jcdecaux painéis


Lisboa harmoniosa ecológica sustentável: só que não. Aquém e além de todas as polémicas, o mobiliário urbano e os painéis publicitários usados em Lisboa pela JCDecaux estão longe de ser um exemplo de inovação ou design sofisticado. Ao contrário de cidades europeias que percorremos num estudo prévio, e que optaram por soluções mais funcionais, o mobiliário de Lisboa é um modelo padronizado e barato, sem grande consideração pelo impacto ambiental ou pela originalidade. 

Ou seja, a digitalização da publicidade, que deveria ser uma solução sustentável, acabou por ser, em Lisboa, mais um exemplo de ineficácia.

Segundo as minhas contas, este contrato publicitário com a JCDecaux consome o equivalente de energia de 1.486 habitantes. Só para dar uma ideia, para ser compensado, em termos de emissões, teria que levar ao plantio de quase 30 mil novas árvores. 

Em tempos de contenção energética e de promessas de que a cidade será carbonicamente neutra, estes valores devem preocupar todos os lisboetas. 

Além disso, a aposta em sistemas de publicidade com motores rotativos eleva ainda mais o consumo de energia na cidade, contradizendo o esforço que poderia ser feito com a implementação de energia solar que ficou totalmente ausente dos abrigos e de todos os mupis deste contrato com a JCDecaux.

A adopção de tecnologia LED, muitas vezes promovida como solução verde, é insuficiente para contrabalançar o consumo energético exacerbado gerado pelos motores que movimentam esses painéis.

Tratam-se apenas de estimativas e os seus valores podem variar com base no consumo real de energia de cada dispositivo e o tempo de funcionamento diário o qual, segundo disse o presidente da CML seria reduzido durante o período nocturno (recordemo-nos que a maioria dos acidentes rodoviários ocorre entre as 2400 e as 0500).

Para quem quiser perceber as contas que fiz: 

O contrato assinado pela Câmara Municipal de Lisboa incluía 

  • 900 Mupis, 10 % digitais
  • 2000 abrigos de transportes públicos em paragens
  • Painéis digitais de grandes formatos não superior a 125 e que, no seu conjunto, terá 2500 m2 e 3000 m2
  • 20 Mupis de natureza digital e 5 painéis digitais (4×3 metros), como equipamento informativo municipal

Esta rede iria substituir a anterior e que ainda está online AQUI.

Não é fácil estimar o consumo energético anual desta rede apesar disso julgamos ser possível chegar a valores aproximados.


Mupis digitais:

Se considerarmos que os mupis digitais consomem 150-200 W, e operam 24 horas por dia,  e que o consumo anual dos 810 mupis tradicionais se estima em 1 kWh/dia, podemos calcular o consumo diário e anual da seguinte forma:

Consumo Total destes 900 mupis: 295.650 kWh/ano (tradicionais) +137.970 kWh/ano (digitais) = 433.620 kWh/ano.

Paragens de autocarro

Assumindo que em cada paragem de autocarro o mupi iluminado tem um consumo estimado é de cerca de 1 kWh/dia, e que as paragens ainda não estão todas iluminadas, pelas más razões:

Consumo total de 2000 abrigos = 730.000 kWh/ano

Santários

No caso dos sanitários prometidos é mais difícil estimar o consumo energético mas imaginemos que consomem algo como 10-20 kWh/dia:

75 santários = 410.625 kWh/ano

Painéis de Grande Formato

Os grandes campeões de consumos são os 125 painéis digitais de grandes formatos (2500-3000 m²)”.  Um painel digital de grandes dimensões pode consumir 10-15 kWh/dia

125 painéis grandes =  570,312.5 kWh/ano. 

Os painéis digitais podem consumir 7-10 kWh/dia.

20 painéis digitais = 62,050 kWh/ano. 

Cinco painéis digitais de 4×3 metros para equipamento informativo municipal, com um consumo de 12.5 kWh/dia

5 painéis digitiais =  22,812.5 kWh/ano. 

Neste item estarei a ser muito conservador e que o valor real poderá ser muito maior.

Conclusão: 

Somando todos estes consumos estimados, com base neste consumo anual, esse valor seria suficiente para alimentar uma cidade com aproximadamente 1.486 habitantes, considerando o consumo médio residencial por habitante em Portugal de 1.500 kWh/ano.

A tudo isto acrescenta-se: 

  • Custos ambientais na distribuição e armazenamento que podem ser adicionados à pegada ecológica e ambiental de todo este processo. 
  • Custos ambientes e em emissões de CO2 das grandes fundações em cimento que cravam os mupis e abrigos da JCDecaux no chão da cidade.
  • Papel usado não é reciclável em Portugal e acaba por ser descartado em aterros sanitários, levando consigo uma série de produtos químicos prejudiciais ao meio ambiente. Se fossem usados painéis estáticos digitais diminuiria a necessidade de papel, mas o sector preferiu investir em sistemas rotativos, que consomem ainda mais energia. Isso, combinado com a incapacidade de reciclar o papel impregnado de produtos químicos e plásticos utilizado nestes anúncios, faz com que a poluição gerada pelo sector seja preocupante. As empresas, em vez de enfrentarem a responsabilidade de reduzir o seu impacto ambiental, terceirizam a gestão de resíduos para empresas especializadas, criando a ilusão de que estão contribuindo para a sustentabilidade. No entanto, estes resíduos acabam por ser enterrados, escondendo o problema sem chegar a o resolver.
  • Emissões de gases de efeito de estufa e de combustíveis fósseis da rede de MUPIS e painéis LED e emissões de gases de efeito de estufa (GEE). 
  • Consumo de gasolina pelos veículos que fazem a manutenção dessa rede de painéis. Aqui, também, é difícil chegar a valores aproximados mas, assumindo algumas hipóteses podemos chegar a uma estimativa razoável: Suponhamos que a JCDecaux e a MOP (sua subconcessionária) tenham 20 veículos para a manutenção da rede. Suponhamos que cada veículo percorre uma média de 100 km por dia (Lisboa tem cerca de 2 mil km) para cobrir toda a área onde os painéis, abrigos e sanitários estão instalados. Admitamos que um veículo médio a gasolina consome cerca de 8 litros por 100 km e que um litro de gasolina gera aproximadamente 2,31 kg de CO2. Seriam 134,9 toneladas de CO2/ano

Lamento, mas “Lisboa harmoniosa ecológica sustentável”? Duvido muito.

Para calcular as emissões de CO2 associadas ao consumo de eletricidade, precisamos de um fator de emissão de electricidade sendo o factor de emissão médio em Portugal é de cerca de 0,233 kg de CO2/kWh. Então, as emissões associadas ao consumo de eletricidade e de CO2 seriam 657,5 toneladas de CO2/ano. 

Ou seja, para compensar seria assim necessário plantar aproximadamente 29.886 árvores – assumindo que uma árvore média absorve cerca de 22 kg de CO2 por ano.

Em suma, Lisboa não se destaca pela inovação ou sustentabilidade, e ainda menos pelo mantra publicitário que a JCDecaux afixou nos seus mupis: “Lisboa Harmoniosa, Tecnológica, Sustentável” mas pela quantidade exagerada de publicidade espalhada no seu mobiliário urbano e pela pegada ecológica e energética anual associada a esta rede (não contabilizei os custos de instalação). 

PS – Para terminar gostaria de acrescentar que não sou contra este tipo de contratos. No contrato anterior o concessionário pagava menos de um milhão de euros anuais e os contratos tinham prazos ainda mais dilatados que o actual. Os 8.3 milhões de euros que a JCDecaux vai pagar à CML podem ser bem investidos a melhorar e qualificar o espaço público e a construir habitação pública. Tendo em conta a dimensão desta anuidade é compreensível que o concessionário tenha tentado maximizar a sua facturação por forma a ter encaixe suficiente para suportar a renda anual. O que correu mal (muito mal), foi o processo de autorização das tipologias e dos locais exactos (não dos “preferenciais”: que nada significam) por parte da CML dos seus serviços e, sobretudo, pela inércia ou aprovação superior por parte da vereação de Carlos Moedas.

Rui Martins

Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”). More by Rui Martins

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3 Comments

  1. Boa análise numa questão pertinente. Coisa aliás que não falta na Lisboa dos nossos dias, como a completa inação de fiscalização de esplanadas selvagens, que retiram passeio aos peões, trotinetes no meio de passeios ou a bloquear passadeiras, etc, mas o importante é a polícia municipal poder prender.
    Mas voltando ao tema do artigo, releva uma abordagem jornalística refrescante, onde se usa a inteligência para analisar uma situação, em vez de repetir chavões encomendados.
    Parabéns, mais do mesmo por favor.

  2. Relativamente a este interessante artigo, tenho a dizer que os consumos de energia dos sanitários e das paragens dos transportes públicos estão a ser contabilizados em conjunto com os painéis publicitários, ou seja, juntando o essencial com aquilo que é supérfluo e, pior, com aquilo que nos afronta. É claro que o simples facto de respirarmos e de nos movermos acarreta só por si um impacte energético e a obrigação de plantarmos uma carrada de árvores, mas a diferença entre o essencial e o acessório deve ser distinguido. O que pode ser dispensável- os painéis publicitários, suscitam muito mais que problemas para além do que referi; há uma agressão visual e um assoberbamento do espaço público em Lisboa, como se a cidade fosse sobretudo um enorme centro comercial, onde a sua fruição tivesse de ser constantemente posta em causa dizendo assim: “Deixa lá estar o pormenor no desenho das janelas daquele prédio, não te encantes com as paineiras em flor, não rapares nos pináculos da igreja que se escondem atrás do quarteirão…vai mas é ao Continente…não?…compra um híbrido plugin!…não?…que tal um corneto?”. Pois é, mas no final de tudo o que também teria sido bom sinal era ter investido mais uns kilowatts de inteligência na melhoria da rede de transportes públicos em Lisboa e arredores!

  3. Excelente iniciativa da JCDecaux ao integrar energia renovável nos painéis publicitários! A utilização de energia solar e soluções sustentáveis é essencial para um futuro mais verde. Iniciativas como essa demonstram como a inovação pode impulsionar o setor publicitário e contribuir para a redução da pegada de carbono.

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