Na Rua das Janelas Verdes, as portas de tinta estalada escondem uma entrada discreta para o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Desde 1884, milhares de visitantes passam anualmente por este acesso em direção ao jardim ou às exposições temporárias. Poucos, no entanto, imaginam que por trás de uma parede branca, aparentemente banal, decorre agora um trabalho meticuloso e inédito: a conservação e restauro de um painel em relevo, uma peça única da escultura e pintura portuguesas do século XVI, há anos fechado ao público.
Teresa Gabriel, membro do Grupo dos Amigos do MNAA, não é uma dessas visitantes desavisadas. Naquela manhã de quinta-feira, aproveitava para saudar as conservadoras-restauradoras que, desde setembro de 2023, dedicam-se ao restauro d’”O Milagre de Santa Clara”. “Olá, São”, diz, espreitando sem subir as escadas do exíguo espaço de trabalho, sustentado por um andaime. No interior, duas mulheres trabalham desde bem cedo.
Ao notar a presença da repórter, Teresa entusiasma-se: “Isto merece bem uma reportagem!”. E, com receio de atrapalhar, despede-se rapidamente.
“São” é Conceição Ribeiro, conservadora-restauradora de 55 anos e coordenadora do projeto que visa devolver ao público esta obra de autor desconhecido. A peça chegou ao MNAA em 1911, vinda do Convento da Boa Esperança, encerrado após a morte da última abadessa. “Os relevos vieram para cá quando o museu se tornou Museu. Fazem parte da sua história”, explica Conceição. E diz “relevos” porque este restauro sucede ao do painel-irmão, “Lamentação sobre Cristo Morto”, concluído e inaugurado em abril do ano passado.
Com mais de 40 mil peças no espólio, o museu viu-se obrigado a reorganizar os espaços expositivos. Durante anos, os dois painéis foram entaipados e substituídos por cartazes das exposições temporárias. Mas isso terminou graças ao apoio mecenático do Millennium BCP, que garantiu os recursos necessários para o projeto. “Sem esse apoio, teria sido muito difícil, principalmente contratar pessoas”, admite Conceição. Entre as contratadas está Alexandra Carvalho, recém-mestre em conservação e restauro, que considera esta experiência uma oportunidade preciosa.
“O projeto é excecional”, confessa.
A história por trás dele? Reza a lenda que, no ano de 1240, o exército de Frederico II invade Assis e, para proteger a cidade e as suas freiras, Santa Clara ergue a custódia, simbolizando o Corpo de Cristo. O impacto é tal que os soldados recuam, alguns caem mortos, outros fogem em desespero. Este é “O Milagre de Santa Clara”.
Como se restaura uma obra única? “É quase uma farmacopeia”
Uma das razões que tornam este painel único é a sua dimensão — 3,54 por 2,60 metros. Mas, apesar da sua imponência, cada detalhe é tratado com minúcia, como se de uma caixinha de música se tratasse.
Os materiais usados são variados: solventes orgânicos para solubilizar camadas de tinta, misturas e emulsões adaptadas a cada necessidade. “É quase uma farmacopeia, mas aplicada à limpeza das obras”, explica Conceição. No estaleiro de trabalho, multiplicam-se frascos etiquetados, pincéis, bisturis e cotonetes. Estes últimos são indispensáveis: “São a extensão dos nossos dedos”.
Entre pinceladas e solventes, a música acompanha quase sempre o trabalho. “Quem trabalha em restauro costuma gostar muito de música, porque passa muito tempo disponível auditivamente”, comenta Conceição. A sua preferência é pela música erudita, mas há espaço para outros géneros. “Ainda ontem ouvimos o quê?”, pergunta. “Da Weasel”, responde Alexandra.
Conceição está concentrada na limpeza do rosto das clarissas, as freiras franciscanas retratadas no canto direito do painel. Mais acima, Alexandra, empoleirada num escadote e bisturi em punho, trabalha sobre as cortinas seguradas por anjos, que emolduram a cena religiosa como se fosse um palco teatral.
A prioridade é estabilizar a obra, impedindo a sua degradação, e apenas depois recuperar os valores originais. “Quando não é possível ir até ao original, porque há uma história que importa manter, paramos onde faz sentido parar.” Afinal, a historiografia da peça deve ser preservada, não apagada.
Mas por vezes torna-se difícil, perante este cenário, decifrar se estamos num museu ou numa clínica. Métodos da medicina, como raio-x e infravermelhos, são usados para identificar camadas de repintes e intervenções anteriores. Por isso, o Laboratório José de Figueiredo e o Laboratório Hércules, da Universidade de Évora, são parceiros fundamentais nesse trabalho de investigação.
Nesse caminho, é preciso identificar as diferentes camadas do relevo, que incluem repintes e repolicromias, por norma introduzidas para disfarçar sujidades e suprir lacunas no estuque. São estas sucessivas intervenções, além da passagem do tempo, que acabam por adulterar e deformar a obra original.
A arte de apagar a censura
Desfazer restauros prévios traz surpresas.
Uma das mais emocionantes, contam, foi a descoberta de um padrão de arabescos em tons de verde-azulado nas cortinas, antes uma grande mancha carmim. “No início, não fazíamos ideia do que estava por baixo”, conta Alexandra, entusiasmada.
Outra revelação foi o céu do painel: antes azul, agora recuperou o seu tom amarelado original, pontuado por pequenas aves em voo. O azul artificial servia para ocultar fendas e fissuras resultantes da secagem do material — um erro de interpretação do passado.
Também durante anos pensou-se que o painel era terracota, mas afinal é composto por dois tipos de argamassa, à base de areia e cal.
Quem outrora nele atentasse, veria dois anjos seminus, cuja zona genital se encontrava coberta por um véu. Há alguns meses, porém, Conceição e Alexandra perceberam que nem sempre foi assim. “Sabemos agora que, a dada altura, por questões iconográficas e de pudor, as zonas genitais foram tapadas com uma coroa de flores. O local onde os painéis estavam originalmente expostos pode ajudar a explicar esta transformação. “Segundo sabemos, os relevos estariam na sala do capítulo [do Convento]”, um compartimento acessível apenas às clarissas, estando por isso em causa o pudor das próprias freiras.
O restauro d’”O Milagre de Santa Clara” não é apenas uma recuperação física. É um reencontro com a história.
O mistério da origem do painel
Não é possível, pelo menos para já, determinar com certeza quem esteve por detrás da criação dos painéis.
De facto, a documentação sobre a arte portuguesa do século XVI tende a ser escassa, não só, mas também, por consequência do terramoto de 1755. O que se pode, sem dúvida afirmar, é que estes relevos representam “uma grande capacidade de encomenda numa época em que Lisboa era central no mundo”, sublinha Conceição.
A tese que colhe mais crédito aponta para Joana D’Eça, camareira-mor da Rainha D. Catarina de Habsburgo, como responsável pela encomenda dos painéis que seriam originalmente três, e não dois. Desconhece-se o destino deste terceiro painel. “Possivelmente desapareceu mesmo. Ter-se-á desmoronado. É um enigma”.
O ano exato do nascimento da obra também. “Durante o processo de restauro podem encontrar-se datas, mas não foi o caso”. Aquilo que existe é “uma referência a uma data – 1560 – que nós nunca vimos” e que constaria da parte posterior do primeiro painel. De facto, os dois painéis possuem uma caixa de ar, situada entre a parede e a obra, que lhes terá permitido uma conservação otimizada. “É muito interessante”, afirma Conceição. “Provavelmente no convento estariam exatamente assim e quando os trouxeram para o museu reproduziram a forma como [lá] estavam aplicados”.
Certo é que nem todas as surpresas são igualmente fáceis de gerir. “Temos vindo a descobrir que este painel está em pior estado de conservação. Enquanto no outro tudo foi uma surpresa agradável, neste estamos a ficar seriamente preocupadas”. Conceição refere-se essencialmente à parte inferior do relevo que estaria mais acessível ao público e se terá, por esse motivo, degradado. Como em qualquer outro empreendimento, também aqui há prazos a cumprir. “Nós temos uma data para terminar que é fevereiro, final de fevereiro”.
Dentro de poucas semanas, as mãos diligentes destas duas mulheres terão operado o seu “pequeno milagre” para que todos possamos contemplar aquele outro que, com trabalho árduo, nos pretendem devolver: “O Milagre de Santa Clara”.
Inês Renda é aluna do Mestrado em Jornalismo na NOVA-FCSH.
Este texto foi editado por Catarina Reis

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Muito interessante! A conferir numa próxima visita a Lisboa.