Os prédios ainda não o eram em Chelas, Marvila, onde a paisagem se fazia sobretudo de muitos contentores e casas de autoconstrução nos anos 80, numa espécie de ritual a aguardar o betão. “Da minha casa, eu abria a janela e via este cenário, e sentia medo e preocupação pelo meu filho”, lembra Augusta Baptista, chegada de Angola em 1978. É que, no meio da incerteza dos adultos donos de família, muitos vindos de outros países em busca do velho cliché “uma vida melhor”, também “as crianças tinham um grande desafio”, que Augusta prometeu mudar: “brincavam na rua, no meio do lixo, de vez em quando até passavam ratos… jogavam ali entre ferros e vidros. Algo tinha de mudar”.

Foi a premissa para o nascimento do projeto Eco-Estilistas, há 35 anos, em Chelas.

Augusta foi a impulsionadora deste projeto. Foto: Facebook Eco-Estilistas

Primeiro, vieram as reuniões de vizinhos, no bairro, incentivadas por Augusta e pelo filho Bruno, de 43 anos, onde o lixo não deixava de ser tema. “Além de tudo o que existia à nossa volta, nós tínhamos uma agravante: a Feira do Relógio. Uma feira multicultural. Agora, a feira é ordenada, mas em 89 era cada um por si. Não havia a ajuda da Câmara, então o lixo da feira andava a voar por todo o lado a semana toda e, naquela altura, a higiene urbana não era tão apurada também. Estava tudo de costas viradas”, lembra Bruno.

Bruno, filho de Augusta, é uma das principais caras do projeto. Foto: Gonçalo Moreira

Também por muitos prédios não terem elevadores ou estarem constantemente avariados, diz, “a maioria das pessoas dos andares superiores não descia até à rua para por o lixo fora” – “em vez disso, atiravam o lixo para a rua pela janela”.

Mas havia quem olhasse para o lixo de outra forma.

De repente, Augusta começa a aperceber-se de que havia cinco vizinhas que estavam “a fazer coisas giras com o lixo”, como bolsas de plástico. “Começamo-nos a juntar e a partilhar. No final da feira, eu, o Bruno e a minha sogra íamos lá buscar lixo”, lembra. Soube que poderia ser o começo de uma viragem na relação do bairro com o lixo e teve uma ideia: unir esforços com a escola onde trabalhava como auxiliar.

Passaram a trabalhar lá, transformando o lixo em produtos novos, a cada fim de semana. Sempre à boleia da ajuda dos alunos, que se propuseram a por mãos à obra.

Foto: Frederico Raposo

Do bairro à cidade, da cidade à Europa

“Um dia, um deles perguntou: ó dona Augusta, nós fazemos todas estas coisas mas ninguém vê. Por que é que vocês não nos vestem estas coisas giras para nós desfilarmos?”. A ambição de um contagiou todos e acabaram a desfilar na Expo 98.

“Vocês nem imaginam o público que nós tivemos. A quantidade de pessoas que pararam para nos ver a desfilar. Tivemos até pessoas debruçadas nas escadas rolantes para nos ver”, recorda Augusta. “Passámos de uma expressão física e estática para exposições dinâmicas. Então, os produtos que criámos começaram a ter movimento com estes desfiles de moda”, acrescenta Bruno.

O objetivo? Sensibilizar, e já não era pouco. Mostrar ao público o que era possível criar com todo aquele lixo que tantos odiavam. Em Chelas e fora dela.

A iniciativa, aliás, não passou despercebida na União Europeia. Em 2001, os Eco-estilistas foram convidados para um intercâmbio realizado em Hamburgo, na Alemanha. Uma experiência que se repetiu ao longo do tempo e que encurtou laços entre Europa e Chelas.

Não sabe ao certo de se por força do projeto ou não, Chelas mudou mesmo desde então. Augusta lembra especificamente uma manhã de sol em 2007: “Abri a janela e fiquei espantada com o que vi. Bulldozers, pinheiros, terra revirada… Plantaram árvores, montaram bancos, um campo de futebol… Foi quando vi que algo estava mesmo a mudar. Acho que chamámos à atenção”.

Da reciclagem para a rádio

Hoje, os Eco-Estilistas têm uma sala dentro do bairro, onde se reúnem, com as criações em exposição, alguns dos quais rentáveis. O espaço é equipado com uma cozinha e um estúdio de rádio – é que, à medida que a associação cresceu, Bruno apercebeu-se que este movimento poderia impulsionar outros, como uma rádio online feita por jovens.

“Os problemas no bairro costumavam ser grandes, não apenas o lixo e a falta de lugares públicos, mas também havia muitos problemas relacionados com drogas, violência doméstica e abandono escolar.” Com os alicerces da associação cada vez mais vincados no território, convidaram os jovens a contribuíram com diferentes ideias para eventos sociais. “As atividades são principalmente focadas na juventude. Por exemplo, eles têm o seu próprio programa de rádio online todos os domingos há quatro anos.” A Rádio Zip.

O estúdio da Rádio Zip. Foto: Gonçalo Moreira

Um projeto que nasceu de um desabafo. “Quando tivemos uma reunião com a juventude, uma criança chegou muito tarde, sentou-se e disse que estava atrasada porque tinha estado a ouvir rádio.” Um gosto que descobriram por acaso. Com a ideia em mente, Bruno levou a proposta à Junta. “No início, isto pareceu-me uma ideia um pouco maluca, mas conseguimos criar a rádio online.”

Tudo teve início com a vontade de criar melhores condições no bairro através da recolha de lixo. Passou para a transformação desse mesmo lixo em produtos reutilizáveis. Com o tempo, os Eco-Estilistas deram a conhecer o seu trabalho dentro e fora do país. E, mais recentemente, nasceu o projeto da rádio online e os workshops de alimentação saudável. “As pessoas vêm ter connosco. É uma porta totalmente aberta. Elas conhecem-nos, fazemos várias atividades nas escolas e ao redor do bairro.” Os Eco-estilistas estão mesmo a mudar o mundo à sua volta.

Este trabalho foi realizado em conjunto com Gonçalo Moreira, correspondente de Chelas durante a semana em que a Mensagem mudou a redação para este bairro, com o Projeto Narrativas.

Os repórteres Nele van den Broek e Tomás Delfim, numa conversa com um dos protagonistas desta história: Bruno. Foto: Gonçalo Moreira


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