Filipe Cipriano anda há uma vida inteira às voltas com o tempo. Foi à arte da relojoaria que dedicou a maior parte das horas da sua vida e, hoje, com 85 anos, ainda permanece no ofício, numa pequena oficina nos Anjos. Será um dos últimos mestres relojoeiros da cidade onde nasceu, Lisboa. Embora já com os ponteiros da profissão a um ritmo diferente. É que, lamenta, “a saúde descomanda”.

Fecha os olhos por alguns segundos, na tentativa de resgatar memórias da mocidade que lhe permitam lembrar como chegou a esta arte.  Contudo, confessa não saber ao certo como tal aconteceu. Mas recorda ter tido desde sempre muita curiosidade em mexer e desmontar coisas. Fez o ensino primário, escolaridade habitual à época, e pensou que o futuro se traçaria na mecânica automóvel. “Por portas e travessas, vim parar à relojoaria. E acabei por gostar disto”, conta. 

Foto: Inês Leote

O gosto e a dedicação pelo ofício cresceram de tal forma, que Filipe começou a trabalhar quase de sol a sol. “Cheguei a trabalhar noites inteiras. A cama era ali, onde a mulher dormia, e eu tinha uma bancada de trabalho no quarto. A minha mulher dormia e eu trabalhava. Porque a vida também não estava fácil na altura”, recorda.

Além das noites, todos os dias eram para si uma oportunidade para colocar os arranjos em ordem.

“Talvez muito pouca gente fizesse aquilo que eu fiz. Eu trabalhava dias santos e feriados. Tinha um gosto especial de trabalhar no dia 1 de cada ano. Domingos, normalmente, era sempre de manhã”, conta. “Com o trabalho não brincava. Para mim, esteve sempre à frente de tudo. Exceto da saúde.”

Filipe é, talvez, um dos últimos relojoeiros em Portugal a arranjar relógios mecânicos de parede e de corda antigos, para os quais poucas ou nenhumas peças restam para consertos. “Há coisas que hoje já não sei se haverá alguém a fazer. A relojoaria tem coisas muito complexas. Infelizmente, este é um percurso de trabalho que está a acabar”, lamenta.

Com os olhos atentos, e dos quais, apesar da idade, diz não se poder queixar, viu a profissão transformar-se, perder quem a ela se dedicasse e que a soubesse. E, numa vida dedicada ao trabalho, é só esse o arrependimento que persiste.

“Tenho pena de não passar os meus ensinamentos. Quando estava nos Douradores, um rapaz pediu-me que lhe ensinasse o ofício. Dei-lhe um despertador e disse-lhe para o arranjar, depois de lhe explicar algumas coisas. Sabe o que ele me disse? «Ah, afinal, isto é muito mais fácil do que dizem». Eu não lhe disse nada. No dia seguinte, dei-lhe outro despertador. Já tive de ser eu a arranjá-lo. É preciso ser-se humilde”, reitera. “Há algum tempo ainda falei com outro rapaz, para lhe ensinar a relojoaria. Ia ensiná-lo, mas ele queria que eu lhe pagasse, e não podia”, conta, sem esconder a tristeza. 

Como se constrói a mestria dos relojoeiros

Na fileira de relógios que se estende pela parede branca, interrompe-a apenas a figura de Santo António que ali está, todos os dias, a olhar por ele e pelo ofício. 

Tinha apenas 14 anos quando foi para aprendiz de relojoeiro. Primeiro com José César Cardoso e depois, já com 16, aprendeu na Grande Ourivesaria da Moda, da família Rodrigues Colaço, onde ficou a trabalhar durante largos anos. No início “passava horas à noite em casa, quando já tinha umas noções, a desmanchar relógios meus e a montá-los, para ganhar prática de manutenção daquilo. É que para a gente ganhar prática, os dedos têm que mexer.”, explica.

Ao longo de mais de sete décadas, o único período em que não trabalhou com relógios foram aqueles dois longos anos em que foi enviado para a guerra em Angola, no ano de 1961. Quando regressou, a mestria que deixara para trás esperava-o, e nunca mais lhe faltou trabalho. “Eles [patrões] faleceram e eu continuei a trabalhar para a Grande Ourivesaria da Moda. Nessa altura havia muito mais gente a trabalhar e tínhamos muito, muito trabalho”, recorda.

Até então, havia apenas relógios mecânicos e eram esses que Filipe se habituara a arranjar. Com o aparecimento dos relógios de quartzo, ao invés de baixar os braços, optou por procurar aprender mais, o que o levou a realizar vários cursos de relojoaria na Casa Pia, que na altura oferecia formação na área.

Hoje, sabe mexer-lhes de igual forma, mas admite preferir os antigos. “A relojoaria de quartzo tem uma particularidade. Avaria-se, deita-se fora e entra uma máquina nova. Não quer dizer que não se faça reparação, mas o tempo que se perde, às vezes, não justifica”, explica.

Foto: Inês Leote

Da Grande Ourivesaria da Moda, Filipe levou os anos de experiência e os clientes, que tanto confiavam no seu trabalho. Seguiu para a Rua dos Douradores, para a famosa morada 222, que alojava o mais antigo centro comercial de Lisboa. O 2.º andar, dividido em várias salas, partilhava-o com profissionais de outros ofícios. 

“Havia um enfermeiro calista, que tirava calos. Logo pegado a ele, um cavalheiro que emprestava dinheiro. Ao meu lado esquerdo, estava o senhor António Vigário, que negociava em ouro. O senhor Braga tinha um armazém de pratas e, em frente, estava o senhor Estevão Lucena, contabilista. Havia também uma fábrica de luvas. Também o Eduardo, negociante de artigos de sapataria, e o Simões, construtor civil. Isto tudo num só andar”, recorda, esperando a memória não lhe falhar.

Um dia, o dono do prédio disse a Filipe e a todos os que ali trabalhavam que tinham de sair. “Passámos para o prédio da rua dos Fanqueiros, que também era dele. Lá, estivemos alguns anos, até que nos encostaram a faca ao peito e disseram «agora vão-se embora”, conta. 

“E depois vim para aqui. Quem arranjou este sítio foi o Estevão Lucena”, diz, enquanto mostra a sala onde trabalha há cerca de quatro anos, na Rua da Palmira, número 31, nos Anjos. O apartamento, com várias divisões, partilha-o não só com outros artistas, mas também com o caricato pombo amestrado que se passeia pelos corredores, e que recebe simpaticamente quem pela porta rompe.

Um trabalho solitário

Ao contrário do que seria de esperar, nesta pequena oficina, a sinfonia que se faz ouvir não é a do tiquetaquear dos ponteiros dos relógios, nem do badalar das horas certas. É, antes, a obra do compositor italiano Pergolesi que enche a sala, vinda de um pequeno e precioso rádio.

“Estou sempre acompanhado de música. Especialmente música clássica. Não gosto de pimba”, diz, rindo.

Mas nem sempre foi assim. O relojoeiro recorda um episódio que o marcou quando trabalhava para a família Rodrigues Colaço, para mostrar a mentalidade de outros tempos. “Um dia perguntei ao patrão se podia levar um rádio. Ele disse-me ‘O senhor vem para aqui para trabalhar, não vem para ouvir música’”, lembra, reproduzindo o tom austero que ainda hoje não compreende.

Ouvir música talvez seja uma forma que Filipe encontrou para colmatar a solidão do ofício. Apesar de já ter trabalhado lado a lado com vários relojoeiros, admite que esta é uma profissão que se quer solitária. “Este trabalho não pode ter companhia. Há sempre a tendência de falar. Se a gente está a fazer uma coisa e a ideia foge, o acidente está feito”, diz.

Além da concentração, regeu-se sempre por um outro princípio: a humildade. “Nunca ninguém pense, neste ofício, e seja no que for, que sabe tudo. Não sabe de nada. Já pedi muita ajuda a outros colegas. Não sabia tudo, nem sei nada”, refere.

Foto: Inês Leote

O que antes era o seu trabalho puro e duro, Filipe vê agora como hobby e a relojoaria entranhou-se de tal forma na sua vida, que não tenciona deixá-la por nada. 

Está oficialmente reformado há 20 anos e os amigos dizem-lhe que já tem idade para descansar, mas ele discorda. “A idade a mim não me diz nada. Ir para o jardim jogar cartas não é da minha maneira de ser. Ficar em casa a ver televisão ou a fazer crochet, muito menos. Se for para isso, levem-me logo embora…”, diz.

Enquanto a saúde permitir, não tenciona arredar pé. “Entretenho-me aqui. E cá estou, até quando Deus quiser.”

*Este texto foi editado por Catarina Reis


Rita Varela

De terras alentejanas rumou a Lisboa, há cinco anos, com o sonho de viver a cidade. Licenciou-se em Ciência Política e Relações Internacionais, mas foi no currículo de Jornalismo que se encontrou. Hoje, com 23 anos, é pela arte de contar histórias que se apaixona todos os dias. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.

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