Não tenho maneira branda de o dizer: adoro a Ágata. E o que esta época do ano oferece aos lisboetas é a oportunidade de a amar sem complacências nem disfarces. Por uma vez, cai bem abraçar a portugalidade de um amor desesperado. Afinal, a música da Ágata – Maria Fernanda para os amigos – é mesmo isso.

Em termos de quantidade de alegria, os Santos só podem ombrear com o Natal. A diferença é que trazem uma alegria mais honesta, mais pura. Em Junho, ninguém precisa de uma mesa bem posta nem tem de enfrentar a nostalgia ao pensar em quem morreu. A música pimba ecoa nos holofotes, nos ouvidos – aos lisboetas, só cabe amá-la, de preferência entre a neblina de centenas de famílias de sardinhas assadas. Eu, que não sou de mariquices, adoro isto: a falta de formalidade, a horizontalidade entre nós todos, a ausência de manias com que a cidade inteira está vestida. É uma coisa linda de se ver, e digo-o enquanto maior especialista em música pimbo-romântica e amante de pão com sardinhas que este país já viu. Durante um mês, a capital do país faz-se à minha medida.

No ano passado, fui com dois amigos a um concerto da Ágata em Campolide. Ainda levámos o filho deles para que o Guiguizinho começasse, desde cedo, a apreciar o bom da vida. Ainda iam três embriões que hoje são os três bebés mais lindos que o mundo viu. Os meus amigos, claro, cantavam bem os refrões (o David sempre a fingir que não gostava, a Meijinhos sem se armar em parva), e espantavam-se por eu saber de cor, de uma ponta à outra, as letras das canções – excepto, admito, estas mais modernas, já a puxar para o reaggaeton ou o kizomba ou lá o que é. Eu tenho o coração de uma romântica, tudo o que lhe foge é um escape. E, para mim, a Ágata representa o desespero à português, uma forma de amar tão descomprometida que se despe de amor-próprio. A minha geração cresceu a saber que num divórcio se podem oferecer as jóias, o carro e a casa, mas não os filhos; e também que cabe na cabeça de alguém que os pais aceitem a proposta das mães, ficando com diamantes, viaturas e propriedade imobiliária em vez das crianças. Crescemos a saber que os homens são uns malandros, que nos dizem mundos e fundos aos 16 anos, vêm com promessas, juras de amor, até a primeira flor, e é então que se confia num bigode sexy [não existe] aliado a promessas mansas, e há um dia em que se anuncia um filho no meio da felicidade mais plena. Aprendemos que os malandros que engatam adolescentes – e sei lá se são adolescentes – não só não querem casar como não querem criar filhos, mas que uma mãe solteira também pode ser feliz.

A minha geração foi perdendo as manias, a inocência foi ao ar com a experiência – não a nossa, mas a da Ágata: nós bem sabemos que quando eles chegam tarde para jantar e dizem logo que estiveram a trabalhar a vida tem água no bico. Não podemos perdoar a quem com safadeza mente para nós [sic] nem acreditar em jogos nem pôr as mãos em fogos. Perante a traição, cabe-nos o sofrimento: é dar com os pés ao tipo, que nós morremos de ciúme desse perfume da outra mulher.

Na cultura portuguesa, o sofrimento ficou tão marcado em Castelo Branco – Camilo, não José, que para trás deixou uma vala comum cheia de cadáveres – quanto em Ágata. Perdão, foi mais em Ágata: foram telefonemas, cartas e poemas que com ela também lemos; juntas limpamos-lhe o fato para ali descobrirmos um retrato; fartas de lhe ouvirmos o sono agitado ao nosso lado, mandámo-lo embora sem nenhum queixume, só para não sentirmos mais aquele novo perfume. A Ágata não perdoa nem adúlteros nem amigas que espetam facadas, e é assim que tem de ser, principalmente quando uma e outra são a la irmãs, quando a outra faz parte da mobília e é tratada como família. Mas elas são iguais a eles, trazem um jogo bem montado, têm uma inveja que é igual a mau-olhado. Pimba, o gajo foge com a amiga, e ela nem morta quer voltar a vê-la à sua porta: como perdoar se a amizade para consigo era apenas um plano para lhe roubar o marido? É que a Ágata, perante a sombra de um adultério, não é parva nenhuma: ela bem estranha tantos serões no emprego até às três, e descobre os álibis nas idas aos congressos. Saca-lhe a informação do email (crime) e eis a prova de duas caras, de dois tectos. E enfim, lá descobre a reserva para um hotel de luxo. Lá vai, encontra-o com outra e, claro, passa na recepção e escreve no livro de reclamações. Quem nunca? A Ágata é isto, a vida é isto, ser humano é isto, entrar sem pára-quedas no amor também. Qualquer pessoa que se distraia e fique vulnerável acaba neste charco, muito provavelmente a comer uma lata de Häagen-Dazs ou um pacote familiar de batatas fritas de sabor a presunto e ovos fritos.

A Ágata é a vida de todos os dias, o símbolo mais evidente de uma mulher despeitada. Em Junho, todos os lisboetas serão Ágata, mas o que se passa com letras exageradas, que são pura dor, é a catarse que resulta em alegria. Pode vir Ágata, pode vir Rebeca, pode vir Ruth Marlene, pode vir Ana Malhoa: em Junho, Lisboa é amor e felicidade imediata, que a música pimba ajuda-nos a dar ordens à tristeza.

*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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1 Comment

  1. Ponto alto da Mensagem, os textos da Ana Bárbara Pedrosa. Tão bom. Obrigada.

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