
Este artigo faz parte da investigação Cidades resistentes ao calor, que junta as redações da Mensagem de Lisboa, em Portugal, da Maldita.es, em Espanha e do Slow News, em Itália, num projeto dedicado ao Jornalismo de Soluções com o apoio de Journalismfund Europe.
Pelo mundo, têm-se multiplicado estratégias para o combate às ondas de calor: “criação de praças em Milão, zonas junto ao rio devolvidas à população em várias cidades francesas, a criação de espaços partilhados à entrada das escolas, com urbanismo tático, em cidades espanholas”, elenca o cientista de dados Manuel Banza. Mas há um caso que se destaca particularmente: o de Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia, onde a criação de corredores verdes – para combater o efeito de ilha de calor – conseguiu uma descida de temperatura em 2ºC pela cidade.
Tudo começou no ano de 2016, durante o primeiro mandato do presidente Federico Gutiérrez. “Começámos a trocar tudo o que eram pisos em cimento ao lado dos principais corredores viários da cidade para convertê-los em grandes corredores verdes”, começa por explicar Jaime Andrés Naranjo Medina, Secretário de Infra-estruturas Físicas da cidade de Medellín, responsável pelo projeto “Corredores Verdes”.
Os pisos foram removidos e transformados em jardins, com árvores plantadas, verificando-se uma forte ligação entre a flora e a fauna. “Não apostámos nos corredores apenas pela redução da temperatura. Mais do que reduzir a temperatura, é voltarmos a este tema da conexão, da resiliência, de gerar espaços agradáveis para os nossos peões e cidadãos.”
No primeiro episódio deste trabalho sobre o calor em Lisboa, procurámos oferecer contexto. Demos conta do impacto do calor na saúde de quem vive na cidade, explicámos o efeito ilha de calor urbano – ou como a construção e a densidade da cidade dificultam o arrefecimento das ruas – e pedimos a especialistas para nos explicarem como se arrefece uma cidade. No segundo episódio, apontámos para as soluções, sugeridas pela ação cidadã dos lisboetas. Neste terceiro e último episódio, olhamos para um exemplo lá fora.
Combater as ondas de calor, criando comunidade
Desde 2016, foram criados 18 corredores verdes associados às vias principais da cidade de Medellín e outros 12 associados aos vales da cidade que desembocam no rio Medellín. “Gerou-se esta grande estrutura de ligação à volta e no centro da cidade que nos deu visibilidade a nível mundial. Foi feita uma grande aposta na sustentabilidade, provando-se que o desenvolvimento da cidade pode perfeitamente combinar-se com o meio ambiente.”
Ao longo dos últimos oito anos, a cidade plantou cerca de 880 mil árvores e 2,5 milhões de plantas. O programa conseguiu assim reduções significativas de temperaturas. Os resultados foram publicados no relatório Chilling Prospects de 2021, uma publicação que acompanha o sucesso das iniciativas de arrefecimento em 54 países de alto impacto – são assim classificados devido à sua localização geográfica e exposição a altas temperaturas. Colômbia é um destes.
De 2016 para 2019 as temperaturas médias nos corredores verdes de Medellín caíram de 31.6ºC para 27.1ºC, e as temperaturas médias de superfície caíram mais de dez graus, de 40.5ºC para 30.2ºC.
Para além disso, o programa teve também uma componente social importante: 107 pessoas de comunidades vulneráveis foram treinadas como jardineiros e 2600 trabalhadores foram empregados pelo projeto.




Os corredores verdes tornaram-se entretanto em espaços de convívio e encontro.
“São grandes áreas verdes com boa vegetação e árvores que proporcionam sombra, onde instalámos mobiliário urbano agradável para que as pessoas possam parar, descansar, fazer uma pausa. Esses espaços têm sido muito, muito bem aceites pela comunidade, que se apropria deles.”
E, embora a criação dos corredores nunca tenha estado ligada à redução do uso do automóvel – que continuam a circular nas estradas entre os corredores -, a autarquia diz estar a apostar no uso do transporte público. “O presidente tem sido muito insistente, e foram gerados grandes projetos na cidade, como o metro, e comboios ao longo dos corredores de algumas avenidas”, esclarece o secretário.

Praticamente dez anos desde o arranque do projeto, descobriu-se que há árvores mais benéficas do que outras – a árvore da manga, por exemplo, muito comum em Medellín, tem características que permitem mitigar o monóxido de carbono e os metais pesados, presentes no ar – e também estas curiosidades têm sido alvo de estudo.
Entretanto, com o novo mandato do presidente Federico Gutiérrez – que começou este ano – a aposta é na melhoria das condições dos atuais corredores e em expandi-los ainda mais pela cidade. “Por agora, estamos a pensar onde é que se podem construir mais corredores verdes. Não paramos, pelo contrário, queremos fazer mais e mais”, resume Naranjo Medina.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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