Poderá ser difícil encontrar outro restaurante chinês como o da Sofia em Lisboa. Sofia usa um nome português para si própria (e não revela o chinês), mas nem sequer tem um nome português para o seu restaurante em Chelas, aberto em novembro de 2022. O nome “夜宵研究所” significa “instituto de petiscos noturnos”. É o estilo chinês clássico – na China, os donos de restaurantes gostam de usar nomes que misturam comida e outros fatores para torná-los mais interessantes e atraentes, o que raramente acontece em Portugal.

Quando outros restaurantes chineses tentam atrair clientes locais e internacionais, Sofia só serve os pratos chineses mais autênticos e os seus principais clientes são chineses. Ela não publica nenhum anúncio sobre o seu restaurante na internet, pois acredita que, se a comida tiver um bom sabor, os clientes serão atraídos naturalmente.

Aberto das 18h às 2h da manhã, fazendo juz ao nome, em Chelas, o restaurante da Sofia não é fácil de encontrar, pois esconde-se entre vários prédios de apartamentos na Rua Engenheiro Ferreira Dias, número 1. Além disso, está em Chelas, um bairro não muito famoso para muitos turistas. Normalmente, os chineses tendem a abrir os seus restaurantes no Martim Moniz e arredores. Sofia também abriu um restaurante de noodles no Martim Moniz – ao lado do supermercado Hua Ta Li – mas é surpreendente que tenha abdicado dele para iniciar um novo negócio em Chelas.

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O restaurante numa rua normal. Foto: Rita Ansone

Ao falar sobre isso, Sofia demonstra a sua perspicácia como empresária: “O preço do aluguer é mais barato aqui. E há muitos estudantes, trabalhadores e empresários chineses, também um grande armazém localizado aqui, muitos chineses vêm comprar coisas”.

Chelas tornou-se o seu mundo inteiro. Ela vive no seu apartamento em Chelas, conversa com o senhorio e vizinhos, cuida dos assuntos do restaurante e termina o dia a cozinhar. Raramente sai de Chelas e, mesmo tendo vindo para Lisboa em 2017, conhece pouco sobre outras áreas como a Baixa Chiado e Alfama. Em Lisboa, a Sofia constrói um pequeno mundo cheio de sabores chineses.

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Sofia ao comando da cozinha. Foto: Rita Ansone

Um Restaurante Chinês Autêntico

Apenas com fotos do restaurante da Sofia, as pessoas podem ter dificuldade em reconhecer que este restaurante está localizado em Portugal. É um restaurante chinês totalmente autêntico – desde a aparência aos pratos e à atmosfera.

No menu: sopa de sapo, a especialidade de robalo em caldo picante, espetadinhas de línguas de pato ou coração de frango, salsicha gorda, sapo de panela seca, caranguejo vadio ou sangue peludo.

O restaurante foi projetado e decorado com o estilo chinês, com neons e cheio de grandes mesas redondas que rodam e que os chineses preferem. Na China, o círculo simboliza uma família ou um grupo de amigos reunidos. Assim, as pessoas gostam de comer numa mesa redonda com a família e amigos.

O uso de mesas redondas corresponde ao slogan na parede – “Amigos de todo o lado vêm e reúnem-se, há comida deliciosa para vocês”.

Uma variante de um verso chinês “落地为兄弟,何必骨肉亲” (nascidos para serem irmãos, sem necessidade de laços de sangue), defendendo a amizade que transcende os laços de sangue.

Não há melhor lugar para isso do que quando as pessoas estão fora da sua pátria e vivem num novo país. Esta ideia torna-se muito importante, o que fornece aos chineses uma teoria para formar uma nova família fora. Em Lisboa, Sofia usa petiscos noturnos para conectar os chineses.

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Mesas redondas para clientes chineses. Foto: Rita Ansone

Na parede uma televisão pendurada exibe o CCTV News. Há duas salas separadas para clientes que as reservam para eventos, o que é comum em grandes restaurantes chineses.

Quem tiver conhecimento sobre culinária chinesa perceberá que o restaurante da Sofia abrange pratos de muitas regiões da China. Ela trata a comida meticulosamente. Mesmo sendo a dona do seu restaurante, ainda cozinha todos os pratos, porque só assim pode dominar o sabor de cada prato. “Há alguns clientes estrangeiros; alguns vão adorar o meu restaurante e voltar novamente, mas alguns não se conseguem habituar a este sabor. Não posso fazer nada quanto a isso”, ri.

De Zhejiang para Lisboa

A vida da Sofia é cheia de coincidências e desafios. Nascida na província de Zhejiang, no sul da China, Sofia tornou-se parte da vaga de emigração chinesa no século passado, após a política Reforma e Abertura, iniciada por Deng Xiaoping em 1978. Estas reformas marcaram uma mudança significativa na China, acabando com a economia planificada centralmente e aproximando-se da economia de mercado.

Muitos chineses, sobretudo das regiões do sul, partiram para a Europa e a América em busca de uma vida melhor. Para Portugal vieram muitos de Zhejiang. Sofia chegou à Península Ibérica em 1998 e lutou pela vida em Espanha e Portugal com diferentes trabalhos. Depois, voltou para a China durante alguns anos. Em 2017, voltou novamente para Portugal e começou a trabalhar na área da culinária.

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Rita Ansone

A jornada culinária da Sofia começou como um simples hobby. Após o nascimento da sua filha, inspirou-se para fazer refeições deliciosas para a sua família. O seu amor pela cozinha cresceu e ela começou a explorar receitas online. Pesquisava no Google, YouTube e TikTok em busca de ideias, muitas vezes adaptando ingredientes para criar as suas próprias versões únicas. Com o tempo, cozinhar tornou-se a sua verdadeira habilidade e as receitas online já não a satisfaziam, então começou a visitar cozinheiros experientes para aprender técnicas mais sérias e alguns pratos únicos.

Na terra natal da Sofia, província de Zhejiang, o sabor é principalmente leve e fresco. No entanto, no seu restaurante, existem muitos pratos com sabor forte e picante.

“Cozinho pratos de diferentes áreas e aprendi com muitos chefs diferentes”, diz Sofia orgulhosamente. A vida e experiência de aprendizagem dotaram a Sofia com vários estilos de cozinha. A partir de 2017, juntou-se ao restaurante do seu irmão na Alameda, em Lisboa. Saiu para abrir um restaurante de noodles no Martim Moniz, onde cozinhava sopa wonton com sabor de Fujian e noodles picantes com sabor de Sichuan. Foi a Chongqing aprender peixe grelhado – um prato especial e notável desta cidade.

“No futuro, claro que tenho planos de voltar à China para aprender mais pratos para enriquecer o menu”.

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Rita Ansone

Porquê Chelas?

Para cozinhar comida chinesa autêntica, Sofia diz que desistiu de muita coisa e superou muitos problemas. Por exemplo, ela precisa de cozinhar todos os pratos, o que causa insatisfação entre alguns clientes que pedem rapidez no serviço. Sofia vai para o seu restaurante cedo todos os dias e começa a preparar tudo o que é necessário para o seu restaurante – leva duas horas para preparar a base da sopa para peixe grelhado, a especialidade do seu restaurante, depois também cozinha para a sua equipa.

Também revela alguns conflitos com a lei de segurança almentar portuguesa, pois alguns ingredientes precisam de ser congelados, e em Portugal esses ingredientes não podem ser congelados para serem armazenados. “Conflitos culturais”, diz.

A recompensa é o amor que os clientes têm aos seus pratos que lhes despertam a saudade: alguns até dizem que os seus pratos são mais autênticos do que os da China.

E o futuro? “Só quero continuar a gerir o meu restaurante. A vida é tão instável, às vezes para cima, às vezes para baixo, então quem sabe o que acontecerá no futuro?” Sofia caminha para uma vida estável – a sua filha já cresceu, vive com ela e ajuda-a em certa medida – chegando a sugerir que ela publicasse alguns anúncios no Instagram – e ela mantém um bom relacionamento com as pessoas ao seu redor, o seu senhorio, vizinhos, amigos e clientes.

*Texto editado por Catarina Carvalho

Silong Zhao

Nascido e criado na China, sou estudante de línguas, cultura e ciências sociais. O desejo de experimentar um novo estilo de vida e de conhecer um mundo maior me trouxe a Lisboa. Após um ano de estadia, agora procuro descobrir mais coisas interessantes e incomuns sobre esta cidade – daí estar a estagiar na Mensagem de Lisboa. More by Silong Zhao

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3 Comments

  1. Não é referida morada do restaurante, nem outra forma de o localizar… Chelas é muito vago…

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