Muamba e funge: pratos tradicionais que Ana Dionísio se lembra de comer quando vivia em Luanda, Angola. Muitas vezes terá sido preparado pela mãe, em quem Ana pensa quando, hoje, volta a provar aqueles sabores numa outra terra, Lisboa. Agora, a muamba está na carta do restaurante que gere, o recém-inaugurado Bambi Bambi, nos Jardins do Bombarda, em Arroios – o centro cultural onde artistas, arquitetos e tantas outras profissões se juntam e que, em junho, migrado do Quartel de Santa Bárbara, encontrou uma nova casa nesta parte do velho hospital Miguel Bombarda.
Bambi Bambi foi o projeto vencedor de uma candidatura lançada pela cooperativa LARGO Residências para um novo espaço de restauração numa “cabana” dos jardins, virada para um pinhal.
Comer “como se come em casa” é a ideia que tudo tem que ver com o nome que batizou este restaurante. “Bambi” pela sua sonoridade, por ser uma palavra fácil de dizer, por ser um filme que nos leva à infância, porque nos relembra da criança que ainda somos (“bambino”).
Aquela de Angola e não só. É que Bambi Bambi quer ser um lugar de partilha entre os pratos da infância de todos os que habitam Lisboa. “Na cozinha, tenho trabalhadores da Ucrânia, Argélia, Angola, e quero que cada um deles dê o seu input, ponha um prato na carta, para que, quem esteja na comunidade, reconheça o prato.”
Para que qualquer lisboeta se sinta em casa na sua nova casa, viajando pelas memórias.
“Bambi remete para uma comida carinhosa, dos que têm saudades dos sabores. Quando se come, pensa-se na infância, nas memórias vivas das almoçaradas, da convivência com os amigos…”.
ANA DIONÍSIO, BAMBI BAMBI
Um projeto que nasceu da vontade de Ana Dionísio e do sócio, André Brandão, e que abriu portas no dia 3 de julho, com uma celebração ao som do pianista Pikachu Lacerda. Neste novo restaurante, servem-se almoços e jantares, “comida de panela”, como lhe chama Ana. “É para comer mesmo a sério: comida em travessas, em tachos, comer que nem uns animais. Como se come em casa”, repete o mote.
Num dia de sol, é também aqui que jovens bebem refrescos na esplanada enquanto, lá dentro, num espaço bem colorido, Ana anda de um lado para o outro, organizando e distribuindo os últimos almoços do dia.



Um conceito bem diferente do café e lounge-bar que Ana e André gerem em Santa Apolónia: o Homie’s. “Este conceito chegou com a maturidade”, diz Ana. Chegou uma altura em que a saudade de casa, Angola, se fez sentir: já não lhe fazia sentido abrir um espaço de café e bar ao estilo americano, como o Homie’s. Era mesmo tempo de honrar as memórias.
Das viagens pelo mundo ao sonho americano
17 anos separam a abertura deste restaurante do dia em que a jovem Ana, de 31, deixou Luanda, chegando a Carcavelos, onde passou a morar com os tios. Veio com a ideia de se tornar “advogada, economista”, mas o destino trocou-lhe as voltas: desiludida com o ensino português, no qual demoraria anos até começar a trabalhar, optou por estudar hotelaria, um caminho mais rápido… e viajar.

Foi durante os estudos que se apaixonou pela comida ou, melhor, pela forma como se come. “A partir daí, não quis sair mais da cozinha, comecei a procurar pratos, a ver todos os programas de culinária.”
Descobriu diferentes hábitos nos diferentes países onde estudou: no Norte de Espanha, onde se nota uma grande influência francesa, aprendeu sobre “sanduíches, guisados”; nas Ilhas Maurícias, conviveu com as tradições muçulmanas e hindus, aventurando-se pelo mundo dos caris e das especiarias.
Mas foi em Nashville, Tennessee, nos Estados Unidos, que Ana mais se inspirou para lançar o seu primeiro negócio, o Homie’s. “Em Nashville, vi muitos negócios criados por jovens: cafés fixes, sítios fixes… e essa possibilidade, de abrir um espaço, foi a inspiração para o Homie’s.”
O Homie’s ganhou vida algum tempo depois de Ana regressar das suas viagens e reencontrar um velho amigo dos tempos de Angola, que sempre fora muito próximo dos seus primos: André Brandão. “O André é mais a nossa cara. Ele tem todo um carisma e uma calma que cativa os nossos clientes”, explica Ana. “Eu estou mais na parte do stress, da gritaria lá atrás. É a parceria perfeita”.

Juntos, fizeram nascer o conceito do Homie’s, que só poderia ficar em Lisboa, muito embora Ana tenha passado por vários lugares do país: Carcavelos, Montemor-o-Novo, Sintra.
“Eu adoro Lisboa. Acho que é mesmo muito parecido com Luanda, há zonas em que penso: ‘estou em Luanda’, especialmente quando está calor, e talvez tenha sido essa familiaridade que me trouxe a Lisboa”.
Nos Jardins do Bombarda, era finalmente tempo de regressar a casa.
“Patuscada” e uma relação “muito séria” com a comida
Foi com o passar do tempo que Ana Dionísio foi sentindo esse apelo: o de regressar às raízes, o de regressar a casa. Começou a senti-lo ainda dentro do próprio Homie’s, onde organizou eventos em que qualquer um podia partilhar as suas receitas, trazendo um bocadinho do seu mundo para Lisboa.
Também Ana queria trazer as suas recordações para Lisboa: pratos como a muamba e o funge, mas também conceitos como a “patuscada”, um momento festivo em que se passa o dia à volta da mesa, a comer.
“Em Angola, a nossa relação com a comida é muito séria. Temos dias específicos para comer certas coisas: funge ao sábado, mufete ao domingo, feijoada às quartas, temos uma organização em torno da alimentação e da comida. Nós estamos a comer e já estamos a pensar no que vamos comer a seguir”. Exatamente como acontece em Portugal.


Durante anos, a saudade das tradições de infância foi-se dissipando. “Quando emigras muito novo, esqueces um bocadinho as tradições, e então adaptas-te, mas há sempre uma falta, uma saudade, um buraco que fica…”.
E foi por isso que Ana Dionísio e André Brandão, também ele angolano, incorporaram os sabores da sua infância neste “Bambi Bambi”.
E Ana resume: “O Bambi traz-nos para a eterna imagem do miúdo que quer a comida da mãe.”


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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