“Anda lá que a cigana está maluca, ela perdeu a cabeça!”
“Duas peças, cinco euros!”
“É contra o frio e contra a chuva!”

Às dez da manhã na Avenida Santo Condestável, em Chelas, ouvem-se os pregões pelas bancas da Feira do Relógio. É a maior de Lisboa, com um número estimado de 450 feirantes. E, para muitos lisboetas, um ritual de domingo há décadas, vindos de todo o lado.
A confusão é muita, entre os feirantes que não perdem o ânimo, chamando os fregueses para verem o que têm para vender, e os clientes habituais, que percorrem toda a avenida à procura de bagatelas.
Habituais como João Silva, morador no bairro da Flamenga, mesmo ali ao lado. Ele que não falha um domingo na feira, mesmo que “às vezes” venha “só para ver como está o ambiente”, para o convívio. O que encontra é sempre a correria habitual, entre bancas de gangas, rosas e couratos.
Ouve-se João, que vende edredões, a cantarolar na sua banca. Acanha-se quando lhe pedimos para cantar para a câmara. “Ah não, isso não”, ri. Mais à frente, Jorge Ribeiro descasca uma laranja em frente ao seu império de plantas. Deixou a função pública para se juntar à mulher, Maria, apaixonada pela botânica. Já feiram há 35 anos.
O feirante Nelson Abreu diz mesmo ter “nascido na feira”, habituado a ser levado pelos pais, também feirantes, à do Relógio. Hoje, é o filho quem o ajuda na venda de calças e de “tudo que tiver preço para se vender na feira.”
Mas o que tem de tão especial esta feira que traz Lisboa e arredores a Chelas, todos os domingos, há mais de 50 anos?



Tradição de domingo desde 1970
Foi na segunda metade dos anos 70 que pequenos produtores agrícolas se começaram a reunir espontaneamente em Marvila nessa feira que se estendia ao longo da rua Pardal Monteiro, do lado do Colégio Valsassina. “Era uma feira com um caráter muito agrícola, que ainda hoje subsiste”, diz José António Videira, presidente da Junta de Freguesia de Marvila.

O nome “feira do relógio” foi-lhe atribuído devido à proximidade à Rotunda do Aeroporto, também conhecida como Rotunda do Relógio – que dava também nome a um bairro, o Bairro do Relógio, nas proximidades da feira.
O Bairro do Relógio nasceu em 1965 com o realojamento de 750 famílias vindas do Vale de Alcântara, que dali tiveram de sair com a construção das estradas que levaram à ponte sobre o Tejo. Estas famílias passaram a viver em alojamentos pré-fabricados, nesse bairro para onde mais tarde vieram moradores vindos de bairros de lata e retornados das antigas colónias.
Ali chegaram a viver 7342 pessoas.
Marcado pela criminalidade e pela degradação, o bairro passaria também a ser conhecido como o “Camboja”. É sobre ele que o artista Nuno Varela, do projeto Kriativu, que lá viveu, fala: “Eu fiz a escola primária no bairro, mas as minhas memórias não são as melhores. Era um bairro muito atingido pela droga. No 4.º ano, já havia miúdos com problemas de toxicodependência.”
Para ele, só havia um dia em que o cenário mudava: era o dia da feira.
“Ao domingo, tínhamos a feira, era um dia diferente, vias milhares de pessoas reunidas. Era lá que eu comprava os produtos da moda, as cassetes…”, conta Nuno.

Uma feira que é “uma romaria”
O Bairro do Relógio foi totalmente demolido em 1996, realojando 1185 agregados familiares nos bairros da Flamenga, Casal dos Machados e Armador. Mas a feira continuou: pela tradição de domingo, acredita Nuno Varela, que marcou não só os moradores do bairro, como toda a Lisboa.
Era um lugar para se comprar mais barato, sim, mas mais do que isso, era um lugar de encontro. “A feira serve para uma visita de romaria, para convívio… “, diz o presidente da Junta de Marvila.
A feira registou um grande crescimento nos anos 80, como indica a Câmara Municipal de Lisboa. Na década seguinte, eram já 1043 os seus feirantes, altura em que a autarquia a ordenou e regulamentou. A feira passou então a realizar-se ao longo da rua Pardal Monteiro, do cruzamento com a rua Conselheiro Emídio Navarro à Quinta das Teresinhas, com o espaço organizado em dez setores.
“A feira foi-se alargando”, explica o presidente. “Aos produtos agrícolas, foi-se juntando o vestuário, as bebidas, as pequenas roulottes de restauração…”

Já em 2005, deu-se uma outra mudança, com a feira a chegar à sua morada atual. Essa transição foi documentada pelos vários órgãos de comunicação social na altura, como pelo jornal Público:
“Ontem, no primeiro dia da nova Feira do Relógio, mudada de armas e bagagens do sítio onde se realizava há 30 anos para a Avenida Santo Condestável, entre o supermercado Feira Nova, em Chelas, e a Avenida Marechal Gomes da Costa, a vista do viaduto era conclusiva: milhares de pessoas circulavam ao longo das duas vias da avenida, entre um mar de tendas, “roulottes” e carrinhas.”
A mudança foi positiva, diz António Ramos, morador nas Olaias que todos os domingos vai à feira. “Algumas coisas mudaram, talvez haja um pouco mais de higiene. Antigamente as leis não eram muito rígidas, há certos procedimentos que se notam agora que, naquela altura, antes de a feira mudar, não se faziam.”

O lugar que ainda resiste à inflação
Hoje, a feira conta com oito setores (sete destinados à venda de produtos não alimentares e um destinado à venda de produtos alimentares). Aqui, é possível encontrar-se um pouco de tudo: roupas, malas, jogos, fruta, legumes, ovos, queijos, enchidos, presuntos…
Para muitos, é na feira que fazem as compras de mercearia, e nem a inflação parece ter mudado esse hábito. “As coisas são mais baratas lá, é a vida do pobre”, diz João Silva. “A feira é para se manter e, Deus queira que sim, porque os produtos são bons. Ao longo dos anos, fui conhecendo quem vende mais barato, quem vende mais natural.”
Nuno Varela que, tal como o pais, continua a ir regularmente à feira, diz não ter sentido nenhum aumento dos preços. “A nível de frutas, tem havido muitas bancas com promoções bastante boas, o que faz muita gente ir à feira.”
Se os compradores não a sentem, os feirantes partilham de outras opiniões. Balbina, que aqui vende há mais de 30 anos com o marido, desabafa que tem sido difícil manter os preços de feira, tendo em conta o aumento do valor que paga para ali manter a sua banca. “Claro que as pessoas vêm cá sempre à procura do mais barato”, atalha.
O mesmo diz Juvenal de Simões, feirante há 47 anos: “Eu tento manter os preços, mas no último mês o preço da banca subiu 70 euros!”.
E ainda há quem, nos últimos tempos, tenha encontrado na feira um lugar para ganhar mais uns trocos. Maria, que não aceita ser fotografada, vende há um ano na feira e desabafa: “Isto está difícil, está muito mau.” Uma história que é contada por outros novos feirantes – e são muitos, diz Nuno: “Com o boom da imigração, surgem bancas de comida brasileira, feirantes asiáticos…”.
As tradições (o famoso courato), as novidades, o futuro
Nesta manhã de compras, há também uma paragem obrigatória: as roulottes de comida. “As roulottes atraem muitas pessoas, que vão provar o courato”, diz Nuno Varela. O famoso courato, a pele ou couro duro do porco, é uma das grandes tradições da Feira do Relógio.
João Silva partilha: “De vez em quando lá vai um couratozito!”. E António Ramos conta: “Costumo ir à feira com um amigo meu, somos como irmãos e comemos uma entremeada, um courato.”
No meio do rebuliço deste domingo, surgem de repente as batucadeiras das Olaias, um projeto comunitário nascido nesse mesmo bairro, que trazem pela primeira vez para aqui os seus tambores, com uma missão: alertar feirantes e clientes para a importância da reciclagem. Porque, numa feira antiga, também há espaço para tradições novas.

A música não para chamar mais movimento, nem os pregões. A feira é já uma máquina bem oleada. Afinal, muitos destes comerciantes já preenchem assim os domingos há mais de 30 anos.
Que o diga Cassilda Rodrigues, de 83 anos, há mais de 20 a vender coentros e molhos de salsa ao lado do marido. Vêm para “fazer algum dinheiro, a vida está difícil”, conta Cassilda. Já Rafael, que vem da Zona J de Chelas, cresceu na feira, a vender malas. “Costumava vir com os meus velhotes, agora venho com a minha mulher.”
E há jovens que planeiam fazer das feiras o seu futuro, como é o caso de Joaquim, com 17 anos e de Odivelas, que cresceu a vender com a mãe na Feira do Relógio. “Quero ser revendedor”, diz, com um sorriso nos lábios.



Esta reportagem faz parte do Projeto Narrativas. Saiba mais aqui

Arsénio Quindombe e Gonçalo Moreira foram dois dos correspondentes da redação pop-up da Mensagem em Chelas, a bordo do projeto Narrativas.

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Parabéns por mais esta excelente “reportagem”. Comércios que ajudam a entender … o Comércio!
Bem haja a vossa/nossa … Mensagem.
Adoro os vossos pontos de vista e vossa maneira de escrever , ambos tão sinceros e sensíveis .
Obrigada, uma vez mais pela veracidade do nosso dia a dia de Lisboa.
Sim comprar na f.relogio…mais barato e os frescos com melhor qualidade .
Boa noite / bom dia hoje assim seria um deles e sou mesmo fisicamente não tendo presente….opinião ..me lembro que está feita no passado era pra ser uma.mesal..no novo progecto…tou em Angola ..não porque quero mas a vida ..era dia mas feliz da minha vida cá em Angola existia o rock era seu aberto maior feira de África tudo mundo …amo feira do relógio ,morava na quinta dos cravos ..na analógico somos petisco dos …cá ..mas deus não dorme aí tá um exemplo do bem…(podiam por alguma publicidade ao pessoal da feira pra ajudarem a página ..englobam o bairro ..seria bom alargaram pro dias da semana ..não sei como tá a zona …vivia na quinta dos cravos..vos amo ok..
Parabéns ao progecto podiam por exemplo contatos dos feirantes ..quem sabe emportarem negócio pra Angola …seus productos são muito baixo me lembro por exemplo roupas e outros artigos eram vindos de fábrica ..
Gostaria de falar com vocês sobre minha neta que está a morar em chelas e não me deixam ver
Boa tarde gostaria de pedir ajuda