Foto: Inês Leote

Eu e a minha filha tínhamos um jogo, muito usado quando ela era criança: caçarmos coincidências. Jogávamos os três – ela, eu e o Senhor dos Acasos. Este determinava a extraordinária repetição de um número, que eu e ela tínhamos inventado às escondida dele. Apesar de não saber da nossa tramoia, o Senhor dos Acasos conseguia fazer-nos encontrar esse número, inopinadamente. Ríamos muito quando isso acontecia.

Era assim: “Olha, o 333!” A coincidência aparecia em três dos quatro algarismos da matrícula de um automóvel que seguíamos, numa porta que cruzávamos passeando, era o número de quarto de hotel que nos davam…

No trajeto para o Liceu Francês, que ela frequentou desde o jardim-escola, houve um número, escolhido por mim, que nos durou anos e anos.

Um dia, eu contei a um amigo a história desse número fétiche. Fora o da minha mãe, no Colégio de Odivelas, e também calhou ser o meu de aluno no Brotero, colégio do Porto – 217. A minha filha ouvia a conversa e chamou-me de lado: “Pai, então, não é por causa dos meus anos?!” Ela nasceu a 21 de julho, e dei-me conta de que as coincidências existem, para além dos nossos jogos.

A minha filha amuou um pouco, pois fora desapossada de um acaso. Na verdade, o seu nascimento eu traduzia-o por “o dia em que eu corri à volta da Maternidade Alfredo da Costa, aos saltos”. Nunca o enunciaria por um mero “21/7”.  Ela própria, aliás, logo admitiu que o seu aniversário, tendo sido trazido casualmente para o nosso jogo, confirmava a magia do destino.

Como jornalista sempre procurei encontrar coincidências. Ajudam a espevitar os leitores para o que conto. Não por acaso, um dos sinónimos de acaso é acidente – paramos, ou pelo menos abrandamos, quando damos por um.

A semana passada acabei-a, era domingo, a ver na RTP2 O Tilintar Das Chaves, um belo filme francês (Le Bruit Des Trousseaux), do realizador Philippe Claudel. Comecei por gostar do empate no título original e a sua tradução. Uma das línguas, preferiu, e bem, “tilintar”, em vez de barulho; e a outra, também bem, trousseaux, em vez de chaves. Esses cuidados preveniam-me que as palavras eram protagonistas do filme, pois o cenário era uma prisão, que, como todas, têm uma língua própria. Ou, pelo menos, que nos é estranha.  

Philippe Claudel, antes de ser cineasta, trabalhou doze anos numa prisão como professor de presos. Escreveu um livro sobre essa experiência, publicado em 2002, com o mesmo título do filme, lançado em 2020. Não precisou de mudar muito no cenário e nos costumes, em todos os países as prisões tendem em ser conservadoras.

Com pudor, ele não julga, nem espreita. Sabe que ele não vive o que os seus alunos vivem. Então, sem ilusões, ele não quer salvar. Professor de francês, fala-lhes de livros e dá-se conta da força do que pode ser o ler e o escrever. Ou não. Mas revela-nos que há quem lhe peça uma caneta e um caderno. Avisa-nos é que não garante nada sobre o que isso pode trazer aos presos… 

Uma imagem mostra presos a carregar o caixote do lixo ao portão da prisão. Nunca levantam a cara do asfalto. Talvez lhes seja insuportável ver as copas das árvores agitadas pela brisa.

Um dia, ao sair, como todos os dias podia e fazia – o filme não se cansa de nos relembrar essa condição e que os presos não têm – o professor repara no hospital, contíguo à prisão de Nancy, onde ele ensina. Homens que chegam para morrer, embora não sabendo quando, vizinhos de outros, com data certa e até escrita em sentença, sobre quanto vão viver ali – mas vivendo garantidamente pouco.

No filme, um preso confirma: eles sabem o que é exatamente um minuto, um dia, mês ou ano – mas também sabem que esse tempo está cheio de nada.

Domingo à noite vi um filme cheio de muito, graças à RTP2, que me mostrou um mundo que eu não conhecia.

E isso no fim de uma semana de bocas cheias de prisão e de presos, cinco, de câmaras cegas, de politiquices, e um escadote. Noves fora, o escadote.

Já esta semana comecei-a, era segunda-feira, a ler e ver neste jornalinho, a Mensagem de Lisboa, uma reportagem e um vídeo, sobre uma prisão de Linhó. E havia, um professor, como no filme de domingo, que ia à prisão, não ensinar francês, é certo, mas a dar voz a presos, isto é, no caso português, exprimirem-se por música. Depois digam-me que não há coincidências.

Há e até são milagres.

O professor Filipe Gameiro das Neves– juro, ele é mesmo Filipe, como o Philippe de domingo à noite – colocado, por acaso (mais um), na prisão do Linhó, deu-lhe, também ele, para ouvir os presos como deve ser. Quer dizer, como gente. Nada de coboiada, política espúria, treta de jornalismo, nada. Filipe, como o Philippe, pôs-se professar, pois para isso pagamos a um professor. Ouviu os presos. Esse foi o rito inicial. Depois, veio a liturgia da palavra. “Percebi que para eles era natural escrever. Ei, stor, arranje-me uma caneta, um caderno, preciso de escrever.” O professor anuncia o rito final: “Depois, aconteceu uma coincidência, convidei o Dino D’Santiago.” No vídeo, o cantor diz: “Compreendi mesmo: vai ser a minha missa.”

O cantor foi convidado para falar aos presos do Linhó e soube o que era uma guitarra nas mãos de um carente: o preso João Torres agarrou-a e tocou até as cordas lhe sangrem os dedos.

Isso foi antes do covid, mas levou à reportagem e vídeo agora apresentados.

A reportagem da Mensagem, podem lê-la, aqui, texto do Ricardo Farinha, fotos e vídeo da Inês Leote e do Yannick Monteiro. Mas a coincidência referida pelo professor Filipe – o convite ao Dino D’Santiago – explica toda a conversa desta crónica sobre os acasos. Se calhar estes não existem ou, melhor, existem, só que muitos de nós passamos por coincidências e não damos por elas. Outros dão. 

Por estes dias, quando tanto se falava da fuga de cinco perigosos presos de Alcoentre, o país merecia saber mais e melhor da alta segurança nas prisões – era notícia e grande. Vali a pena que se falasse dela e do que ela revelava. A inexistência de uma política sobre esse assunto maior. A incipiência da resposta, do ministério às administrações prisionais. O jornalismo pífio sobre os factos e os comentadores pouco inteligentes sobre as explicações. Os partidos, ou atrapalhados, quando governantes, ou açulando e só, como sempre, o Chega…

Mas quando não sabemos nada sobre um assunto grave, ficar calado é mais que prudente, devia ser mesmo obrigatório.               

Calhou, porém, que a RTP2 e a Mensagem de Lisboa, por um real acaso, encontraram-se em dois dias seguidos, na esteira da fuga de presos, mas não por causa dela, a falar do mesmo: presos.

E que bom foi ouvi-las, às duas.

Aconteceu, tão só, que o destino de tudo e até da História, tem raízes tão fundas, que só os homens bons a detetam. O filme da RTP2 e a nossa reportagem existiram porque o professor Philippe e o professor Filipe, tendo visto presos, deram conta deles.

Se a RTP2 e a Mensagem não tinham nada de novo sobre a fuga de perigosos fugitivos, fizeram bem calar-se. Continuo sem saber onde pairam os cinco de Alcoentre.

Não digo “por outro lado”, porque uma desgraça é uma desgraça e agora falo de uma esperança, comoveu-me ouvir um preso do Linhó anunciar a única riqueza que tem: “Há tanta coisa para dizer, o que não falta são palavras.” Letras para serem batidas em morna, coladeira e funaná. 

A minha filha deu-me dois netos. De uma coisa eles podem estar certos: também vou ensiná-los a caçar coincidências.

E mais, vou revelar-lhes quem é agora o meu Senhor dos Acasos. É um cidadão daqui perto, a Quarteira, que faz questão de dizer, no nome, que vem de longe: Dino D’ Santiago. O perto junto ao longe aumenta a probabilidade de coincidências e potencia os destinos.  

Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo. More by Ferreira Fernandes

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