Dois amigos em pontos diferentes da cidade, João Francisco Vilhena e João Paulo Cotrim, e uma pandemia de covid-19 que os confinou durante 80 dias nas suas casas: assim nasceu o “Diário das nuvens”, uma exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes que documenta esses dias do ano 2020 em que os dois homónimos comunicavam sobre a única paisagem comum que tinham – as nuvens no céu de Lisboa.
Ambos partilhavam o gosto por nuvens e moradas no último andar, por isso, as nuvens passaram a ser como “sinais de fumo” entre os dois. “Eu comecei a fotografar nuvens e provocava o João com uma nuvem à qual ele me respondia com um texto.”, conta João Francisco Vilhena, artista visual e fotojornalista. Tudo começou num ato de recuperar “o tempo que a escrita antes tinha”, 15 dias ainda antes de o confinamento ser decretado em Portugal.

João Francisco Vilhena morava em Campo de Ourique e trocava inicialmente correspondência com o amigo João Paulo Cotrim, jornalista e escritor com escritório no Largo de Camões, Chiado. Por vezes, para espanto dos dois, uma carta demorava uma semana a percorrer a distância entre as freguesias lisboetas.
Depois, as fotografias passaram a ser tiradas e enviadas pelo telemóvel. Os textos não respondiam a nenhum critério específico. Eram, como João Francisco Vilhena os apelida, “passeios pela vida”, que passavam pelos “vários temas da humanidade: morte e vida, ódio e amor”.
Num “despique agradável”, sem hora combinada, por vezes João Paulo Cotrim antecipava-se e enviava um texto ainda antes de receber uma fotografia. Quando isso acontecia, o destinatário “ficava quase o dia inteiro à espera da melhor nuvem para responder”. Talvez por isso João Francisco Vilhena considere a observação das nuvens “um exercício de grande paciência.”
“Suspenderam-se os encontros e os abraços congelaram no ar. Era o confinamento.”
(João Paulo Cotrim, Diário das Nuvens)


Os caçadores de nuvens
A ideia estendeu-se a outros, que, através das redes sociais, se iam juntando a João Paulo e a João Francisco na “captura” das nuvens. “Tínhamos pessoas conhecidas e desconhecidas de várias partes do país a enviar fotografias de nuvens”, recorda o fotojornalista.
Estava criado um movimento de caçadores de nuvens.
A partilha do projeto durante a pandemia permitiu que este chegasse às mãos de profissionais de saúde, que “trabalhavam a ritmos obsessivos para ajudar a população”. Respondendo ao apelo de médicos e enfermeiros, João Francisco Vilhena e João Paulo Cotrim criaram vídeos, nos quais se podiam ver as nuvens e ouvir os poemas.
Esses vídeos eram transmitidos nas salas de descanso dos hospitais e estão agora na exposição Diário das Nuvens, na Sociedade Nacional de Belas-Artes (SNBA) até 29 de março, data em que se celebra o Dia Internacional das Nuvens.
João Francisco Vilhena recorda a pandemia de covid-19 como um tempo de “angústia”, em que se tiveram de separar famílias e em que se perderam amigos, como aconteceu com o seu “parceiro” e correspondente João Paulo Cotrim, que morreu a 26 de dezembro de 2021.
Os dois tinham ainda algumas ideias por concretizar, como um Festival das Nuvens.
Esta exposição, idealizada em conjunto, encerra um ciclo. No livro “Diário das Nuvens”, publicado pela editora independente Abysmo, fundada por João Paulo Cotrim, ficam eternizadas as conversas que tiveram, mediadas pelas nuvens.

“Como um banco de jardim”
Passados cinco anos, o Diário das Nuvens não é apenas a memória de “um espaço de tranquilidade no meio da angústia existencial que estávamos a viver”, é também uma proposta: “hoje em dia temos pouco tempo para meramente olhar para uma paisagem, para o mar ou para uma nuvem a passar”, diz João Francisco Vilhena.
Na galeria de arte moderna da SNBA, a sala mais alta (mais próxima das nuvens), está um banco voltado para uma projeção de vídeos gravados por João Francisco Vilhena. “Como se fosse um banco de jardim, o convite é sentarem-se, escolherem um poema e verem as nuvens.”
Foi também nesta sala que se reuniram amigos, em torno da música, da poesia e da fotografia, para assinalar o dia 13 de março, data que João Paulo Cotrim faria (e, para muitos, ainda faz) 60 anos. Em homenagem, houve leitura de poemas de André Gago, Carlos Querido, Inês Fonseca Santos, Nuno Miguel Guedes e Pedro Saavedra, com a atuação de Pedro Oliveira.

Findada uma pandemia, outras situações políticas e sociais a sucederam, mas a mensagem que João Francisco Vilhena deixa é a mesma: “isto vai passar e as nuvens vão estar aqui a olhar para nós como sempre estiveram desde o início do mundo”.
*Este texto foi editado por Catarina Reis

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