Com 20 e poucos anos, Luís Pavão deambulava pelas ruas de Lisboa com uma câmara fotográfica, sem saber ao certo o que procurava. Na altura, trabalhava no Museu de Arqueologia, em Belém, onde fotografava alfinetes romanos. Foi quando se apercebeu da existência de várias tabernas naquela área, muitas delas em risco de desaparecerem, que a fotografia dele ganhou um rumo: daí para a frente, seria Lisboa, as suas transformações, os espaços onde se anunciava essa ameaça latente – “a de que isto não dura muito”- que se tornariam o foco do trabalho dele.
As décadas a percorrer Lisboa e as suas tradições resultaram em 1300 rolos de fotografias analógicas que atravessam os anos 80, e, mais tarde, em fotografias que contam o futuro de uma Lisboa acabada de entrar num novo milénio.
Hoje, estas imagens reúnem-se numa só exposição: “Lisboa Frágil”, no Palácio Pimenta do Museu de Lisboa, até ao dia 7 de abril.
No passado sábado, dia 23, a Mensagem organizou uma visita guiada por Luís Pavão pelas fotografias que documentam anos de mudanças na cidade, com os nossos leitores.

Olhar o passado à luz do futuro
A exposição, com curadoria de Laura Covarsí, permitiu a Luís um novo olhar sobre estas fotografias. É uma viagem no tempo, que parte do escuro da noite para a claridade do dia, e que se conta de maneira diferente hoje do que há 40 anos, quando Luís captou a maioria das imagens.
“Na altura em que as tirei, tinha uma parede em minha casa onde punha as fotografias com pioneses, e a presença permanente delas ensinava-me imenso: ensinava-me a gostar desta e não daquela, ensinava-me o que era o amor à primeira vista que depois desaparece, ensinava-me o que é um amor que resulta de um amadurecimento do olhar.”
Veja aqui algumas das fotografias:
Com a chegada do século XXI, a digitalização das fotografias permitiu a Luís descobrir magia em muitas das que inicialmente rejeitara. “A fotografia digital vai buscar aos negativos coisas de que não nos lembramos.” Com a ajuda de Laura, a seleção de fotografias para a exposição mudou em relação àquelas que publicara inicialmente.
“Eu estou 40 anos mais velho, os meus olhos já não veem as mesmas coisas, já nem se interessam pelas mesmas coisas. Desta vez, tive o apoio de uma jovem espanhola e é muito interessante trabalhar com outras pessoas, depois de tantos anos a trabalhar sozinho”, explica Luís.

A noite de Lisboa
A exposição abre com as “boas-vindas” dadas por uma figura caricata, que todos conheciam na noite de Lisboa como “Salvador Dalí”, graças aos seus bigodes retorcidos, como o pintor espanhol surrealista. Um senhor que vivia no Lumiar e que, quando perdia o autocarro à noite, era encontrado a dormir num banco de jardim da Avenida da Liberdade.
“Foi um senhor que muito fotografei na noite lisboeta, andava sempre com os braços cheios de flores para entregar às fadistas”, recorda o fotógrafo com carinho.
A presença de Salvador Dalí anuncia-se à entrada de uma quase “câmara escura”, que remete para um lugar onde Luís muito trabalhou, e que aliás marca o início da sua história de amor com a fotografia: foi ainda em adolescente que criou uma câmara escura em casa dos pais e começou a revelar. “Sempre gostei de fotografia por isso: é um bocadinho experimental e aventureiro, nunca se sabe bem o que vai sair, tem uma parte de química e de ótica…”.

Penetrando na escuridão dessa câmara, anuncia-se o primeiro destino: a noite de Lisboa, que Luís Pavão fotografou durante o ano de 1983, depois do sucesso que fizera com as fotografias das tabernas de Lisboa, publicadas em livro.
Também aqui há uma figura que nos dá as boas-vindas: um carrancudo guarda-noturno, que Luís muitas vezes encontrou na rua do Ouro. “Estes guardas não eram polícia, mas também não eram totalmente alheios à polícia, costumavam andar de pistola mas este não a trazia com medo que a roubassem”, conta, entre gargalhadas.
Nas paredes, surgem fotografias caracterizadas pela sua “componente escura da noite”, e Luís Pavão vai destacando algumas: uma imagem que documenta a estação Sul Sueste, junto ao Terreiro do Paço, onde se pressente que, a qualquer momento, algo vai acontecer, com a abertura das portas e a chegada de centenas de pessoas vindas dos barcos.
Ou uma fotografia tirada junto à Assembleia da República, durante uma manifestação pela despenalização do aborto, onde a multidão parece olhar para algo à distância. “Esta foi uma fotografia que foi uma felicidade para mim”, diz Luís. “Todas estas cabeças estáticas, que veem qualquer coisa que nós não vemos, e estão todas iluminadas por uma luz que vem como um jato de água.”



Mas a noite desta cidade faz-se de muito mais.
A câmara de Luís imortalizou para sempre o momento em que os jornais eram embrulhados já de madrugada, um Coliseu dos Recreios cheio para um concerto de Sérgio Godinho, um espetáculo de cabaré no bar Fontória, na Praça da Alegria, ou os sorrisos dos travestis na desaparecida Cervejaria Reimar, na rua do Telhal, “onde os travestis iam descansar das suas fadigas e onde sempre me receberam muito bem”, conta Luís.
Também pela noite de Lisboa emergem os marinheiros da Rua Nova do Carvalho, a hoje muito badalada Rua Cor-de-Rosa, que para ali se dirigiam chegados da armada. “Fui atrás de um marinheiro francês e tirei várias fotografias, com um certo instinto de que ia acontecer alguma coisa, e aqui está ele a mexer-se, à procura de algo, parece uma raposa”, descreve o fotógrafo. “Também foi uma das fotografias que me encheu de prazer e de energias para continuar.”
E os mercados, que começavam a fervilhar de vida às três da manhã, com a chegada de carros e carroças, com peixe, batatas, cenouras… “As vendedoras de peixe vinham de comboio, de madrugada, saíam das estações de Linha de Sintra, e vinham comprar peixe no mercado para o vender nas ruas.”
São boas recordações que se misturam com as de noites solitárias e de cansaço, em que chegava a casa sem nenhuma boa fotografia…



As tabernas de Lisboa: “aqui não há cultura!”
A segunda paragem faz-se pelas fotografias que definiram o percurso de Luís Pavão: as das tabernas, muitas delas já desaparecidas. Com 20 anos, Luís passou a frequentar estes espaços típicos, e a dissecar-lhes os segredos. “São espaços onde nada se passa, é mais o estar do que o acontecer.”
Mas o fotógrafo recorda que esta aventura nem sempre se revelou fácil. Ao chegar a uma taberna em Campo de Ourique, a “taberna do Manel do totobola”, os fregueses receberam-no com desconfiança:
“O grupo era praticamente sempre o mesmo, e eu aparecia ali, com uma máquina fotográfica ao pescoço, e olhavam para mim como se eu fosse uma criatura de outro mundo! Ainda por cima eu estava com um problema de fígado e não podia beber vinho, então só bebia sumol!”.
O taberneiro terá aliás desconfiado que ele seria um tipo das Finanças. Quando Luís lhe contou que tinha um subsídio da Secretaria de Estado da Cultura, terá replicado: “Mas nós aqui não temos cultura nenhuma!”.
Para ser aceite nas tabernas, Luís teve de recorrer a uma tática: criou fichas de tabernas, com informações que ia preenchendo com a ajuda dos taberneiros e dos clientes. “Quando eu acabava de preencher a ficha, já tinha um estatuto, já tinha uma certa autorização para fotografar, e assim passei a ser aceite nas tabernas.”
Foram muitos os lugares fotografados: para além do Manel do totobola, onde se bebiam copos e se jogava, naturalmente, ao totobola, Luís fotografou a Casa dos Peixes, onde se reunia gente vinda do Bairro Alto e da Bica, servindo-se peixe frito e vinho tinto, muitas vezes ao mesmo tempo que um barbeiro, conhecido por “Benfica”, cortava cabelos e aparava barbas.
Visitou também o Acácio, no Bairro Alto, onde se servia bacalhau e se cantava o fado, e também a Mascote da Atalaia, que ainda existe na rua da Atalaia, onde tanto se cantava o fado que muitas vezes os fregueses se esqueciam de consumir, ao ponto de Sabina, a velhinha por detrás do balcão, se ver obrigada a gritar no meio das cantorias: “Consumam, porra!”.
São histórias de uma Lisboa que já não mais existe, lamenta Luís. A maioria destas casas desapareceu. “Desapareceram os clientes, porque a população que ali vivia foi sendo expulsa dos bairros populares. Não admira que as tabernas fechem porque as pessoas desaparecerem…”, desabafa.

O jogo da laranjinha, os bailes, as marchas
Emergimos da luz noturna da noite e das tabernas para o dia de Lisboa.
As paredes revestem-se de memórias de salões de jogos, como o Salão Jogos Monumental, na Avenida Pedro Álvares Cabral, onde os miúdos do liceu Pedro Nunes faltavam às aulas para jogar bilhar e matraquilhos; de rebanhos de ovelhas que atravessavam a 2ª Circular e de automóveis que, durante a semana, permaneciam tapados por lonas.
Finalmente chegamos a um espaço onde Luís recorda o barulho de bolas pesadas contra uma tabela, onde se ouvia o altercar de vozes anunciando o tempo que faltava para o fim do jogo. É neste lugar que se celebra o jogo da laranjinha, em tempos muito famoso em Lisboa.
“É a versão portuguesa da petanca francesa, mas que não é um jogo de praia, é um jogo de vinho, de tabaco, de palavrões, é jogado dentro de casa numa atmosfera irrespirável, é um jogo de grandes disputas e zaragatas”, relembra Luís.

Nos anos 80, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa Kruz Abecassis subsidiou campos de coletividades para que ali nascessem campos de laranjinha, fazendo assim renascer o jogo. Na altura em que Luís fotografou esta modalidade, havia seis campos em Lisboa. “Era um jogo que era um ritual, e as altercações das pessoas surgiam intercaladas com os sons das bolas, era uma coisa linda!”.
Mas que, como quase tudo que Luís fotografou, também se esfumou no tempo.
Às disputas de laranjinhas, segue-se a memória dos bailes das coletividades, que remetem para a ligação das gentes de Lisboa à província.
Luís recorda fotografar na coletividade Amigos do Minho, da qual acabou por ser corrido quando uma sua fotografia serviu de prova para uma mulher de que o seu marido andava a dançar com outra!
Anos depois, em 2009, o Festival Todos realizou uma sessão nos Amigos do Minho e convidou Luís Pavão para fotografar. “E não é que grande parte das pessoas eram as mesmas! Muito mais velhas, mas continuavam fiéis!”, partilha, deliciado.
Às danças, juntam-se os ensaios das marchas – essas, que ainda resistem, e com força!

A Lisboa do futuro
A chegada do novo milénio e as transformações na cidade de Lisboa trouxeram novos objetos para a lente de Luís Pavão. Nos anos 2000, tudo mudou. “Senti-me fascinado pela modernização de Lisboa e quis fotografar essa nova Lisboa que estava a surgir. Se até agora se olhava para trás a pensar ‘isto vai acabar’, aqui tive outra atitude: estou a dizer ‘isto vai ser o futuro’.”
A demolição do Casal Ventoso, o fascínio da nova arquitetura, uma cidade que crescia para lá dos seus limites… tudo isso faz parte do último destino desta exposição. Mas agora, 20 anos passados desde o novo milénio, o fotógrafo não vê a mudança de forma positiva: “A cidade mudou, mudou tanto que perdeu as suas características, as suas raízes…”.
Ciente de que a mudança nas cidades é inevitável, discorda da forma como ela se impôs em Lisboa: “É inevitável que as cidades mudem, mas às vezes podiam mudar de forma menos agressiva, e ter atenção a estas coletividades, a estas tabernas, a estes espaços tradicionais…”.
Como vê hoje então a sua cidade, olhando para o passado que ele próprio guardou em cada fotografia?
“Vejo Lisboa com muita angústia, Lisboa perdeu muito, sucumbiu ao dinheiro. Mais do que ao turismo, foi às grandes marcas, tudo isso toma conta de tudo e hoje Lisboa tem as mesmas coisas que Madrid, Barcelona, Paris…”.
Uma Lisboa que deixou de ser a da suas fotografias.


Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
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Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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