Manuela Nogueira Sobrinha Fernando Pessoa
Manuela Nogueira na porta da casa que ostenta a informação de que lá também vivera Fernando Pessoa, poeta e tio de Manuela. Foto: Rita Ansone

Esta é mais uma história de como a paixão por Fernando Pessoa tem encurtado a distância entre leitores em língua portuguesa de todo o mundo. Desta vez, com uma mãozinha da Mensagem e a participação mais do que especial de uma parente direta do poeta, a também poeta Manuela Nogueira, que no último 16 de novembro completou 99 anos. 

Uma história que uniu duas brasileiras, uma em Portugal e outra no Brasil, ambas amigas da poeta Manuela Nogueira, no desassossego de encontrar uma editora portuguesa para uma biografia sobre a vida e a obra da última parente direta de Pessoa, que na infância conviveu e morou com o poeta na casa em Campo de Ourique.

Uma improvável amizade urdida pelas linhas de uma história publicada na Mensagem e que é contada pela Mensagem na semana em que é lembrada a morte do mais conhecido poeta português, em 30 de novembro.

Fernando Pessoa num momento de dor

A história começa a 6.504 quilómetros da Lisboa de Pessoa, em Salvador, capital da Bahia, onde vive Maria da Conceição, desde 2018 responsável pelo Grupo do Desassossego, uma reunião de estudiosos do poeta português, uma seleta e eclética congregação de pessoanos de áreas diversas, como a literatura, psiquiatria, medicina, dramaturgia e até uma xamanista. 

A própria Conceição completa a lista de ecléticos pessoanos. A baiana de 72 anos e vitalidade de fazer inveja a um adolescente, para além das atividades do Grupo do Desassossego, participa de um coro em Salvador e faz formação em psicanálise na vertente lacaniana, tudo isso conjugado com a profissão de cardiologista part-time

Part-time, hoje, pois concentrei o trabalho à tarde para poder dedicar as manhãs a Fernando Pessoa”, revela Maria da Conceição, que curiosamente apaixonou-se pelo poeta após o fim de um amor.

Manuela Nogueira, ladeada pelas autoras da biografia, Maria da Conceição (D) e Carla Parisi (E). Foto: Arquivo Pessoal.

“Quando o meu segundo casamento acabou, o meu agora ex-marido saiu de casa e deixou um livro em casa que li e, a partir daí, não mais parei. A apresentação a Pessoa foi marcada por um momento de dor”, diz.

Isso foi há duas décadas. Nesse tempo, a cardiologista cujo coração bate por Fernando Pessoa fez verdadeiras loucuras de amor pelo poeta, entre eles, suspender os atendimentos no consultório por alguns dias para vencer os 800 quilómetros entre Salvador e Olinda, no vizinho estado de Pernambuco.

Foi lá que, em 2015, conheceu a segunda paixão literária de sua vida, a sobrinha do poeta, Manuela Nogueira, então convidada de honra de um festival literário cuja edição era dedicada a Pessoa. O esperado encontro não poderia ter acontecido de forma mais sui-generis. “Sem saber, hospedei-me no mesmo hotel dela, tive muita sorte.”

Ao descer do quarto para o pequeno-almoço, Conceição logo identificou uma voz feminina com sotaque português entre os presentes. E não teve dúvidas. “Sem pensar, fui até à mesa dela e me apresentei. Contei quem era e que estava ali apenas para conhecê-la. A Manuela achou tudo aquilo fantástico e convidou-me para sentar. Foi o início de tudo”, conta.

O início, portanto, de uma amizade de quase uma década que culminou com a escrita de Manuela Nogueira – Desassossego sem Fronteira, uma biografia sobre a vida e a obra da poeta, a primeira dedicada a quase centenária sobrinha do mais icónico poeta português. 

Um trabalho feito a quatro mãos entre Maria da Conceição e a também brasileira e pessoana Carla Parisi, que vive no Porto, e ajudou nas pesquisas in loco para o livro.

O registo de mais uma reunião do Grupo do Desassossego, no Brasil. Foto: Arquivo Pessoal.

Financiado pela própria Conceição, a primeira edição contou com 120 exemplares. Foi a cardiologista que também pagou a vinda de Salvador para Lisboa e outros custos inerentes ao lançamento, realizado em novembro de 2023 na Casa Fernando Pessoa, com a presença da amiga e biografada Manuela Nogueira. 

Como era de se esperar, os 120 exemplares voaram e Maria da Conceição organiza agora uma segunda edição brasileira, com olho na possibilidade de uma editora portuguesa interessar-se em produzir uma portuguesa. Uma tarefa que conta com a ajuda de uma outra brasileira apaixonada por Pessoa, e que entrou nessa história graças a uma matéria da Mensagem.

Doida o suficiente por Fernando Pessoa

A outra brasileira em questão é Mariana Portela, uma apaixonada por Fernando Pessoa. Foi atrás desse amor que, em 2008, cruzou os 7945 quilómetros de São Paulo até Lisboa para estudar o poeta português num mestrado em Comunicação e Cultura na Universidade de Lisboa. “Pessoa é o homem da minha vida”, fulmina.

Uma paixão que a fez criar raízes na Lisboa de Pessoa e não mais voltar ao Brasil. Aos 41 anos, a sorridente Mariana Portela é psicóloga e divide a clínica e o trabalho numa empresa de recursos humanos com a poesia – integra o grupo de declamação poética com o sugestivo nome de Doidos Diversos – e, claro, a paixão por Fernando Pessoa.

Principalmente, pelo lado místico – e ainda pouco explorado – do poeta. O que a fez escolher o centenário restaurante Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço, para conversar com a Mensagem. “Era aqui que Pessoa trocava ideias, por entre partidas de xadrez, com Alex Crowley“, lembra Mariana, sobre a relação do português com o famoso ocultista britânico.

Nada sobrenatural foi a forma como Mariana entrou nessa história. Em setembro de 2022, a Mensagem publicou a entrevista com Manuela Nogueira e, alertada por um amigo próximo, a psicóloga vestiu-se de detetive para descobrir como entrar em contato com a sobrinha do poeta. “Esse meu amigo ligou-me e disse-me: lê isso, acho que tu és doida o suficiente“.

Mariana Portela seguiu os rastos da matéria publicada na Mensagem para encontrar-se com Manuela Nogueira. Foto: Rita Ansone.

Mas doida o suficiente para quê, especificamente? Foi essa a pergunta que a própria Manuela fez a si mesma, até ler a matéria e perceber os indícios que a fariam levar até a morada da poeta. E seguindo as pistas ocultas no texto, a psicóloga encheu-se de coragem para, finalmente, realizar o sonho de encontrar a última parente direta viva de sua grande paixão.

“Escrevi uma carta apresentando-me, comprei girassóis, peguei o comboio direto para São João do Estoril”, conta. Embora o texto não indique diretamente a morada de Manuela Nogueira, assim como aconteceu com a baiana Maria da Conceição, Mariana foi bafejada pela sorte. “Quando lá cheguei, encontrei a Manuela na porta de casa. Parecia estar à minha espera.”

Então, Mariana aproximou-se a passos lentos e anunciou: “Trouxe flores”. Curiosa, Manuela quis saber: “Flores de quem?”, para ouvir a resposta da sorridente visita: “Minhas!”. A psicóloga com dotes sherloquianos então entregou os girassóis e a carta, prontamente lida por Manuela.

Resultado: Mariana foi convidada para entrar e, desde então, tem repetido as visitas à casa da sobrinha do poeta. A última delas, a convite para participar de um sarau organizado pela nonagenária. Entre idas e vindas, a psicóloga soube da existência de uma outra amiga brasileira de Manuela Nogueira, justamente… Maria da Conceição.

Certamente, Pessoa e Crowley, entre conspirações e xeque-mates na mesa do Martinho da Arcada, achariam um fio cabalístico neste encontro.

As três amigas pela primeira vez em Lisboa

O certo é que os astros alinharam-se e Mariana começou a ajudar Conceição na caçada por uma editora portuguesa para uma edição local da biografia da amiga de ambas. Através dos contatos nos meios literários, alguns nomes já surgiram, nenhum porém com a garantia de que a vida e obra da poeta e sobrinha do mais famoso poeta português chegue às mãos dos portugueses.

Incansável, Maria da Conceição decidiu não esperar tanto assim para divulgar a vida da amiga e já organiza uma segunda edição da versão brasileira. Novamente, custeada por ela. “Dividi a impressão em dez parcelas”, conta a cardiologista, para quem desassossego, mesmo, é o que considera uma injustiça com a obra da poeta.

Segundo Conceição, muitos especialistas e fãs de Pessoa aproximaram-se de Manuela Nogueira apenas para entrar em contato com um parente direto dele, assim como aconteceu com ela até ser apresentada à poesia de Manuela Nogueira.

A edição brasileira da biografia de Manuela Nogueira: à procura de uma editora portuguesa. Foto: Rita Ansone.

“Não se trata aqui de estabelecer uma ligação entre a poesia do tio e da sobrinha, mas de fazer justiça com uma poeta que talvez não tenha sido tão conhecida justamente por ter sido ofuscada pelo tamanho da sombra de Pessoa”, explica.

No início de 2025, Maria da Conceição espera aportar em Lisboa com alguns exemplares da nova edição do livro, cumprindo a curiosa missão de uma brasileira em divulgar entre os portugueses a vida e obra da amiga Manuela Nogueira . Na ocasião, Mariana Portela juntar-se-á às duas pela primeira vez em Lisboa, quem sabe já com boas novas sobre o possível interesse de uma editora portuguesa.

Mas certamente para celebrar uma improvável amizade, sublinhada pelos versos de Fernando Pessoa e uma história contada pela Mensagem.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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