
Três batidas ligeiras. Do outro lado, ouve-se: “Quem é?…”, mas sem esperar pela resposta, Amorinda Amaro, 87 anos, abre a porta do seu apartamento. É um estúdio de 50 metros quadrados mobilado, com kitchenette equipada e casa de banho adaptada. Aqui e ali, fotografias dos sobrinhos; no parapeito da janela, um livro que, diria depois, achou um pouco aborrecido. São detalhes que contrariam o imaginário que se tem de uma residência assistida ou, no senso comum, de um lar de idosos.
E não é. O que o Centro Intergeracional Ferreira Borges, inaugurado em maio de 2021, em Campo de Ourique, é, é uma resposta integrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), assente nos pilares da habitação colaborativa e vivências.
E o que significa ser uma habitação colaborativa? O conceito combina dois elementos: apartamentos independentes, mas próximos, e espaços, serviços ou recursos de usufruto comum. É o expoente máximo da boa vizinhança.
O modelo de co-living ou co-housing, em inglês, ou viver comum, em português, não é de agora. Começou por ser para estudantes, com as tradicionais “Repúblicas” e depois para jovens profissionais ainda antes do século XXI. Ganhou força em Lisboa com o crescimento do turismo, da entrada de empresas internacionais no mercado nacional e do trabalho remoto que a pandemia da Covid-19 reforçou. Paralelamente a estas reconfigurações sociais e laborais, a habitação colaborativa transformou-se numa necessidade face ao aumento do valor dos imóveis e ao empréstimo de outros ao alojamento local.
No entanto, este modelo não é só uma solução para enfrentar a especulação imobiliária. Para mais de 500 mil de idosos que vivem sozinhos, a habitação colaborativa pode ser uma resposta para combater a insegurança habitacional e o isolamento social.
Com 2,5 milhões de pessoas com 65 ou mais anos, Portugal é o segundo país da União Europeia com maior índice de envelhecimento (só ultrapassado pela Itália) e o quarto país do mundo com maior proporção de população de idosos – 186 por cada 100 jovens -, revelam os dados de 2023 da Pordata.
Durante quatro anos, Amorinda partilhou um quarto noutra residência assistida. Agora tem o seu apartamento, no terceiro andar. “Estou aqui há três anos. Gosto de tudo. O que dizer mais? As pessoas tratam-me bem, são incríveis”, diz emocionada.
Algarvia, de Aljezur, veio para Lisboa ainda jovem porque, conta, a família quis desviá-la dos olhares de um rapaz e na cidade permaneceu. Não casou, não teve filhos, dedicou-se à alfaiataria, até que chegou a altura em que já não se sentia segura a viver sozinha.
Mas ainda faz a sua vida quase autonomamente.
“A minha casa é muito boa, gosto muito da cama, é muito calminha e ninguém me incomoda!”

De manhã, desce ao primeiro piso do Centro para tomar o pequeno-almoço. Depois, regressa ao apartamento e vê televisão até à hora do almoço. Durante a tarde põe a conversa em dia com os utilizadores do centro de dia, faz ginástica ou outra atividade programada. Às vezes, vai almoçar com os sobrinhos ou recebe a família naquela que é agora a sua casa.
Um edifício que colabora com os idosos
O Centro Intergeracional Ferreira Borges ocupa um edifício de cinco andares, inaugurado em 2021, construído de raiz para este equipamento, na rua que lhe deu o nome. A sua arquitetura funcional distingue-se dos prédios de Arte Nova que caracterizam os quarteirões do Bairro de Campo de Ourique, edificado no final do século XIX. Mas não destoa da comunidade, no exterior e no interior.
Só com um edifício novo foi possível criar condições para implementar este equipamento colaborativo e comunitário, na perspetiva de Isabel Araújo, assistente social e diretora do Centro Intergeracional Ferreira Borges. No terceiro e quarto pisos, existem nove apartamentos mobilados e equipados, dos quais seis são individuais e três duplos. E aqui reside uma das dimensões inovadoras em relação à resposta tradicional.
“Estas residências assistidas foram pensadas de forma a potencializar a autonomia das pessoas. O apartamento é delas. Podem receber visitas, fazer as suas refeições se não quiserem comer no refeitório. As pessoas estão enquadradas numa instituição, mas não estão institucionalizadas”, reforça Isabel Araújo.

A dimensão da assistência é proporcionada por uma equipa multidisciplinar permanente: uma animadora sociocultural, uma psicóloga, uma assistente social, uma fisioterapeuta, uma monitora e nove auxiliares, todas com formação especializada num novo modelo de intervenção dos centros de dia, que a SCML apelidou de InterAge, no âmbito do programa Lisboa, Cidade de Todas as Idades, assente em três pilares: residência assistida, centro de dia e academia de atividades.
“O nosso trabalho não pode ser isolado. Se não trabalharmos em conjunto, não surge miraculosamente uma resposta na comunidade”, explica a diretora. No centro de dia, as salas interagem, isto é, são circulares, e é nelas que decorrem todas as atividades disponibilizadas pelo Centro, abertas à comunidade.
“Qualquer instituição do bairro ou grupos informais podem solicitar as salas, até para reuniões de condomínio”, explica Isabel Araújo. Esta abertura dá frutos: “Assim, criamos um polo de sinergias; cada um dá o que tem e nós conseguimos potenciar uma oferta muito maior para uma diversidade de públicos de várias idades”.
Essa oferta, que inclui desde aulas de tai chi chuan a ateliers de pintura, está disponível não só para todos os moradores do Centro, mas também a qualquer pessoa, a um preço mais acessível. É fruto de seis protocolos permanentes e um sem número de parcerias informais com equipamentos do território, como escolas, associações culturais, a Junta de Freguesia de Campo de Ourique e outras limítrofes, e a Câmara Municipal de Lisboa.
A filosofia subjacente à programação também é ela própria comunitária.
“Todas as atividades são pensadas com os utentes e a comunidade, através de Conselhos Participativos. Avaliamos o impacto das atividades do mês anterior, especialmente as pontuais, e pensamos nas seguintes. É assim que se estabelece um sentimento de pertença e promove o envolvimento. Quando as pessoas estão envolvidas, sentem que as atividades não são para elas, são delas”, conclui Isabel Araújo.
Um centro de dia não é idosos a ver tv
Numa das salas está a decorrer o Café Radar, uma tertúlia dedicada aos saberes tradicionais, provérbios e trava línguas, moderada por duas jovens técnicas da Santa Casa de Misericórdia. A iniciativa está inserida no Projeto Radar:
“Fizemos um levantamento de moradores do bairro com mais de 65 anos e identificámos o nível de autonomia, estado de saúde, etc. Depois, para motivá-los a sair de casa, temos algumas tertúlias, como o Café Radar. Trazemos pessoas do bairro que acabam por conviver com os utentes e acabamos por desmistificar a ideia de que um centro de dia é um grupo de pessoas sentadas a ver televisão”, explica Alice, uma das técnicas.

O grupo de cerca de 20 pessoas está animado nesta terceira edição do Café Radar, mas é a primeira que recorda com mais entusiasmo, dedicada às profissões antigas. “Eu era cartonageira. Fechava as caixas dos medicamentos”, diz uma das participantes. Outra pesava chá. A maior parte era modista, a profissão da moda há 70 anos, como Bárbara, de 96 anos, afirma.
O Café Radar não foi a única atividade do dia. Antes disso, já houve danças sociais, numa parceria com o Ginásio Clube Português, e, de manhã, o atelier quinzenal de culinária e a aula de teatro, promovida pelo Grupo de Teatro Tom Maior. Às quartas e sextas há pilates. Todos os dias há o Despertar, composto por dois dedos de conversa com ginástica e meditação à mistura. Em média, são seis atividades por dia.
Além disso há iniciativas que partem dos próprios moradores. Uma delas levou-os a ganhar um concurso de culinária. “As nossas chefes aliaram-se aos alunos internacionais da Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril e trabalharam em conjunto receitas tradicionais. Isto é solidariedade intergeracional, melhor do que qualquer prescrição médica. Se calhar as nossas utentes não conseguem descascar uma batata, os alunos ajudam, mas são elas que os ensinam a fazer uma caldeirada de peixe”, explica Isabel Araújo.
A solidariedade intergeracional traz também benefícios para a saúde mental da população mais idosa, afetada pela solidão, afirma Isabel Duarte, presidente de Direção da Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica. “A dimensão da participação e da pertença é facilitadora e a mistura de grupos sociais e geracional facilita a aprendizagem e combate a subestimulação que a solidão provoca”, explica.
É com a vivência comunitária intergeracional que o Centro consegue fechar o trio da inovação. “Com este modelo, conseguimos responder a três desafios: combatemos a solidão dos mais idosos, retardamos a institucionalização nos tradicionais lares e promovemos a solidariedade entre gerações”, explica Isabel Araújo.
Este modelo de que fala Isabel Araújo é o paradigma de intervenção centrado na pessoa. “Muitas vezes, as famílias cuidadoras estão esgotadas e querem apenas institucionalizar os mais idosos. Nós, aqui, não nos focamos nos problemas, mas no que ainda nos podem dar de bom e nos interesses que podemos valorizar.”
“Já não podia comigo, antes de vir para aqui”
O foco no outro é seguido naturalmente por Isabel Araújo, que conhece todos os moradores pelo nome. “Então, Dona Maria José, como estamos hoje?, pergunta. Maria José, de 87 anos, responde com vários dedos de conversa. Vai ao Centro todos os dias, pelo seu próprio pé, desde dezembro de 2023.
“Foi muito bom ter vindo para cá. Tenho inglês, teatro, dança… Antes, estava tardes inteiras no sofá a ver televisão. Já não podia comigo.”

A amiga Adelaide, de 89 anos, sentada ao lado, faz um sim com a cabeça.
“A mim acontecia-me o mesmo. Passava semanas sem sair de casa. Agora, entro todos os dias aqui de manhã e recebo um sorriso; saio ao final do dia também com um sorriso. Na minha idade, é tão bom ter isto, nem imagina.”
Maria José deu a cara pela campanha Original. Sem Botox, uma iniciativa da Associação Cabelos Brancos que teve como objetivo combater o idadismo e valorizar a beleza natural. “Fui à televisão, saí no jornal Expresso. Até me pediram amizade no Facebook”, conta, orgulhosa. Quanto ao botox, é perentória: “Não alterava nada no meu rosto, faz parte da minha história de vida.”
Conviver é ter de aprender a ceder
No quarto andar, outro apartamento abre-se, desta vez, para duas histórias de vida: Maria Matos, 66 anos, e Palmira Santos, 85. Ambas aceitaram partilhar uma casa, cientes dos desafios que enfrentam por pertencerem a gerações diferentes e começarem um novo capítulo em conjunto.

O frigorífico está dividido, as prateleiras para os bibelots também. Maria propôs à Palmira alternar também o uso da televisão: “Ela gosta de ver as novelas e aqueles programas de entretenimento, eu gosto de outras coisas, como séries”, conta Maria. “Isto é a essência de uma habitação colaborativa. Temos de ceder para estarmos aqui”, lembra Isabel Araújo.
Maria Matos entrou como residente em 2023. Estava a viver em quartos, há alguns anos, mas a doença neurológica diagnosticada aos 50 anos, que lhe afeta, por exemplo, o equilíbrio, exigia outros cuidados. Através do centro de dia que frequentava, foi sinalizada, entrou no processo de seleção, que incluiu uma conversa com a diretora para saber o que a esperava.
Além do grau de autonomia, são critérios de entrada a vulnerabilidade financeira, social ou de saúde, patentes no regulamento interno da Santa Casa. Depois, é feito o cálculo da comparticipação financeira com base nos rendimentos da pessoa.
Quando Maria Matos percebeu que iria dividir um apartamento, estranhou, mas rapidamente entranhou por ter noção de que seria uma realidade mais segura do a que estava a viver.
“Nada é perfeito, mas aquilo que ganhei em segurança e condições de vida vale muito”, afirma. Durante o dia, faz as suas caminhadas, gosta de estar no computador, embora já seja “um dinossauro com 15 anos”, pesquisar coisas na internet e ouvir música. Há wifi nas zonas comuns, mas paga para ter o seu no apartamento. “Gosto muito de música. Agora estou viciada no Teddy Swims.”

O que Maria ouve parece à Palmira “música de fundo”, nada a ver com as suas músicas preferidas. Também esta antiga costureira chegou ao Centro em 2023, depois de já não querer e poder viver sozinha. Agora, o seu talento a tricotar fios é aproveitado, por exemplo, no projeto Abraçar as Árvores, em parceria com um jardim de infância do bairro, que consiste em criar elementos decorativos para as árvores. Às vezes, Palmira tem o apartamento só para ela, porque Maria gosta de passar alguns dias fora com amigos.
“O centro não se pode fechar em si próprio. É o facto de terem liberdade que faz com que as pessoas continuem a ter energia”, salienta Isabel Araújo.
Informática e afetos
Daqui a uns dias, a geração mais sénior irá festejar o Halloween com os alunos da Escola Manuel da Maia.
José Eira, 65 anos, um dos cinco residentes masculinos, está alheado disso. Prefere ouvir atentamente o que Francisca Campelo, de 37 anos, fotógrafa e voluntária do Centro, lhe está a dizer. De olhos postos no telemóvel, Francisca explica-lhe como otimizar a memória do telemóvel e recuperar o toque com a música do Benfica.
“As atividades de que mais gosto aqui são o tai chi chuan e estas aulas de informática uma vez por semana. Às vezes clicava numa coisa e apagava tudo, sem saber como”, conta.

A residir no equipamento há dois anos, diz que passou por situações “bem complicadas” e estava “muito mal” antes de ir para lá. O abraço da diretora abafa-lhe a emoção, mas ainda deixa escapar: “Estar aqui significa tudo para mim”.
O balanço positivo, ao fim de três anos, revela-se em números e nestes desabafos, incluindo o de Isabel Araújo:
“O cansaço é extremo, mas ver como as pessoas chegam aqui, algumas à beira da institucionalização, deprimidas, profundamente solitárias e depois ganham um novo olhar… Vale todo o esforço.”
Em Lisboa, até outubro de 2024, só há mais um espaço da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que conjuga a habitação colaborativa, o centro de dia e a dinamização comunitária intergeracional. Fica no Bairro Padre Cruz, em Carnide. No mercado particular, as ofertas de residências séniores assistidas crescem, mas os valores podem atingir os cinco mil Euros por mês.
Em 2023, o governo português aprovou 22 projetos de habitação colaborativa e comunitária, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com uma estimativa de 750 lugares destinados a populações em situação de vulnerabilidade, incluindo idosos.
No Centro Intergeracional Ferreira Borges, há uma lista de espera de seis pessoas para as residências assistidas. Para uma vaga surgir, é preciso que, além de uma história terminar, um residente tome a decisão de sair ou o Centro seja obrigado a agir, ao perceber, por exemplo, que a pessoa já não tem autonomia para estar neste modelo, explica Isabel Araújo: “Aí, não a abandonamos. Desenhamos com ela um novo projeto de vida.”
Este trabalho faz parte da investigação Cidades para viver (Housing Cities), que junta as redações da Mensagem de Lisboa, em Portugal, e do Slow News, em Itália. Este trabalho foi desenvolvido com o apoio de Journalismfund Europe – num projeto dedicado ao Jornalismo de Soluções.

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Bom Dia! Gostaria de saber maiores informações para residencia. Obrigado!
Excelente iniciativa! Os meus sinceros parabéns! E que sirva de modelo para mais habitações seniores deste tipo, retirando dos clássicos lares-corredores-da-morte muitos idosos ainda com as suas capacidades funcionais para serem respeitadas e aproveitadas para garantir um capitulo final de vida melhor.
Fiquei com curiosidade e interesse! Estou interessado, em integrar, se possível, o projeto,
Gostaria de ter mais informações
Obrigada
Precisamos tanto deste tipo de iniciativas, os meus parabéns!!