Ludovina Shagane, lisboeta de 45 anos de ascendência indiana, lembra-se bem daquele fim-de-semana em que arrastou a mãe até ao Cine-Estúdio 222, no Saldanha, ali do outro lado do Monumental, para assistirem ao último filme de Salman Khan, o seu ator preferido.

Foi no final dos anos 90, início dos anos 2000, e o Cine-Estúdio 222 era então ponto de encontro da comunidade muçulmana, hindu e ismaelita que, aos fins-de-semana, se reunia para assistir aos filmes de Bollywood. “Eram famílias inteiras: pais, avós e filhos, que iam ver os filmes.”
Durante a semana, ali exibiam-se filmes alternativos, segundo a programação definida pela associação Zero em Comportamento – que fundaria o icónico IndieLisboa Festival Internacional de Cinema.
Com o tempo, a degradação do edifício – ocupado pela sala de cinema mas também por um centro comercial – e um imbróglio jurídico por causa de obras por fazer no telhado acabariam por ditar o seu fecho. O velho cine-estúdio tornava-se mais um lugar expectante em Lisboa…
Hoje, o letreiro de neon resiste, no nº37 da Avenida Praia da Vitória, no Saldanha: Cine-Estúdio 222. Na fachada ainda sobrevivem as memórias de um passado não muito longínquo: para além do letreiro, ali ainda se anuncia a Perfumaria Aldina Escada, a loja de telecomunicações Rayyan, o restaurante Pirâmide e El Torky, uma loja de artesanato egípcio.
O espaço está fechado, mas encontra-se hoje à venda por 1 600 000 euros. E um dos proprietários – que prefere não ser identificado – diz ter um objetivo para o seu futuro: “Queremos manter a vertente cultural deste espaço, sem apagar o passado.”


Um cinema e centro comercial multicultural
A sala de cinema e o centro comercial instalaram-se no rés do chão e cave do nº37 da Avenida da Praia da Vitória entre 1976 e 77 graças a Firozali Sacoor e Heider Alli Sacoor, moçambicanos de origem indiana, que vieram para Lisboa depois do 25 de Abril. Em 1978, abria portas o Cine-Estúdio 222.
É incerto o porquê do nome. A opinião popular afirma que adviria do facto de a sala de cinema ter 222 lugares, mas o projeto que consta na CML apresenta 214 lugares. É, no entanto, possível que a designação tenha que ver com um outro cinema, nascido na Baixa de Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique, com o mesmo nome. Abriu no final dos anos 60 e, de facto, teria esse nome por causa dos 222 lugares na plateia. Apesar das transformações na cidade, o cine-estúdio ainda lá resiste.

Em Lisboa, o cinema começou por funcionar como qualquer outra sala de cinema. Mas, em 2008, Dhimante Cundanlal – conhecido por ter gerido o Cine-Estúdio 222 durante vários anos – contava numa entrevista da webzine Rua de Baixo que, vendo-se a braços com a competição das grandes salas, acabaria por mudar de estratégia…
Nos anos 90, a gerência estabeleceu então uma parceria com a associação Zero em Comportamento, que ficava encarregada da programação da semana, enquanto, ao fim-de-semana, o cinema se tornava ponto de encontro da comunidade indiana, onde assistiam aos clássicos de Bollywood.
“O Cine-Estúdio 222 tornou-se um espaço multicultural, com cinema indiano e cinema alternativo”, recorda Rui Pereira, diretor da associação Zero em Comportamento. “Havia uma loja onde egípcios fumavam shisha, que olhavam para o público mais alternativo do cinema com um ar estranho. Sempre foi um espaço com poucas condições, com lojas pequeninas, mas ficou na memória das pessoas.”


As memórias do cinema alternativo e de Bollywood
O cinema tornou-se um lugar frequentado por diferentes públicos, com uma grande mistura: desde os cinéfilos, aos estudantes universitários, à comunidade imigrante que tanto frequentava o cinema como o centro-comercial, com a loja de artesanato egípcio ou o Rayyan, a loja de equipamentos e telecomunicações. “Durante algum tempo, foi um espaço icónico que ficou na memória das pessoas”, descreve Rui Pereira.
A programação da Zero em Comportamento mobilizava muito público durante a semana, conta Rui. Foram vários os filmes aqui exibidos, enquadrados em ciclos temáticos, nos quais se incluíram ciclos de filmes de realizadores como David Lynch ou David Cronenberg. “Estávamos numa época em que ainda não havia os DVDs, quanto mais o streaming e, portanto, o nosso projeto consistia em fazer reposição de filmes.”
Os fins-de-semana eram também dias de casa cheia, recorda Ludovina Shagane. “Era 99% comunidade indiana que ia ver os filmes. Era um ponto de encontro da comunidade.” O próprio Rui Pereira chegou a ir ver os filmes de Bollywood: “Fui lá algumas vezes ao fim-de-semana e as sessões esgotavam! Os filmes nem sequer tinham legendas em português!”.

Mas o cinema acabaria por fechar portas. Para Rui Pereira, a morte do cinema foi ditada pelo crescimento dos DVDs. “Os DVDs começaram a ser francamente acessíveis a toda a gente. Também surgiram questões complicadas com o conforto e a higiene da própria sala. No início, toda a gente tolerava porque era giro, era hipster, mas quando as pessoas começaram a ter alternativas, começaram a reclamar.”
A associação abandonou o espaço em 2003 para avançar com o IndieLisboa. Rui Pereira adianta que, durante o tempo em que lá esteve, foi tendo algum contacto com os gerentes do cinema, sobretudo com Dhimante Cundanlal, mas acabaria por perder-lhes o rasto.
A programação ao fim-de-semana cessou pouco tempo depois de a Zero em Comportamento ter deixado o espaço. Para Ludovina Shagane, que veio para Lisboa com 2 anos mas sempre foi fascinada pelos filmes de Bollywood, o fecho marcou o fim de uma era. Agora, é mais difícil ver filmes de Bollywood no cinema em Lisboa, embora haja salas em centros comerciais que exibam este tipo de filmes aos sábados à noite, diz Ludovina. “Dantes, era mais fácil, agora já não vou tantas vezes ao cinema…”.
Recuperar a antiga vida do Cine-Estúdio 222
Em 2012, a tese de mestrado Bollywood e as Fronteiras da Modernidade Indiana, de Ricardo Oliveira Silva, contava a história do Cine-Estúdio 222, que então estava já abandonado: “O Cine-Estúdio 222 é, atualmente, um conjunto de galerias comerciais relativamente devolutas, na Av. da Praia da Vitória, na zona do Saldanha.”
O investigador escreve ainda que, nessa altura, decorria já há seis anos um processo relativo à necessidade de obras na cobertura do telhado do cinema, processo que aguardava decisão em tribunal sobre o apuramento de responsabilidades. Sem as obras, a Câmara Municipal de Lisboa não emitia a licença de utilização do espaço.
Segundo um dos proprietários, ficou acordado que seriam os proprietários a avançar com a o grosso da reabilitação do espaço que corresponde ao terraço (por cima do cinema). Quando foi possível voltar-se ao cine-estúdio, o proprietário encontrou-o completamente degradado. Agora, com as obras agendadas para breve, os proprietários procuram quem queira dar nova vida ao Cine-Estúdio 222 – seja através da compra ou do arrendamento.
“Já tivemos muitas propostas aliciantes”, confessa. “Mas queríamos mesmo que fosse um projeto cultural a dar continuidade ao espaço.“


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
