

“Não sabia que havia tantas crianças no bairro.” Num fim de semana habitual, a família de Karlla Ribeiro, mãe da Mia de três anos, teria ido para a Alameda. Uma caminhada de 20 minutos, desde a Rua do Forno do Tijolo, em Arroios, onde moram. É o espaço verde mais próximo, onde a pequena Mia pode gastar as energias, na falta de parques infantis e com os pátios das escolas encerrados. Para lá chegarem, têm de passar a enchente de carros, estacionados ou de passagem, que há na sua rua. Mas o passado fim de semana foi diferente: através de um grupo de pais no Whatsapp, criado no Halloween, Karlla soube que a rua onde moram estava livre de carros.
Ao longo das últimas semanas, a Rua Forno do Tijolo, paralela à Avenida Almirante Reis, foi fechando, troço a troço, para obras: estão a substituir a calçada por alcatrão. E o trânsito habitual da rua, que todos vão apelidando de caótico, desapareceu.
O que aconteceu depois disso foi… inédito: no fim de semana que passou, a estrada recentemente pavimentada encheu-se de crianças de bicicleta, trotinetes, skates ou patins, foi ali desenhado até o jogo da macaca, as esplanadas dos cafés estenderam-se até ao alcatrão e os vizinhos até montaram piqueniques na rua, mostrando o que pode ser a Rua do Forno do Tijolo… sem carros.


Uma festa de verão em fevereiro
Na manhã de domingo, Mia fez uma amiga nova no bairro, enquanto andava de bicicleta, esvoaçando pelo bairro com umas asas de borboleta cor de rosa.
Pouco depois, perto das 15 horas, um grupo de cinco jovens trouxe uma mesa, cadeiras e comida para um almoço tardio. Ficaram no meio da rua, mesmo em frente ao número 19. E, de repente, numa mesa para cinco estavam já 16. As pessoas iam passando e juntando-se. Trouxeram mais mesas, mais cadeiras e mais petiscos para o que se tornou um almoço de vizinhos.
A certa altura, houve quem puxasse uma coluna e a rua virou um cenário de festa de verão… em fevereiro. Foi como se os Santos Populares tivessem arrancado mais cedo este ano.


Quando Kim Schädlich, também moradora do bairro, percebeu que a rua estava vazia, não hesitou em ocupá-la para lazer. Oportunidades como esta, numa cidade onde entram diariamente mais de 400 mil carros, são escassas. “Gostamos de ocupar espaço público”, disse. Uma forma de protesto natural e positivo.
Agora, o assunto está a tornar-se mais sério: entre os pais, fala-se na ideia de lançar uma petição para manter a estrada fechada. Querem as ruas para as crianças, pelo menos ao fim de semana.
A brincadeira anda a ocupar o alcatrão
Junto ao Panteão Nacional, o projeto Brincapé já tinha conseguido uma iniciativa parecida, mas pensada e planeada: em 2021, todas as sextas-feiras uma rua fechava durante duas horas, propositadamente para as crianças brincarem. A ideia foi replicada várias vezes por outras ruas da cidade.
“A definição que eu acho mais bonita sobre educar não é retirada dos livros de psicologia, é do Almada Negreiros, e diz que ‘educar é ajudar alguém a tomar conta de si próprio’. E o brincar na rua é uma ferramenta de promoção disto mesmo. O que eu quero é que os meus alunos ou filhos sejam autónomos e hoje são muito pouco autónomos. Desde que são pequenos que tomamos decisões por ele e depois queremos que eles sejam autónomos. Ao brincar na rua, aprendemos a controlar os riscos.” José Morgado, especialista em pedagogia e psicologia infantil, já tinha falado sobre este tema numa entrevista à Mensagem em 2021.
recorde aqui esta história:
Em vez de automóveis, carros de rolamentos: ruas de Lisboa fechadas ao trânsito e devolvidas às crianças
Também Frederico Lopes, investigador sobre o planeamento de cidades para crianças, diz sem receios que Lisboa não é uma cidade amiga das crianças. E há um inimigo urbano que teima em não desaparecer, diz: “Considerando as transformações que foram sendo sentidas na sociedade e na forma de organização do trabalho, da família, do lazer e da recriação, especialmente nas cidades, foi o surgir de uma outra variável: o incremento do tráfego automóvel. As cidades crescerem em função disso”.
É precisamente o carro que é “apontado nos inquéritos, nos questionários, nos estudos, como obstáculo principal para que os pais se sintam seguros, para permitir que as crianças possam deslocar-se com autonomia e usufruir do espaço público”, remata.
leia a entrevista aqui
“Lisboa não é uma cidade amiga das crianças”: carros em excesso são o principal obstáculo
Mas e se as escolas fizessem parte da solução?
Manuel Banza, um cientista de dados entusiasta da cidade, apresentou recentemente uma proposta que sugere abrir as escolas de zonas como Arroios aos fins de semanas, feriados e até depois das aulas, para colmatar a falta de espaços de lazer. Já pensou em ver concertos nos auditórios ou sentar-se à sombra de uma árvore enquanto as crianças brincam no recreio?
Na proposta, aponta seis potenciais escolas para um projeto-piloto, tendo em comum serem todas em Arroios, que o autor desta investigação diz ser um bom caso de estudo, dada a “densidade populacional” e “a escassez de infraestruturas comunitárias, culturais e desportivas”.
conheça melhor esta proposta aqui
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Comércio na rua? Arroios dividida
Foi um fim de semana de festa naquela rua. Agora, os moradores esperam poder repetir o plano mais vezes. Mas em Arroios tem sido difícil chegar a um consenso sobre a utilização do espaço público. Não é a primeira vez, aliás, que se fala do “abuso” do carro nesta freguesia e mesmo nesta rua: a Forno do Tijolo já foi por várias vezes alvo de críticas por ter esplanadas em lugares de estacionamento.
Tudo começou em 2020: para aliviar os efeitos da pandemia nos negócios, surgiram as esplanadas-covid. Eram gratuitas, não pagavam licenças. Foi um projeto piloto da Câmara Municipal de Lisboa e das Juntas de Freguesia que aderissem. Ao todo, a cidade ganhou 365 esplanadas em lugares de estacionamento.
Cerca de um ano depois, os comerciantes foram confrontados com dois cenários: as Juntas de Freguesia que decidiram passar estas esplanadas de projeto piloto a projeto definitivo; e as que quiseram retirar as esplanadas, alegando o título temporário das licenças, como aconteceu em Arroios. Mas um grupo de comerciantes desta freguesia resistiu e reclamou sobre esta medida, que ainda hoje dizem ser “sem critério nem fundamento”, depois de lhes ter sido prometida uma avaliação caso a caso que, segundo dizem, não aconteceu.
Este movimento, que entretanto também juntou moradores, deixou o auditório do Ginásio Clube inundado de gente em junho do ano passado, para uma reunião com a Junta de Freguesia. Nessa altura, os comerciantes destes estabelecimentos assumiram avançar com uma providência cautelar contra a Junta. Há duas semanas, os comerciantes terão recebido novamente cartas para a remoção das esplanadas.
A pastelaria Lully 1661, na rua do Forno do Tijolo, por exemplo, cumpriu a vontade antiga deste comércio local e, aproveitando o fecho do trânsito, instalou uma esplanada amarela no alcatrão. Como a pequena Mia e os seus vizinhos, mostraram o que pode ser uma rua de Lisboa quando é retirado protagonismo aos carros.

Esta história foi sugerida por Tiago Perreira, leitor da Mensagem de Lisboa

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