Pela história e pela geografia do país, o mar é incontornável na vida dos portugueses – acima de todos, e puxando aqui a brasa à minha sardinha, dos lisboetas. Crescemos e vivemos com uma oferta incrível de praia a menos de 30 minutos de casa (Caparica, Guincho, Ericeira, para nomear apenas algumas), mas não valorizamos de todo a joia que nos calhou na rifa. Já os turistas que por cá passam e os estrangeiros que aqui fixam residência estão fartos de perceber a sua sorte: é-lhes oferecido um destino ou um lar de sonho por uma bagatela e não hesitam. Vêm e ficam.

Era bom ver essa reciprocidade em outras paragens.

Mas tenho que ser honesto. Pessoalmente, precisei de viver quase um ano numa cidade sem o dito e num país com uma exígua língua de areia de quatro quilómetros, para eu próprio compreender finalmente que, como escrevia a Sophia, também “metade da minha alma é feita de maresia”. Como todas as coisas que passam em grande abundância pelas nossas vidas, fiz o que todos fazemos nestas situações: não lhe dei grande valor. Ao mar azul.

A minha relação com a areia, o mar e a praia foi sempre ambivalente. Acima de tudo, intermitente. Aliás, quando conheci a minha companheira, lisboeta por adoção e alguém para quem o Verão significa ondas, chinelos nos pés, toalha na areia, mergulhos, bolas de Berlim e renovação do espírito, um dos momentos mais hilariantes que experienciámos no início da nossa relação foi a nossa primeira ida à praia – por acaso, numa outra mais a sul, a do Barril, em Tavira. 

Pois bem. Estávamos nós acabadinhos de chegar à dita praia no sotavento algarvio e eu estender tranquilamente a minha velhinha Mike Davis, uma versão desbotada e gasta da prenda (uma das poucas) oferecida pelo meu pai aos 12 ou 13 anos, quando a mulher com quem viria a casar dez anos mais tarde se vira para mim em sobressalto e atira: “disseste-me que gostavas de praia!”. Por instantes, antes de me desdobrar em explicações sobre a minha história nem sempre tórrida com a areia e o mar, senti-me desancorado e meio à toa num areal que se presta particularmente pouco a isso… à falta de âncoras. 

Escusado será dizer que, passados 13 anos, sou um homem apaziguado com o mar e a areia. Hoje, sempre que surge uma nesga de sol e calor, nem é preciso chegar ao solstício de Verão para pegarmos na nossa trouxa e atravessarmos a Ponte 25 de Abril rumo “ao sol da Caparica”. Aqui entre nós, nem podia ser de outra maneira.

Ainda o ano passado, a nossa querida cidade branca voltou a ser considerada pelos óscares do turismo o “Melhor Destino de Cidade da Europa”. Porém, por mais prémios que a cidade e o país recebam, por vezes parece que os nossos governantes continuam a não acreditar neste destino à beira do mar plantado como o produto premium e de exceção que é.

Não entrando aqui pelo debate que já marca destinos como Amesterdão ou Barcelona, alguém imagina Paris ou Nova Iorque a oferecerem condições mais vantajosas aos não autóctones?

Politiques à parte, acho que vou ali dar um mergulho e já volto. Estão mais de 30 graus, um sol incrível e, como costumo ser recordado amiúde há quase uma década e meia: eu disse que gostava de praia. Assim, como canta assombrosamente a Nenny, deixo o repto: “mar azul, mar azul, leva-me contigo, meu único abrigo”.


PEDRO SALAZAR:
Nasceu na freguesia de Arroios a quatro meses do 25 de abril, mas já viveu um pouco por toda a cidade (Avenidas Novas, Santa Catarina, Almirante Reis, Santo António, Campolide, Campo de Ourique e, desde 2010, em Alvalade). Licenciado em Economia pelo ISEG, foi produtor de espetáculos, jornalista e é, há mais de vinte anos, consultor de comunicação e empresário. Já viveu fora de Portugal, em Estocolmo e em Ljubljana, mas é em Lisboa que se sente em casa.


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