Durante décadas, o Transpraia fez parte da paisagem da Costa da Caparica no Verão. Nove quilómetros de linha para lá, nove quilómetros para cá, lá andava ele, um comboio de cores vivas que ligava 20 paragens, da praia da Costa da Caparica até à Fonte da Telha. Era assim desde 1960. Hoje e desde 2019, os carris estão agora fora de serviço, cobertos por areia e em outras partes por vegetação. E a paisagem tornou-se outra: mais carros estacionados junto às praias. Talvez não por muito mais tempo.
Gregory Bernard, investidor e atual proprietário do Transpraia, chegou em 2017 à Costa da Caparica, a tempo de ainda ver o comboio ativo. “Apanhava o comboio com a minha família e achava que era lindo, algo único no mundo “, recorda.


Tem 52 anos, é francês, produtor de cinema e investidor, e encontrou na Costa da Caparica o lugar ideal para mudar o seu estilo de vida. Em busca de uma rotina equilibrada e mais saudável, Gregory abandonou as grandes cidades como Paris, Nova Iorque, Los Angeles, Washington DC, por uma vida mais tranquila e próxima do mar. Até porque é apaixonado por surf – embora diga ser um “surfer tardio”.
Só nunca imaginou que viria para definir o futuro do comboio mais icónico da cidade.
Com o encerramento do Transpraia, Gregory pegou naquela saudade que partilhava com outras tantas pessoas da comunidade e decidiu investir: adquiriu o comboio, com o objetivo de o recuperar. Até à data, “menos de um milhão” foi investido no comboio, mas Gregory sabe que será necessário muito mais para voltar a dar vida ao Transpraia.
Saiba mais sobre a história do Transpraia e o que ditou o seu fim, aqui:
Lembra-se do Transpraia, o comboio das praias da Costa da Caparica? Pode voltar a circular
Os planos para o Verão de 2026
O processo de restauração teve início em 2023 e, apesar de ter sido um processo lento, já houve progressos . Atualmente estão a ser feitas “intervenções minuciosas”, que incluem reparar troços da linha que tenham sido afetados pela natureza ou outros fatores, além de uma análise aos arquivos do Transpraia para tentar descobrir o melhor plano de ação.
Embora ainda exista muito trabalho pela frente, para devolver o Transpraia ao seu antigo esplendor, o comboio já se começou a mexer: “Estamos a realizar passeios de teste com o comboio em algumas partes das linhas para entendermos como funciona” explica Gregory.
“O nosso sonho é poder começar uma operação demonstrativa no próximo ano”. No entanto, para que isso seja possível, ainda é necessária a “luz verde” dos órgãos organizacionais envolvidos, como a Câmara Municipal de Almada, assim como serão necessários investimentos público-privados.
Com planos para voltar a circular no verão de 2026, a equipa por detrás da reconstrução do Transpraia continua a trabalhar em várias frentes — desde a recuperação das carruagens ao controlo de segurança necessário.
“A parte mais difícil tem sido ter uma ideia clara, junto com as autoridades locais, sobre o que pode ser feito.” A burocracia que acompanha a reconstrução do Transpraia tem sido um dos maiores entraves ao progresso do projeto, segundo Gregory.

Contactada pela Mensagem, a Câmara Municipal de Almada disse nada ter a acrescentar sobre o regresso do Transpraia e a importância que teria para a zona.
Mas o tema não é estranho à autarquia, que já fez saber a sua posição publicamente. Depois de tomar posse como presidente da câmara, em 2021, Inês de Medeiros falava do compromisso de “modernizar” e até “ampliar o Transpraia”. Um plano que previa a chegada do comboio à Trafaria, fazendo mais uma ligação com quem chega de Lisboa, de barco, vindo da Estação Fluvial de Belém.
O sonho de um Transpraia elétrico e que vai mais longe
Está previsto o comboio manter o percurso original, ainda que haja propostas, segundo Gregory Bernard, para a expansão, no futuro. “Esperamos que em algum momento haja uma expansão para o centro da Caparica ou, pelo menos, para o metro”.
Aliás, o afastamento do centro era apontado como o grande responsável pelo fim do Transpraia. Em 2007, com as obras de requalificação da frente marítima da Costa da Caparica, o terminal do “comboiozinho”, como era chamado, foi afastado cerca de um quilómetro do centro, ficando junto à Praia Nova e ao parque de campismo. A faturação terá sofrido uma quebra de 60%, disse António Pinto da Silva em entrevista à Mensagem, na altura em que era o administrador.
Apesar da vontade de Gregory, atual proprietário, a expansão continua a ser só uma ideia. Até à data, ainda não há planos concretos falados entre o Transpraia e a Câmara de Almada. Gregory mantém a esperança que para o ano consigam fazer avanços.

Existem ainda planos para modernizar o comboio, com especial atenção à sustentabilidade. A ideia é que o comboio continue a ser reconhecido pela sua identidade única, mas com um olhar voltado para o futuro. “Faremos uma transição para tornar os comboios mais sustentáveis. Já avaliamos os custos para eletrificar um comboio, dois comboios, três comboios, quatro comboios, para que lentamente possamos transitar para uma solução elétrica”, salienta Gregory.
O regresso do Transpraia não será apenas um regresso simbólico para as pessoas da Costa da Caparica. Poderá trazer benefícios para a mobilidade local, diz o empresário. Para perceber em que terreno trabalhava, a equipa do Transpraia decidiu fazer estudos internos sobre a reativação das linhas do comboio, concluindo que isso poderia reduzir em 10% o trânsito automóvel e em cerca de 20% o estacionamento irregular — sobretudo aquele que ocupa faixas de rodagem e obriga os condutores a circular apenas numa via.
Apesar de ainda não existir uma ideia concreta sobre o valor dos bilhetes, Gregory pretende que o preço diário dos bilhetes seja acessível à comunidade da Costa da Caparica. A ideia de um passe diário está na mesa, bem como um “passe de verão”, cujo possível valor ainda não foi divulgado. “Eventualmente, gostaríamos de nos juntar ao grupo de transporte público” , acrescenta o proprietário.
Uma causa movida a comunidade
O apoio da comunidade local tem sido essencial para manter o projeto de reconstrução em movimento.
É aqui que entra a Associação Amigos do Transpraia, que também tem desempenhado um papel ativo na restauração. Através de exposições e outras iniciativas culturais, a associação não só traz atenção para o projeto como ajuda a restaurar e preservar o património cultural que é o Transpraia e a memória que há sobre ele. Fazem voluntariado, organizam doações e envolvem a comunidade local para preservar este pedaço de história da Costa da Caparica. De 29 de maio a 9 de junho, os Amigos do Transpraia terão em montra uma exposição de arte e uma venda solidária, envolvendo artistas, como Vhils, e a comunidade local.
“Esta exposição é um gesto curatorial que reúne artistas radicados na Caparica e em Lisboa. Criadores que cresceram com os pés nos areais da Costa, que viajaram muito no comboio Transpraia, e que carregam consigo o imaginário da infância, dos dias de praia em família, dos mergulhos de verão e das doces bolas de Berlim. São estes os artistas, intimamente ligados a esta terra, que agora a transformam com o seu olhar. Mas não é uma transformação monumental nem invasiva. Acreditamos que a verdadeira regeneração acontece com cuidado, com leveza, e com intenção estética: com Arte e com Amor.“
Declaração sobre o evento, da Associação Amigos do Transpraia
Veja aqui outras exposições promovidas pela associação:
“Desde que tornamos pública a compra do transpraia, recebemos um enorme apoio das pessoas. É um sentimento unânime, em que toda gente quer que o Transpraia volte à vida” diz Gregory.
Para quem ali mora, o regresso do comboio tem um peso emocional. “Desde pequeno me lembro do comboio. É uma mais valia.” A partilha chega-nos através de um dos vendedores locais de chapéus, bolas e toalhas, ali na praia da Costa da Caparica, e que escolheu não ser identificado. Ao lado, mais uma cara tímida acrescenta: “Dá mais vida à costa.”
“Eu serei o primeiro cliente e vou chorar de alegria, se poder estar na primeira viagem de volta”, remata Gregory.
*Texto editado por Catarina Reis

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Espero que o comboio regresse, pois é uma forma de levar mais pessoas para a praia, ao longo do percurso deste, muitas vezes fora de mão para quem nào tem transporte próprio.
Quanto à ampliação do percurso até à Trafaria ,seria algo interessante, pois abrangeria mais pessoas que vinham de Lisboa, via barco.
Haja vontade e capital para levar o projeto em diante, não descurando a parte da viabilidade económica do mesmo.
Acho que todos ficariam beneficiados.
O impacto econômico, de modernização, de integração e comunicação da Costa da Caparica com Lisboa seria inigualável, se, mas se tiver a ligação com a Trafaria e outras ligações com transportes públicos.
Cascais tem um grande desenvolvimento em comparação com a margem sul, pois tem o comboio que liga toda a linha.
A margem só mais tarde, e é muito pouca a abrangência de comboio, este comboio vai ajudar a valorizar a costa, melhorar e aumentar as ligações e com Lisboa.
O impacto é geral e positivo até no
Trânsito.
De nada serve aumentar as faixas de rodagem da estrada para a ponte.
O dinheiro dessas obras era todo canalizado para este comboio e outros transportes públicos que o resultado seria muito mais bem gasto e com retorno, além do impacto ambiental e qualidade de vida.