Este é o primeiro artigo de uma série de jornalismo ambiental com foco no concelho de Setúbal.

É o resultado de uma parceria com a Câmara Municipal de Setúbal e integra as Jornadas de Ambiente do município.

Num canto do recreio da Escola Básica do Montalvão, em Setúbal, havia um descampado de terra batida onde os alunos costumavam brincar. Eram 70 metros quadrados vazios… que agora se tornaram num micro-bosque. Nesta manhã de maio, seguimos uma turma de 21 alunos do 4.º ano, mas este é um projeto que envolve quatro turmas, entre o 2° e o 4° anos de escolaridade e acontece também na Escola Básica de São Gabriel. Aqui viverão 700 plantas de 70 espécies diferentes. E são um pedaço da flora autóctone da Serra da Arrábida.

A turma divide-se em dois para dar início ao laboratório de micro-bosques. Esta é uma típica manhã de quarta-feira. A primeira metade da turma, de mangas arregaçadas, cada um com um balde na mão, para apanhar favas. Preparam-se para entrar dentro do micro-bosque e verem o quanto cresceram as plantas desde a última vez que as visitaram, na semana anterior. Os restantes organizam-se para a Oficina da Biodiversidade, o espaço onde a ecologia e a criatividade se encontram.

Ao comando das atividades estão Ángela Martín e Tiago Fernandes, da associação Musgo Azul, os criadores deste projeto, “Micro-bosque: Da semente ao bosque”, que está a aproximar os mais pequenos da natureza, sem saírem da escola. E a dar mais um espaço verde a Setúbal.

Sónia Borges, professora da turma, observa de perto. “Eles sentem-se elementos da natureza, sentem-se participantes, e veem os resultados do seu trabalho, isso é fantástico”, partilha.

Ángela Martín e Tiago Fernandes, da associação Musgo Azul, os criadores deste projeto, “Micro-bosque: Da semente ao bosque”. Foto: Inês Leote
Sónia Borges, professora da turma, diz que o projeto tem sido um sucesso. Foto: Inês Leote

Mas esta é, e sempre será, uma obra em construção.

Da Serra da Arrábida para a escola

Foi fundada em dezembro de 2022, com um grupo de profissionais formados em áreas como arquitetura, antropologia, sociologia, produção de som e imagem, mas também formação em agrofloresta. A associação Musgo Azul começou por fazer ações de regeneração agroflorestal, em parceria com autarquias, como a de Setúbal, Palmela e Lisboa.

Hoje, vai um pouco mais além, com a ajuda de mãos pequeninas.

Tiago Fernandes conta que antes da fundação da associação Musgo Azul já trabalhava com escolas, maioritariamente no contexto de horta pedagógica, onde sempre se falou de agroecologia. O que significa isto? “Pensar sempre que a horta potencialmente será uma floresta”.

A par da intenção da Câmara de Setúbal de ir criando cada vez mais corredores naturais dentro da cidade, um dos objetivos do projeto “Da semente ao bosque”, como explica Ángela Martín, é “trazer um bocadinho da flora autóctone da serra da arrábida ao pátio da escola”.

O micro-bosque do pátio da Escola Básica do Montalvão conta com variadas plantas da floresta da Serra da Arrábida, como carvalhos, alfarrobeiras, medronheiros, murtas e até plantas aromáticas como Salvas, Alecrins, Lucia-lima e tomilho.

A diversidade florestal é a chave para o sucesso do micro-bosque, dizem.

Muitas das plantas deste bosque chegam da Serra da Arrábida. Foto: Inês Leote

Aqui, a natureza não compete, ajuda-se

“Idealmente cultivam-se, no mesmo momento, desde rabanetes, que colhemos três semanas depois, rúcula, que colhemos um mês e meio depois, alfaces, dois meses depois, tomates, três ou quatro meses depois, e até, hipoteticamente, uma amendoeira, que vive mais de 100 anos, ou uma alfarrobeira ou uma nogueira que vivem 400 anos”, explica Tiago Fernandes. A ideia é ter uma maior ocupação do solo possível, de modo a que este fique protegido e vá sendo regenerado.

A plantação de oito a doze plantas por metro quadrado implica que a terra seja frequentemente mexida. Tiago Fernandes explica como isto é benéfico para os solos e plantas: “a natureza traz novamente à superfície, quando a terra é revolvida, tudo o que a terra tem em termos de património genético”. Dá ainda o exemplo das ervas daninhas: “o pessoal está sempre a querer limpá-las, mas elas estão a cumprir a sua função”, contribuindo com nutrientes para a terra. 

Dentro do bosque, a curiosidade dos alunos do 4.º ano é rainha. Seguram um vaso com hortelã chocolate e sentem pela primeira vez o aroma da planta que virá a ser plantada no seu devido metro quadrado. A admiração pela hortelã leva as crianças a quererem guardar uma folha cheirosa para si: “Se cada um de vocês tirar uma folha, fica só o caule. Temos de cuidar da planta!”, explica Tiago algo que todos compreendem. 

“A nossa intenção primária neste projeto é passar uma consciência ecológica de defesa dos ecossistemas”, conta Tiago.

As favas têm um grande papel no ecossistema deste bosque. Foto: Inês Leote

Considerando as diferentes necessidades das diversas plantas, é necessária sensibilidade ao trabalhar os ecossistemas. É essencial dar a cada planta exatamente aquilo que precisa. Por exemplo, plantando favas juntamente com alguma árvore que precise de composto, a fava, absorvendo o composto, vai ficar doente com excesso de nutrientes – fica com piolhos. Os piolhos revelam-se um pesadelo apenas para professores e alunos, porque, para as plantas, são essenciais.

Aparecem para absorver o nutriente que ficou disponível na fava uma vez que esta não teve capacidade de o assimilar. Este é o início de uma cadeia trófica complexa que é consequência de tentar reproduzir o ciclo de uma floresta numa escola: uma joaninha come o piolho, um pássaro come a joaninha, um gato come o pássaro… e por aí em diante. 

Nesta escola em Setúbal, aranhas, formigas e abelhas não são temidas, são respeitadas como parte do ecossistema. 

Além disso, o micro-bosque no pátio da escola está dividido em ninhos agroflorestais – uma vez que não é possível fazer plantação diversa ao longo de toda a área do bosque ao mesmo tempo, foram desenhados “ninhos” de cerca de um metro quadrado a um metro e meio quadrado cada, onde são estabelecidas de 8 a 12 plantas.

Cada ninho é um, embora pequeno, muito denso ecossistema. 

Ángela Martín explica que “na natureza não há competitividade, há colaboração”, Foto: Inês Leote

Na área do micro-bosque foram plantadas faveiras e ervilheiras de maneira a nutrir a terra para receber as restantes plantas. Terra esta que, estando a ser pisada há mais de 30 anos, precisou de uma máquina escavadora no início do projeto para ser revolvida pela primeira vez. Estava, por isso, a precisar de nutrientes. 

Um dos ninhos agroflorestais conta com um salgueiro, que se destina a proteger as restantes plantas do vento, uma alfarrobeira, “uma das árvores que aqui ficará para a continuidade”, explica Tiago; um medronheiro e uma murta, que terão também longevidade, uma gilbardeira, uma pitanga, que é uma fruta brasileira, uma hortelã, e outras que já foram comidas, como alfaces. 

Entre os diversos ninhos, por todo o micro-bosque, estão as favas – por serem ricas em nutrientes, excelentes para o solo e para o desenvolvimento das plantas vizinhas. 

Ángela Martín explica que “na natureza não há competitividade, há colaboração”, ao contrário do que frequentemente é compreendido. A estratificação das plantas é, por isso, de extrema relevância para a boa colaboração dentro do ninho agroflorestal. E, acrescenta Tiago Fernandes, “a estratificação das plantas é o que acontece na floresta”.

Agricultores contra o calor

No dia em que a Mensagem esteve no micro-bosque, os alunos plantavam uma nogueira. Fazem-no com todo o cuidado, segurando o vaso com as duas mãos, com a consciência de que de um bem muito precioso se trata.

Outros colegas da turma já haviam preparado a terra para receber a nogueira, cavaram um buraco com a ajuda do professor do micro-bosque. 

O aluno encarregue de pousar a planta na terra fá-lo a medo, até ouvir as palavras encorajadoras de Tiago Fernandes: “Não tenhas medo, meu! Faz de conta que estás na praia: plantar é como fazer castelos na areia”. 

A plantação deste bosque está a combater o calor na escola. Foto: Inês Leote

A sombra e vegetação têm um papel importante na biodiversidade e, claro, na construção de refúgios climáticos na cidade – neste caso, lugares em que as crianças desta escola possam encontrar alívio nos dias de calor intenso. E sombras.

Cláudia Reis, Douturada em geografia, desenvolveu um estudo em que constatou que a área mínima capaz de alcançar uma atenuação do efeito ilha de calor urbano em 1ºC são 50 metros quadrados de cobertura vegetal. A associação Musgo Azul contribui para isto, começando no pátio das escolas.

O livro das plantas

O projeto “Da Semente ao Bosque” terá a duração de três semestres letivos. Estão juntos uma vez por semana. No final, o objetivo é o micro-bosque ganhar autonomia. 

Para tal, no final do presente ano letivo instalar-se-á um sistema de rega, cuja perspetiva é ser retirado após 2 ou 3 anos, quando o ecossistema estiver capaz de se autoregular. O próximo semestre será de manutenção, uma vez que muitas das 700 espécies plantadas na fase inicial do projeto irão desaparecer, tendo sido o seu contributo apenas de auxílio inicial ao sistema.

A oficina criativa com plantas recolhidas. Foto: DR

Metade da turma do 4.º ano a participar na atividade ficou ao cargo de Ángela Martín, que desenvolve as oficinas de biodiversidade – a parte do projeto “Da semente ao Bosque” que procura aliar a imaginação dos mais novos à consciência ecológica.

Neste dia, o objetivo era construir um Herbário – o livro das plantas – com as plantas silvestres da escola: “Se a gente não plantar nada, a natureza planta muita coisa também”, conta Ángela aos meninos relativamente às ervas espontâneas.

Ángela Martín explica aos alunos o processo de construção do Herbário. Foto: Inês Leote

O primeiro passo da atividade é dar uma volta pelo recreio e decidir qual a planta que queremos colher: “Não queremos apanhar uma e arrependermo-nos, desperdiçando uma flor”, continua Ángela Martín na explicação da atividade.

A planta escolhida deve ser embrulhada em papel de jornal e mantida dentro de uma prensa. Quando secar, as suas cores estarão conservadas, num papel os alunos poderão identificá-la e juntá-la ao Herbário. 

Plantas que dão espetáculos… com sons e imagens

As oficinas da biodiversidade visitam diversas áreas artísticas como tecnologias do som, da imagem e de produção de luzes. Todas as oficinas partem de um elemento natural como as sementes, no caso da atividade “o segredo das sementes”, em que são elaboradas histórias à volta das sementes, produções sonoras e visuais. 

Já foram realizadas também outras oficinas como um teatro de sombras, elaboração de microfones de contacto na natureza e observação de folhas ao microscópio.

O objetivo de criar esta relação criativa e imaginativa entre os alunos e os elementos da natureza é, segundo Ángela, “despertar nos alunos uma sensibilidade em fazer parte da natureza.”. A intenção vai para além do entendimento de que devemos cuidar da natureza, sendo o propósito assimilar que “podemos cuidar dela, porque ela já cuida de nós primeiro”, acrescenta uma das fundadoras da associação Musgo Azul. 

Com a aproximação do final do ano letivo, a equipa dos micro-bosques prepara-se para uma apresentação final na escola do Montalvão: pais, amigos e vizinhos poderão vir conhecer o bosque e o seu processo de criação.

Para além disto, fruto das oficinas da biodiversidade, deparar-se-ão com uma instalação visual e sonora de gambozinos. 

Uma das tarefas colocadas foi a da construção de seres fantásticos como os gambozinos, através de materiais naturais recolhidos no terreno da associação Musgo Azul, na Serra da Arrábida. Para a apresentação à comunidade, os gambozinos, construídos em grande escala, são dispostos no recreio da escola e sonorizados por um membro da associação, permitindo assim, ao tocar-lhes, construir uma orquestra de gambozinos.

*Texto editado por Frederico Raposo e Catarina Reis


Mariana Riscado

Nasceu, cresceu, estuda e vive em Lisboa há 20 anos. Encontra sempre, ainda assim, mais um canto da cidade para conhecer, mais uma história para contar. É estudante de Jornalismo na NOVA FCSH e estagiária na Mensagem de Lisboa.

Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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