de todo o programa relativo à sustentabilidade e às alterações climáticas, [o livro] ajuda a passar a mensagem daquilo que cada um poderá fazer para que o nosso planeta seja mais verde”, diz a professora.

A 31 de maio, o livro foi apresentado à cidade de Setúbal, no Parque do Bonfim e os alunos leram em público a história que ajudaram a escrever.
Ao longo de 56 páginas, seguimos um sonho protagonizado por Rute e Noa, “uma raposa com um pedido urgente”. O estado em que as pessoas deixaram o planeta está a destruir-lhe a casa e é preciso alterar o rumo dos acontecimentos. Há “chaminés gigantes cuspindo fumo”, uma floresta que desapareceu para dar lugar a estradas e plásticos a ameaçar a vida nos oceanos.
O livro escrito pela turma do 6º I foi oficialmente apresentado a 31 de maio e pode, a partir de agora, ser lido online de forma gratuita.





Mas há esperança – a mudança de alguns comportamentos pode ajudar a evitar o aprofundar da catástrofe. São pequenos passos para a mitigação e a adaptação às alterações climáticas.
Mas nem tudo é sobre sustentabilidade ambiental. “Aprenderam a saber citar, a ler, a entoar, a fazer projeção de voz – e isso são tudo aprendizagens essenciais”, sublinha a professora.
Para o evento de apresentação do livro, os alunos criaram chapéus alusivos à história que eles próprios desenharam. “Um dos chapéus retrata o quarto da menina e relaciona-se com a ilustração”, explica Susana Estrela. Outros retratam a janela presente no livro, um incêndio numa floresta e, outro, os plásticos no mar.
Construir uma narrativa a partir de ilustrações
O processo de construção desta história não começou como é hábito. Desta vez, antes ainda de existir uma narrativa, existiam já ilustrações.
Rita Melo e Ricardo Crista formam a equipa de ilustradores que ajudou a dar cor e forma a uma história por escrever. Inicialmente, as ilustrações que acabaram nas páginas deste livro tinham outro destino: foram feitas em 2020 para uma outra história sobre alterações climáticas, que não veio a concretizar-se.
Cinco anos depois, encontraram na turma do 6º I uma nova vida.
O par de ilustradores vive em Setúbal e forma o Atelier :2Pontos. Para o novo livro, tiveram apenas de fazer três novas ilustrações – nas quais se inclui a capa – mas acompanharam de perto o processo, marcando presença numa aula preparatória, assim como no dia de apresentação pública da obra.
“A partir das ilustrações foi sendo feito um caminho”, explica a professora Susana Estrela.

Tudo aconteceu com a coordenação da agência de comunicação Essência do Ambiente. Foram realizadas três sessões – duas presenciais e uma outra conduzida à distância. Apresentado o projeto e o tema base – as alterações climáticas – deu-se início ao processo criativo que deu forma à narrativa.
Teresa Juncal Pires, diretora da Essência do Ambiente, coordenou o processo. As ilustrações foram analisadas pelos jovens, com idades entre os 11 e os 13 anos, que começaram a definir personagens principais e secundárias, cada uma com a sua própria personalidade e características. Mediante o caminho escolhido pelos alunos, a agência ia desenhando a história. Seguiu-se um processo de discussão e votação, em que o rumo da história seguia o caminho decidido pela maioria.
O nome da raposa da história – Noa – foi propositadamente escolhido pelos alunos da Escola Básica Barbosa du Bocage por ser neutro no género – assim, pode representar qualquer pessoa ou animal, explica Lara Barrinho, uma das alunas responsável pela leitura pública do livro.


“Foi um partir de pedra”, explica Teresa Juncal Pires. “Depois de recolhermos todos os inputs, tivemos também em atenção os conteúdos programáticos delineados para estas faixas etárias”. A agência de comunicação assegurou a revisão dos conteúdos por professores do ensino básico e secundário, bem como de engenheiros da área do ambiente.
A história foi construída “em blocos”. E a narrativa final um processo de cocriação: a agência escrevia a história mediante as decisões dos alunos e devolvia-lhes a palavra, com “três alternativas” de caminho a seguir.
“A primeira parte da história foi enviada e os alunos puderam responder a uma série de questões, dizendo com o que concordavam e o que não concordavam”, conta. No final de contas, os alunos decidiam “o caminho que queriam efetivamente dar à história”, explica Teresa Juncal Pires.
Tudo, da história ao título, passou pelo crivo dos alunos.
Este livro nasce de um projeto do Gabinete de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável e Emergência Ambiental da Câmara Municipal de Setúbal, no âmbito do programa Comunidades em Ação e com financiamento do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR).

Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
✉ frederico.raposo@amensagem.pt

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
