Diz que foi a inocência que o ajudou a fotografar figuras tão conhecidas e aparentemente inalcançáveis. Por isso, Kenton Thatcher, inglês e fotógrafo de profissão, ficou conhecido como “o fotógrafo dos famosos”. A arte de retratar o outro fez com que fosse nomeado, em 2022, pela Rainha Elizabeth II, Membro da Ordem do Império Britânico, pelo trabalho criativo em Portugal e de caridade. Agora, acaba de autografar uma exposição, “Sessões“, na Sociedade Nacional de Belas Artes, com mais de 120 fotografias a ícones portugueses, como Rui Veloso, Rui Reininho e Da Weasel.

Foi aos 10 anos, tendo o pai como maior influência, que pegou pela primeira vez numa câmera. Primeiro, para fugir da angústia que a dislexia e a escola lhe traziam. Nunca mais a largou. Passados 33 anos de carreira, o que há para contar?

Como foi crescer em Winchmore Hill, no norte de Londres?

Na altura era muito britânico, não era tão cosmopolita como Londres é agora, com muitas nacionalidades. Eu vim de uma família de classe média e vivíamos nos subúrbios, mas em Londres, demorava uma hora para chegar ao centro. 

Como surgiu a paixão pela fotografia?

Eu tinha dislexia, então tive sempre alguma dificuldade com algumas disciplinas na escola como a Física e Química, e estava sempre nos piores da turma. Sofri muito com isso. Embora em algumas disciplinas, como Artes e – acreditem ou não – Inglês, eu destacava-me e estava nos melhores da turma. Foi muito estanho ser muito bom a algumas coisas, mas mau a outras. O que aconteceu, realmente, foi que, um dia, comecei a tirar fotografias com a câmera do meu pai, a minha influência na vida, e comecei a aprender e a divertir-me com aquilo. E era uma fuga.

Da escola?

Sim, porque eu ainda não me tinha descoberto na vida. Um dia levei a câmera para a escola e fiz uma reportagem sobre os meus amigos da escola. Tirava fotografias, como por exemplo estas dos Da Weasel [em exposição], todos os amigos juntos. Fui para casa e, no mesmo dia, processei aquelas fotografias. No dia seguinte, mostrei-as aos meus colegas e comecei a ter mais atenção. Ter este reconhecimento na escola, com 14 anos, foi bom. Percebi que havia qualquer coisa aqui. 

Aos 17 anos já viajava e trabalhava com fotógrafos. Como é que surgiram essas oportunidades?

Eu não fui para a Universidade, não tirei nenhum curso. Em fotografia, em geral, não pedem as qualificações. As qualificações estão no trabalho, nas fotografias. Eu jogava ténis e perguntei a alguém no clube, que era fotógrafo, se podia fazer um estágio. Disseram-me para ir ver o estúdio e eu fui. Tinha 16, quase 17 anos. Pensei que ia ficar lá seis meses, um ano e acabei por ficar três anos sem receber nada, era quase dormir e comer no estúdio. Mas estava a trabalhar com dois fotógrafos famosos na altura.

O que é que estava a fotografar na altura?

Isso é interessante. Eu trabalhei como assistente para o estúdio Tony Stone, que era um estúdio de banco de imagens, que depois foi comprado pela Getty Images. Havia três estúdios diferentes e eu trabalhei nos três. Um era de fotografias de nudez artística, outro de fotografias a animais para caixas de chocolate e latas de comida de cão e gato, e o último era de produto, fotografias de natureza morta, como uma garrafa de cerveja, por exemplo. Foi um bom treino, mas ao final de três anos estava falido. Eu nem tinha dinheiro para a viagem de ida e volta para os estúdios, os meus pais tinham de me ajudar. Comecei a ser assistente de fotógrafo freelancer, o que fiz desde os 19 anos até aos 27, onde trabalhei com mais de 50 fotógrafos diferentes.

O que esteve a fotografar nesses oito anos?

Consegui ser reconhecido muito novo, por fazer sessões fotográficas de moda no estrangeiro e por sessões de publicidade. Mas eu tratava das partes burocráticas. Por exemplo, 20 caixas de roupa, câmeras, as lentes… Ia à alfândega e eles olhavam para mim como um miúdo. Na altura, não percebia que ter essa habilidade era ser privilegiado.

Foi isso que o levou a tornar-se fotógrafo de publicidade e de retratos? 

Como assistente, trabalhei muito com publicidade. Essa era a minha escola. Mas os meus trabalhos pessoais, de portfólio, que eu adorava, eram trabalhos com pessoas e, quando cheguei a Portugal, eu comecei a fazer fotografias com bandas. Mas como tinha a experiência e conhecimento de fotografia de publicidade, as agências vinham ter comigo.

Estive envolvido numa campanha publicitária portuguesa que durou oito anos: o “Alfacinhas”, para o Centro Comercial Amoreiras. Na altura, foi um pouco polémica: uma campanha natalícia em que tínhamos José e Maria [figuras bíblicas], só que Maria estava a segurar uma alface, não o menino Jesus. Dois meses depois, estavam pessoas a protestar à porta do centro comercial.

Foto: Rita Ansone

Como é que surgiu a oportunidade de ficar em Portugal? 

Em 1991, recebi uma chamada da Central Models para vir trabalhar para Portugal e eu vim por três meses, gostava de Portugal, vim pelo sol. Mas os três meses tornaram-se seis meses, depois um ano… e aqui estou há 33, quase 34 anos.

O que achou do país?

Não há um sítio que se possa dizer perfeito para viver. Mas o que percebi na altura foi que não era o sítio perfeito, mas é o sítio em que mais perto vou estar disso. Portugal é a minha casa, eu disse-o há 34 anos e digo-o agora, mesmo com todas as grandes mudanças. Quando se tem a qualidade de vida, as pessoas portuguesas, Lisboa, o rio Tejo, a comida que é maravilhosa… é um grande país.

E o que o levou a deixar Inglaterra?

Eu não saí, isso é que é estranho. No início dos anos 90, quando eu estava mesmo a começar como fotógrafo, tinha um portfólio e estava a começar a ter alguns trabalhos, o Reino Unido estava em crise. O meu portfolio estava em agências com o portfólio de outros colegas, para quem eu trabalhei, que não estavam a receber trabalho e, portanto, pensei: se eles não têm trabalho, eu também não vou ter. Foi nesta altura que tive a oportunidade de ir trabalhar para Lisboa, onde estava a haver um boom de publicidade.

Portugal estava a mudar com dinheiro que vinha da União Europeia, com investimentos. Eu estava no local certo, à hora certa e, mesmo sendo um miúdo, eu trazia muito conhecimento para Lisboa. Acabei por ficar seis meses, conheci uma rapariga, comprei um apartamento, separei-me e, depois de dois ou três anos em que poderia ser a altura de voltar para o Reino Unido, muito do sangue latino já estava em mim e percebi que preferia este estilo de vida. 

Foto: Rita Ansone

Portugal… mas porquê Lisboa?

Boa pergunta. Acho que, na verdade, Lisboa escolheu-me, eu não escolhi Lisboa.

Foram difíceis os primeiros tempos por cá?

Já se passaram 33 anos e estou aqui a falar inglês. Este é um ponto interessante. Por causa da minha dislexia, eu sempre sofri com línguas e os portugueses adoram falar inglês, o que me ajudou imenso. 

Como é que viver aqui impactou o trabalho que faz?

Não sei como é que me impactou, mas ao trabalhar numa cidade em que não falava a língua, em que não conhecia os artistas, ajudou-me. Quando estava a ter uma sessão com o Rui Veloso, Rui Reininho, ou os Da Weasel, nos primeiros cinco, seis anos, eu não os conhecia. Essa inocência ajudou-me, com confiança, porque eu era um pouco envergonhado. Eu já tinha estado, em Londres, com algumas estrelas como o David Bowie, os Pet Shop Boys, ou o Phil Collins e sentia-me sempre nervoso ou intimidado, mas aqui não me senti intimidado. Eu sabia, por exemplo, que o Rui Veloso era um dos melhores guitarristas, à época, e tratei-o como um humano, não como uma estrela. Acho que ganhei muito respeito das pessoas, por isso.

O que é que significou para si ser nomeado, em 2022, pela Rainha Elizabeth II, Membro da Ordem do Império Britânico, pelo trabalho criativo em Portugal e de caridade?

Eu não acreditei. Estava em Lisboa e recebi uma chamada de um número que eu não conhecia e era o embaixador britânico. Pensei que fosse uma partida, não tinha mesmo ideia. Honestamente, claro que estava orgulhoso, é uma grande honra, mas ainda estava mais orgulhoso por mostrar aos meus pais. Não tive sucesso na escola, na vida académica, a minha vida foi feita através das fotografias e a medalha foi exatamente, por causa disso, pelo trabalho que fiz por caridade, através das minhas fotografias.

Foto: Rita Ansone

O que é que mais gosta de fotografar? 

Pessoas. São os retratos. Acho que nunca me desligo da fotografia, gosto de capturar os momentos na vida. Temos a oportunidade de aprender com alguém. Abre-nos portas e podemos ir a sítios onde, normalmente, não iríamos. É a minha fuga, a partir de todas estas pessoas. Elas deixaram-me entrar um pouco na vida delas. 

Qual o sítio onde mais gostou de fotografar? 

O que eu mais gosto de Portugal é a diversidade, mesmo sendo um país pequeno, de norte a sul é muito diferente. Apesar de ser um fotógrafo de estúdio, 70% do meu trabalho é feito num estúdio, eu adoro o terreno. E não tenho uma localização favorita.

Porquê o uso do preto e branco na maior parte das fotografias? 

Eu gosto de preto e branco porque neutraliza a imagem. Se tem cor, os olhos das pessoas são distraídos pelas cores, mas numa fotografia a preto e branco as pessoas conseguem mesmo olhar para os olhos, para a cara de quem é fotografado, e é disso que mais gosto, é a atração. Também, por isso, quando faço retratos não fotografo a casa, o quarto, a rua, porque isso identifica a data e a fotografia. Assim, pode ser intemporal. 

Na exposição, a fotografia mais antiga data de 1991 e as mais recentes de 2025. São 34 anos de fotografias em Portugal…

Acho que representa uma grande parte, nem é uma pequena parte, é mesmo um grande capítulo da minha vida, mas não é apenas um capítulo da minha vida. É um capítulo da vida das pessoas que estão aqui. É a documentação de história portuguesa destes 30 anos. Ter este trabalho de simplicidade, sempre num fundo simples, torna-se uma coleção nela própria e não é única, muitos fotógrafos já o fizeram. Inspirei-me em Richard Avedon (fotógrafo que, em Nova York, teve uma exposição que inspirou a “Sessões” de Kenton Thatcher) que foi um dos meus mentores. Mas em Portugal existem duas coisas aqui: primeira é que não existem muitos fotógrafos que o tenham feito (fazem-no, mas sem uma coleção com uma história de 34 anos); a outra, muito triste e que só me apercebi na pesquisa para a exposição, é que, por exemplo, a Marie Claire fechou e o trabalho foi para o lixo, a Elle deixou Portugal, então muitas das minhas fotografias desapareceram. Felizmente, guardei duas ou três fotografias de cada sessão e algumas delas são as que estão aqui.

Numa era em que toda a gente pode tirar fotos com um telemóvel, o fotógrafo está em perigo?

O papel de um fotógrafo mudou, não desapareceu, mas mudou imenso. Com a nova geração de Inteligência Artificial é muito mais difícil, vai destruir o fotógrafo, como profissão, para muita gente. No tipo de trabalho que faço, que é sobre a pessoa, onde coloco um pouco da sua personalidade nas fotografias, em que conto a história daquela pessoa, não me vejo a ser apagado assim. Talvez, esteja bem para mais 10 anos. 

O que vem a seguir?

Estou a fotografar os novos talentos em Portugal, a nova geração. É isso que estou a capturar agora. Acho que vai ser a minha próxima exposição.

*Texto editado por Catarina Reis


Gonçalo da Silva Amaral

Nascido em Lisboa, mas criado na Margem Sul do Tejo, apaixonou-se por contar histórias na Avenida de Berna ao estudar Jornalismo. Veio para a Mensagem de Lisboa fazer o que mais gosta: conhecer e contar as histórias.

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1 Comment

  1. Muito bom artigo assinado pelo Gonçalo da Silva Amaral.
    Parabéns pelo bom gosto de conhecer e contar histórias!

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