O músico Bispo voltou à escola onde, em pequeno, começou a escrever versos. Em novembro, foi convidado por uma professora da EB Ferreira de Castro para conversar com os alunos do presente sobre as suas glórias e passado musical do rap em Algueirão-Mem Martins. Dito assim, parece algo nostálgico e antigo, mas não é. Bispo contou uma história de modernidade, de como Mem Martins marca o rap e o hip hop em Portugal. E uma história de superação, de um sítio onde inusitadamente nascem estrelas – mesmo quando todas as probabilidades apontavam no sentido contrário.

Sorridente e nostálgico, Bispo conta que foi numa velha mesa de pingue-pongue, já fora da escola, que aprendeu a aperfeiçoar as suas letras com um amigo, um rapper já mais experiente chamado BTG.

Hoje, é ele a estrela.

E um dos que influenciam as novas gerações. Novas ou mais velhas, como um “rapaz de 41 anos que há pouco tempo lhe disse que ele o estava a influenciar a fazer rap. “Disse-me: quero ir a um estúdio porque quero gravar e vou pagar a masterização porque quero meter a minha música com qualidade no YouTube e no Spotify, mesmo que não dê para ganhar dinheiro. Não são só crianças, todos nós temos sonhos.”

Bispo na Escola Ferreira de Castro. Foto: MarisaOwnsACamera

É com os “sonhos” de tantos em mente que embarcamos numa viagem pelo último subúrbio da Linha de Sintra, antes da vila e da serra, Algueirão-Mem Martins. Durante anos, foi a freguesia mais populosa da Europa — e mantém-se como a de Portugal. Além disso, tem uma população bastante jovem. O que pode ajudar a explicar que o rap seja tão forte aqui.

“Acho que tem a ver não apenas com o número de jovens, mas com as várias misturas culturais”, argumenta o produtor Gonçalo Oliveira, editor da plataforma Rimas e Batidas e natural de Mem Martins. “O hip hop era uma língua que facilmente servia de elo para juntar toda essa diversidade na escola. Lembro-me de ter tido colegas cabo-verdianos, angolanos, ucranianos, sul-africanos e brasileiros, e por norma o hip hop era um gosto comum.”

Bispo acrescenta que “o rap tinha a questão de passares uma mensagem, o que estavas a sentir, a tua felicidade ou a tua revolta. E uníamo-nos para ouvir. Jogávamos Mega Drive ou Nintendo a ouvir Boss AC. Tínhamos uma hora e meia de almoço e juntávamo-nos na casa de um amigo a ouvir rap, os freestyles também são uma cena de amigos e convívio.”

Fumaxa, produtor, atira uma outra hipótese: “Não sei se é por estarmos no fim [da linha] de Sintra, se é por não termos mais nada… Nós para irmos para Lisboa é mais complicado do que uma pessoa que, sei lá, viva na Amadora. Não temos muitos transportes, estamos na periferia, aqui não se faz mesmo nada.”

Uma coisa é certa: “Em termos de rap? Ninguém em Portugal pode falar connosco”, Eu não sei o que é que a água de Mem Martins tem…”, brinca Fumaxa. “Da mesma maneira que respeito o que a Margem Sul fez pelo rap nos anos 90, Mem Martins teve uma importância grande nos últimos 10 anos.”

Talvez seja uma dessas explicações ou todas elas que contribuíram para esta cultura urbana, forte, pujante e até certo ponto desconhecida para muitos. Ninguém sabe muito bem a resposta. Ao longo dos anos, Mem Martins tornou-se um bastião do hip hop em Portugal. Uma das zonas que certamente terão mais rappers por km quadrado. E tudo começou numa rua.

Nesta reportagem:


Uma rua chamada Pinga e o bairro KS… D

O ponto de partida deste roteiro do rap de Mem Martins é a Rua Artur de Sousa, em homenagem ao futebolista que ficou mais conhecido como Pinga, madeirense que foi durante o final dos anos 1940 um dos melhores jogadores portugueses, no FC Porto.

No Casal de São José, as ruas homenageiam heróis da bola, mas a vida fá-lo com outros heróis: este é o bairro que é um forte candidato a capital do rap. Um dos poucos bairros sociais desta freguesia, que serviu para realojar quem dantes vivia ali em barracas, mas também pessoas de outros sítios, foi imortalizado na música (e na gíria local) como KS Drama, termo cunhado pelo rapper Landim e apropriado anos mais tarde por Julinho KSD e tantos outros.

A rua do Pinga de que se fala. Foto: Inês Leote

Foi aqui que muitos dos pioneiros do hip hop cresceram juntos e deram os primeiros passos. Logo nos anos 90, com os Da Blazz — inspirados por referências nacionais como a compilação “Rapública” (1994) e nomes como Boss AC ou General D. Eram seis elementos: Dinga, Drayzze, Blayzze, Jay, Jungle e Vatta. E já cruzavam o português e o crioulo cabo-verdiano para escreverem as letras.

“Tem a ver com a nossa vivência. Desde que nascemos que levámos com as duas línguas ao mesmo tempo, por isso para nós era natural”, explica Dinga, cujos pais são de Cabo Verde. O que não era tão normal, naquela altura, era este género de música chamado rap e esta cultura suburbana conhecida como hip hop. Não era socialmente aceite como hoje. Soava estranho, e o mainstream não percebia bem o que aquilo significava. Os Da Blazz, conta Dinga, foram confrontados com esses preconceitos e discriminação. Como todos os pioneiros.

Ilustração: Onun Trigueiros

“Tínhamos dificuldades em arranjar estúdio, e levávamos com o preconceito: estes gajos do rap e da street! Hoje é natural um miúdo querer fazer rap, os papás darem apoio e está tudo bem. Na altura, olhavam para nós e disseram: vocês não vão gravar aqui. Éramos conotados com a marginalidade. Ou com sermos agressivos. Não foi fácil encontrar a primeira editora que nos quis apoiar. E os nossos pais também não percebiam aquilo.”

O primeiro contrato foi com a editora de música tradicional Sons d’África, sedeada na Amadora. Um dos filhos do dono tinha gostado do que ouvira do grupo de Mem Martins. O primeiro álbum foi lançado em 1999: “Catchores Di Pinga”.

E é um título que tem uma explicação local. “As cotas, quando vínhamos das festas a fazer barulho, chamavam-nos catchores (cães em crioulo), e nós até gostávamos por causa do ‘my dawg’ dos Estados Unidos, que ouvíamos no rap americano. E diziam: catchores lá di Pinga”, referindo-se à tal Rua Artur de Sousa, ou Pinga, onde viviam. Acabaram por adotar a expressão para se referirem a eles próprios.

Este primeiro disco teve uma repercussão sobretudo local, e noutros bairros periféricos de Lisboa. O segundo álbum, “Dados” (2002) —mais maduro e elaborado, com canções mais apelativas para um público maior — trouxe um single que se tornaria conhecido a nível nacional, e que também chegaria com impacto a Cabo Verde: “Rola Dodo”, https://www.youtube.com/watch?v=sd4GHiv5VTE a canção do “charuto cubano”, cujo videoclip passava diariamente no canal Sol Música e que apresentou muitos à música dos Da Blazz.

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A Tapada das Mercês, um dos berços da Força Suprema

Se o Casal de São José pode ser a capital do rap, a freguesia de Mem Martins é a sua pátria. Na Tapada das Mercês viviam, na segunda metade dos anos 90, vários elementos de um dos grupos mais influentes do hip hop lusófono: NGA, Masta, Don G e Prodígio, todos da Força Suprema, que progressivamente ganharia uma expressão forte em toda a Linha de Sintra, com NGA a auto proclamar-se “rei da LS”.

Hoje, são rappers que enchem grandes salas de espetáculo, vistos como verdadeiros ídolos em Angola, o país de origem de todos. Na altura eram apenas miúdos a começar. Foi aqui que gravaram em 1998 uma primeira maquete, “Explosão Lírica”, e formaram um grupo alargado de afiliados que se tornaria conhecido como a Street Niggaz Krew (ou, simplesmente, SNK).

Foi desse contacto com a génese da Força Suprema que se ergueu uma das principais referências históricas no rap da Tapada das Mercês, Yannick TDM – TDM é mesmo o que parece, o acrónimo de Tapada das Mercês. Não é à toa que muita da toponímia aparece no nome destes grupos: é honrar a origem, o orgulho do lugar. Como que a pôr em causa a noção de periferia. Esta é o centro da vida de todos estes músicos.

Ilustração: Onun Trigueiros

Yannick TDM começou a escrever rimas por volta de 1998 com um grupo de amigos, com quem formaria os Kid MC’s. “Os Força Suprema davam-nos muito apoio, estavam sempre connosco. O NGA direcionava-nos muito com a sua visão”, conta. Deram um primeiro concerto em 1999, na Escola Secundária Leal da Câmara, em Rio de Mouro. Yannick TDM andava na Visconde de Juromenha, com Masta, o seu irmão BG e um “miúdo mais novo, muito bom no freestyle” que na altura dava pelo nome de Black Devil e que mais tarde se tornaria Prodígio.

Depois de algum tempo afastado da música, Yannick TDM voltou ao ativo por volta de 2007. Foi quando conheceu Thug Paxion, irmão de um músico já estabelecido chamado Celso OPP. “Juntámo-nos e começámos a fazer música. Basicamente, foi assim que nasceram os TDM. O Pina G e a G Fema também fizeram parte, e costumávamos gravar os nossos sons na Portela de Sintra, no estúdio da BigBig Family.”

TDM é a sigla para Tapada das Mercês, mas também ganharia o significado alternativo “Tropas de Morte”, com que batizaram a mixtape que lançaram em 2008. Dois anos depois, seria a vez do álbum “Afirmação Total”. A partir daí, cada um seguiria o seu caminho e Yannick TDM focar-se-ia nos projetos a solo, sempre com um rap “interventivo e educacional”.

“Sempre quis tentar salvar os jovens, porque era muito fácil meteres-te na delinquência e por caminhos obscuros. Essa sempre foi a nossa mensagem”, conta.


A segunda geração em Mem Martins: a importância dos Young Thugz

A música nunca abandonou o Casal de São José, e assim foi com Singa, hoje com 34 anos, que se mudou para aqui com 7, vindo com a família de Angola quando, nos anos 90, apesar de ainda haver barracas nas redondezas, vários moradores já terem sido realojados nos prédios. Inspirado pelos Da Blazz, Singa começou a fazer rap com 14 anos, já em 2004, com um colega de turma que assinava como BTG.

“Ele tinha grandes ideias, eu tinha um PC lixado, então juntámos o útil ao agradável.” Uniram-se a T-One e estavam assim compostos os Young Thugz. Uma das primeiras faixas foi gravada no estúdio dos Da Blazz, o Under G. “Chama-se ‘Reflexões’, foi o nosso primeiro som oficial na Internet. Agradeço ao Jungle por nos ter apoiado e por ter estado lá. Curti da atitude dele em estúdio a puxar por nós. Nós éramos putos, eles eram mais experientes. Ele abriu-nos várias portas, deu-nos várias ideias”, relembra.

Ilustração: Onun Trigueiros

Em 2005, os Young Thugz apresentavam o seu primeiro disco, “Eternamente Recordados”. Feito à moda antiga, tudo escrito e gravado praticamente na hora, com um espírito muito espontâneo. Foi gravado no sótão da casa de Singa, a mesma onde ainda hoje vive, e onde no mesmo estúdio caseiro. Por oposição aos Da Blazz, os Young Thugz procuravam um registo de rap de rua, com uma estética mais crua, ainda que as letras transmitissem sobretudo mensagens positivas e procurassem soluções para os problemas que os atormentavam.

Começaram a usar ostensivamente o termo “rap street”, que está cravado a graffiti nas paredes do bairro. Tal como os seus nomes. “Há muitas marcas nas paredes que estão aí há 15 anos”, aponta Singa. “Lembramo-nos de pessoas que estiveram connosco, evocam-nos memórias. E quando estás por dentro captas os códigos e os tags que aqui estão.”

A partir do seu estúdio Singa fundou a Fitcha Broca Recordz, um selo de rap, através do qual começou a colaborar com outros artistas. “A partir daí muita gente começou a conectar-se connosco.” À medida que o acesso à Internet se generalizou e se tornou mais simples adquirir câmaras e outros materiais técnicos, Singa aprendeu também a filmar e a gravar videoclips. Tornou-se um realizador importante no rap ao dirigir vídeos para artistas como Loreta, Timor ou Landim.

“Queria dinamizar o rap street, desenvolver a cena, havia pouca gente que filmava”, recorda. “Na altura usávamos o que tínhamos e fazíamos acontecer. O primeiro videoclip que fiz foi para a ‘Eu Não Me Rendo’. A qualidade não era a melhor, mas para a altura… E depois fomos evoluindo. Fazíamos um pouco de tudo: captação, mistura, masterização, vídeo. Quando estás dentro da música, queres que apareçam talentos novos, queres que as pessoas não escondam o talento delas e eu acabei por estar aqui a puxar por isso.”


O príncipe do rap crioulo, Landim

Landim mudou-se para o Casal de São José com 8 ou 9 anos. “Eu vim do gueto e os primeiros tempos aqui foram difíceis, porque este era um bairro difícil”, diz, referindo-se ao facto de ter passado os primeiros anos na zona de Matarraque. “Eu era novo, então demorou o seu tempo até me entrosar. Mas depois de crescer aqui com os rapazes e de os conhecer, passámos por bué cenas juntos.”

Os Da Blazz e outras referências nacionais do rap crioulo foram as suas principais inspirações para se iniciar no hip hop. O gatilho, porém, foi uma faixa gravada noutro bairro que satirizava o Casal de São José. Uma série de jovens juntaram-se para responder, mas foi Landim quem se destacou nessa primeira faixa que gravou com apenas 16 anos. Pouco tempo depois, entre 2007 e 2008, lançou “Orienta”, o primeiro tema com impacto significativo. E só se apercebeu da sua dimensão quando a começou a ouvir nos comboios da Linha de Sintra, de MP3 em MP3.

Ilustração: Onun Trigueiros

Foi nos Young Thugz e na Fitcha Broca Recordz que encontrou a família com quem pôde aprender e crescer. “Eles já estavam mais organizados e estáveis, também por serem um grupo”, conta. “Já tinham o estúdio na casa do Singa, já tinham concertos, uma vida de artistas no início. Por sermos do mesmo bairro, associámo-nos logo e os manos deram-me a mão para eu começar a gravar os meus primeiros projectos. Como o ‘KS Drama Vol. 1’. Eu já via neles aquilo que eu queria fazer mais tarde: sons com temas, não era só escrever à toa. Os rapazes já tinham temas sérios, reflexões, já com refrões lixados cantados por damas, estruturas musicais ricas. Um gajo aprendeu muito com eles.”

Landim tinha também como objetivo o rap de rua, underground, com uma componente “mais sombria e crua”. Em 2012, lança o álbum “Rap Krioulo 1 Nation”, que teria seguimento no ano seguinte com o aclamado “Kamikaze”, que o consolidaria como um dos nomes mais importantes, em particular no circuito do rap em crioulo cabo-verdiano, a origem dos seus pais. Desde então, de “Renascimento” a “Programa”, não têm faltado projetos que só têm contribuído para elevar ainda mais esse estatuto.


Fumaxa, produtor-chave com o toque de Midas

Rap, território, amizades. Esta é a história que perpassa todas estas gerações da árvore genealógica dos músicos de Algueirão-Mem Martins. Com Fumaxa foi também um skate e começou quando ele partilhava esse gosto tão à maneira do hip hop com BTG, dos Young Thugz. Filho de pais guineenses, Fumaxa nascera no Barreiro mas mudou-se ainda em criança para Mem Martins.

“Depois conheci o resto do pessoal do Casal de São José e do bairro de São Carlos [outra zona em Mem Martins]. Na altura, tiveram bué força no rap da zona. Havia os Dialectos, que eram o Brocas e o Difu, e foi aí que começou a minha cena no rap. Parávamos todos em São Carlos e dávamos freestyle.”

Em 2006, Fumaxa mudou-se para Londres onde viveu seis ano e conheceu vários rappers e produtores portugueses. Quando regressou, em 2012, deparou-se com uma “época dourada” no rap de Mem Martins: os Young Thugz lançam os vários volumes de “Moneypulação” e Landim já tornara um nome de peso no movimento hip hop.

Ilustração: Onun Trigueiros

É nessa fase que Fumaxa deixa para trás as letras e se agarra aos instrumentais, iniciando a sua jornada como produtor. “Foi uma era muito bonita, com a força toda da Fitcha Broca Recordz, os Young Thugz, o Landim, o Thug PKP que é da Serra das Minas mas também parava lá connosco…”

É também nessa altura que o seu caminho se cruza com o de Bispo, que estava precisamente a começar a levar a música mais a sério. O jovem rapper procurava instrumentais para construir as suas faixas, Fumaxa queria distribuir beats, portanto era uma situação vantajosa para ambos.

Fumaxa recorda um episódio caricato: “O meu computador estava muito lixado, ligava e desligava quando lhe apetecia, até tinha um buraco. O Bispo queria beats, mas aquilo não ligava. Foi uma luta. Quando ligou, consegui enviar-lhe apenas dois beats, queria enviar mais mas o PC nunca mais se ligou.”

Para a história fica que um desses instrumentais acabaria por ser um dos primeiros grandes êxitos de Bispo: “Mentalidade Free” — que é hoje também o nome da sua marca de roupa e acessórios. “A partir daí fomos para a estrada, comecei a ser DJ dele”, conta Fumaxa. A dupla faria em 2017 o EP conjunto “Fora D’Horas”. E Fumaxa afirmar-se-ia como um dos grandes produtores da sua geração, trabalhando com artistas tão diversos como Slow J, Branko, Richie Campbell, Julinho KSD ou Van Zee, entre tantos outros.


Um Bispo de Mem Martins

Pedro Bispo é hoje um dos grandes ícones do rap. Não só de Algueirão-Mem Martins. Nacional. Mas foi aqui que começou a rimar, de forma totalmente descomprometida. Mas a sua música ganhou uma dimensão pop ao longo dos anos e atualmente é um dos rappers mais ouvidos em Portugal. Em novembro, foi distinguido com o prémio Best Portuguese Act nos MTV Europe Music Awards, em Paris. Tudo começou na velha mesa de pingue-pongue, junto a um ringue de futebol, com a ajuda preciosa de BTG, dos Young Thugz.

Ilustração: Onun Trigueiros

“Quando saíamos da escola, eu e o BTG vínhamos para aqui, com um skate e cadernos, e escrevíamos nesta mesa que ainda está aqui de pé”, conta, olhando para ela. “Eu morava a 100 metros daqui, naqueles prédios cor-de-rosa”, aponta. “O BTG era mais velho, ele é que me passou um CD do Sam The Kid e outro dos Mind da Gap.” Bispo tinha 10 ou 11 anos. “Eu só escrevia quadras. O BTG mostrava-me o caderno dele e dizia: puto, tens de escrever uma folha inteira sobre um tema. Não podem ser só quatro linhas. Aborda o tema! Quatro linhas não são suficientes.”

Os Da Blazz foram a referência local. “Eram-me mais próximos, conhecia pessoas que eram amigas deles. Eram da minha zona, tinham um CD, os meus vizinhos tinham o poster deles na parede do quarto… Aquilo tudo meio que mexeu comigo, acho que me deu uma força extra. Pensei: um dia também vou querer ter um CD com um poster, algo que fiz mais tarde quando lancei o ‘Mais Antigo’.”

Bispo nunca chegou a ter uma cópia do álbum “Dados”, nem o poster que o acompanhava, mas algo muito melhor estaria para acontecer. Bispo já escrevinhara os primeiros versos e até já tinha feito uma ou outra gravação muito rudimentar, quando recebeu um convite irrecusável. Tinha apenas 13 anos.

“Estávamos todos na rua, o Vatta dos Da Blazz aparece e diz: putos, quem é que quer vir ao estúdio?”, recorda. “Ele levou-nos a Ouressa, tivemos de atravessar o monte, e eles tinham lá o estúdio numa garagem. Foi mágico. Tinha uma espécie de varanda, onde gravavas, e tudo aquilo me estava a fascinar. As músicas que eu tinha gravado tinham sido em casa, com um microfone de chat. Foi a minha primeira vez num estúdio. Era a sério! E o Vatta disse: ‘Vá, putos, vamos escolher um beat e comecem a escrever’.”

Bispo em Mem Martins. Foto de André Serra.

Vatta era o membro dos Da Blazz com maior inclinação para apadrinhar os mais novos, como admitem hoje vários membros do coletivo. “O Vatta é o nosso membro mais velho e ele, desde sempre, mesmo quando estávamos no top, tentou captar os putos. Ele era o padrinho dos putos todos que queriam fazer qualquer cena. E isso também motivou muita gente”, conta Dinga.

O resultado foi “La Di Pinga”, mais uma vez uma referência toponímica ao Casal de São José, uma faixa que também contou com a participação de Landim. “Saímos dali com uma música gravada. Foi: eish, o Vatta dos Da Blazz gravou connosco! Proporcionou-nos o estúdio e, além disso, gravou connosco! Esse dia, sem dúvida alguma, deu-me muito moral. Foi uma grande experiência e talvez tenha sido crucial para o caminho. Abriu-me portas para eu querer viver aquela experiência outra vez.”

Apesar desse episódio Bispo não esteve inteiramente focado no rap na adolescência. Gostava de escrever e participar em improvisos, mas também jogava futebol, andava de skate e… estava ocupado com as primeiras namoradas.

Mas um par de anos mais tarde, numa romaria popular de Mem Martins, Vatta chamou-o, e ao Landim. “Ele disse: vocês vão ser o futuro dos Catchores Di Pinga. Aquilo entrou-me na cabeça. Disse: vocês têm que se juntar, vão ser o futuro. Meio que, quando arrumarmos as botas, são vocês que têm que dar continuidade à cena. E aquilo encheu-me completamente. Saí de lá a pensar: está a passar-nos o testemunho assim? Não levei a cena a sério no dia a seguir, de ir logo fazer música… mas aquilo ficou-me.”

Bispo
Bispo: “Aquele mitra que estava no último banco do autocarro a ouvir som muito alto”. Foto: André Serra

Só em 2012, já adulto, e com muitos outros incentivos de amigos, é que Bispo começou a dedicar-se a sério à música, quando decidiu gravar a mixtape “Recomeço” na casa de Nastyfactor. E mais uma vez, a geografia foi importante. “Ele apanhava o mesmo autocarro do que eu, acho que era o 58. E houve um dia qualquer que se fez o clique e ele disponibilizou-se para eu ir a casa dele gravar a primeira mixtape.”

Nastyfactor — que criara os GROGNation naquela altura com o seu primo Neck, os amigos Papillon, Harold e Prizko, entre outros elementos que depois deixaram o grupo — confirma a história. Recorda que Bispo era sempre “aquele mitra que estava no último banco do autocarro a ouvir som muito alto”. “É engraçado porque as coisas acabam por se interligar todas. O Bispo originalmente também era do Algueirão, como eu, e as nossas famílias já se conheciam, as nossas avós davam-se muito bem.”


GROGNation, um super-grupo de 2725

Estas são histórias de rap e bairrismo forte. Tão forte que o próprio Nastyfactor, ou António Silva, se considerava um outsider em relação ao rap de Algueirão-Mem Martins. Embora fosse da mesma freguesia, fora criado numa “zona mais rural” da parte velha de Algueirão, na ponta oposta ao Casal de São José, não crescera com a cultura hip hop tão presente à sua volta, até porque frequentara um colégio privado até chegar à escola secundária.

“A minha envolvência no hip hop começou pelo graffiti. Andei nos escuteiros aqui em Mem Martins e foi assim que conheci pessoal mais velho, com 15 ou 16 anos. E nos escuteiros apanhavas todo o tipo de pessoas: desde o filho do dentista a um miúdo cujo irmão vendia erva à janela. Apanhavas uma grande variedade.”

Ilustração: Onun Trigueiros

Alguns dos miúdos mais velhos que faziam graffiti vestiam-se à hip hop e Nastyfactor foi apanhando a onda. Aos 11 anos, pediu um chapéu da Fubu como prenda. “Quando comecei a ouvir rap, lembro-me de procurar no YouTube por hip hop de Mem Martins e de ver vídeos dos Young Thugz. Obviamente, também já tinha ouvido Da Blazz, por causa do ‘Rola Dodo’, mas não me era uma cena próxima.”

Mesmo no colégio já tinha um “pequeno grupo” de amigos que ouviam rap, numa altura em que o género não era muito bem visto. Quando entrou para a Escola Secundária de Mem Martins foi um mundo totalmente novo. “Senti mesmo que aquilo era diferente. Ali ouvia-se rap, mas também kuduro e outros tipos de música urbana.”

Ali conheceria aqueles com quem formaria o coletivo GROGNation, que se apresentaria com a mixtape “Segunda Vaga”, em 2012. “Dropa Fogo”, no ano seguinte, fá-los-ia chegar mais longe. E depois, seriam discos como “Sem Censura”, “Na Via” e “Nada é por Acaso” que afirmariam o seu nome a nível nacional.

Os GROGNation chegaram ao fim em 2022, quando vários dos seus elementos — nomeadamente Papillon, Nastyfactor e Harold — já se tinham emancipado e começado percursos a solo. Mas, mais uma vez, as raízes sempre estiveram lá: quando se estrearam no festival Sudoeste, por exemplo, levaram para o palco uma bandeira da freguesia.


A ascensão pop de Migz, e o fenómeno Julinho KSD

A história do rap de Algueirão-Mem Martins vai longa mas não terminou. Aliás, na última meia dúzia de anos, novos protagonistas apareceram. Um deles é um discreto produtor que assina como Migz. Nascido em 1992, viveu em Mem Martins até aos 12 anos, até se mudar para Santo Tirso, no norte. Antes de entrar no universo do hip hop, foi DJ de música eletrónica. Mas sempre ouviu muito rap, inclusive referências da zona onde crescera e que havia deixado.

“Quando eu morava em Mem Martins, os Da Blazz eram um grupo que os rapazes da escola ouviam muito. E mesmo quando vim para o norte, também ouvia muito o Landim. Por ser de Mem Martins comecei a acompanhar os rapazes e a ver que estavam a conseguir furar, como o Bispo e os GROG. Sempre os ouvi e acompanhei”, conta.

Foi em 2014 que um amigo o apresentou a Fumaxa. “Ele é uma peça muito importante na minha vida a fazer música”, diz. Num par de concertos de Bispo no norte, Migz começou a entrosar-se na comitiva. Especialista em som, juntou-se à equipa durante cerca de um ano. “Por volta de 2016 ou 2017 começo a fazer um bocado de tudo, eu não era técnico de som mas ficava à beira do técnico da casa a dizer como é que queria o som, ajudava-os na estrada, fazia um bocado de road manager”, explica. “E foi assim que fui conhecendo a malta.”

Ilustração: Onun Trigueiros

Como Fumaxa compunha instrumentais, o processo criativo despertou uma certa curiosidade em Migz. “Foi ele que me ensinou, por exemplo, a samplar. E a partir daí ganhei um gosto, porque, quando começas a fazer beats de rap, é muito viciante. Nós passávamos imenso tempo os dois e ele ensinou-me muita coisa.” Chegaram a criar um coletivo de produção a três, com Rubik, ao qual deram o nome de Dirty Doc.

Depois de Bispo, Migz conheceu Landim que se tornou muito importante na sua carreira. Eu moro mesmo ao lado do Casal, tenho muitos amigos ali e ia frequentemente ao bairro para estar com eles. Conheci o Landim e até começarmos a fazer a primeira música foi rápido.” O primeiro tema seria o single “Na Mó Di Dios”, que teve grande impacto. “O Landim deu-me uma exposição enorme. Ele é respeitado por toda a gente na indústria. Para mim é o maior rapper crioulo de sempre.”

Julinho KSD, como o nome indica também ele nascido no Casal de São José, um ano antes de os Da Blazz lançarem o seu álbum de estreia. De seu nome Júlio Lopes, começara a rimar na adolescência e formou o grupo Instinto 26 com Trista, Yuran e Kibow. “Todos eles ouviam GROGNation”, recorda o manager do coletivo, Miguel Pedro. “O Kibow ouvia muita Força Suprema também. O Julinho é mais influenciado pela cena de KS Drama, do Landim, do Singa e dos Da Blazz. Acredito que o Fumaxa também tenha sido influente. Lembro-me de que o Fumaxa lhes deu um beat. Nunca avançou, mas receber um beat do Fumaxa já era uma grande cena, era incrível.”

Ilustração: Onun Trigueiros

O sonho original de Julinho, na verdade, era ser jogador de futebol. Poucos meses depois de uma lesão difícil que o fez perceber que teria de desistir da carreira desportiva, foi a Cabo Verde com a família —apenas a sua segunda visita ao país de origem dos pais.  

“Sentimento Safari” estava na gaveta, à espera de ser apresentada, mas saltou de repente para o YouTube — porque era necessária uma música nova prometida aos fãs e Julinho não estava em Portugal para gravar. O resultado ninguém podia prever. O single tornou-se num dos hits do ano e catapultou o nome de Julinho KSD para a ribalta, ainda não tinha regressado da viagem. Em breve assinou contrato com a Sony e começou a preparar o disco de estreia, que seria “Sabi na Sabura” (2021).

Já Fumaxa era DJ do grupo de novatos. Tanto ele como Migz foram peças fundamentais na produção de “Sabi na Sabura”, um álbum onde também se incluíram temas de enorme sucesso como “Vivi Good”, “Stunka” e “Hoji N’ka ta Rola”. E vice-versa.

Outro single importante nesse período foi “The City is a Jungle”, produzido por Fumaxa (com a ajuda de Migz e outros colaboradores), com participações de Julinho KSD e Richie Campbel, e o videoclip foi gravado no Casal de São José. “O Julinho foi quem me levou para cima, consegui fazer um projeto mainstream e toda a gente passou a olhar para mim com uns olhos diferentes”, explica Migz que continuou a trabalhar com o cantor e passou a colaborar com nomes pop como Bárbara Bandeira, Syro ou até Paulo Gonzo. Mais do que isso: Migz trouxe amigos de Santo Tirso, nomeadamente Janga, que se tornou técnico de som de Bispo ou Ivandro, e o fotógrafo e videógrafo Vítor Pream, muito associado à Bridgetown de Richie Campbell.


A vanguarda de Tristany Mundu

Às vezes é preciso sairmos do lugar onde vivemos para lhe percebermos todo o potencial. E, mais uma vez, vice-versa. Foi numa viagem prolongada a Londres que Tristany Mundu (irmão de Trista, dos Instinto 26) encontrou uma outra Linha de Sintra, um lugar mais moderno mas para onde tinham emigrado muitos dos seus amigos e conterrâneos.

Isso e o facto de estar a estudar design gráfico e a relacionar-se com uma certa elite artística e cultural do centro de Lisboa marcaram a vida deste artista multifacetado, que em breve iria redescobrir a sua identidade como válida e, mais que isso, valiosa. E haveria de usar os elementos característicos dos subúrbios de Lisboa, desde os fatos de treino às kizombas ouvidas em convívios. Tristany descobriu que havia beleza e valor no seu contexto e que fazia sentido explorá-lo, no seu caminho singular.

Ilustração: Onun Trigueiros

A “sintranagem”, como lhe chama, arrancou oficialmente em 2018, com “Rapepaz”. Tristany afastou-se da tradição do hip hop, mantendo as raízes, em busca de um registo mais exploratório. A partir daí, os embalos afro, a eletrónica ou o fado e o soul embrenharam-se na sua música atmosférica. O álbum “Meia Riba Kalxa” (2020) veio confirmar a promessa ao tornar-se aclamado como um disco vanguardista.

Artista multidisciplinar e membro essencial do coletivo Unidigrazz, Tristany tem vindo a solidificar o seu estatuto num circuito mais alternativo e experimental, acrescentando valor ao diverso panorama artístico de Algueirão Mem Martins.


“Mad Max está no mapa, do Algueirão ao K”: fazer pela zona e pelas novas gerações

Quando olhamos hoje para o mapa artístico da freguesia no campo do rap, são muitos os nomes que permanecem sobretudo relevantes ao nível local, mas também são vários os exemplos que se tornaram artistas de dimensão nacional — alguns alcançando mesmo uma esfera pop. A ideia de retribuição, e de poder dar oportunidades aos jovens locais, está bastante presente junto de todos aqueles com quem falámos.

“Quero estar envolvido com o sítio que é o meu berço, o sítio que me viu crescer, perder, vencer, chorar, sorrir, cair, levantar e repetir”, assume Bispo, com quem conversamos no dia em que foi convidado para voltar à sua antiga escola, a Ferreira de Castro, para participar numa sessão com os alunos.

Em termos mais concretos, Julinho KSD está a preparar um estúdio e agência chamada Kuza Doxi.

“Há muito talento em Mem Martins e o Julinho sempre quis dar aquele suporte financeiro que ele não teve e que nós não tivemos no início”, adianta Miguel Pedro. “Mas como não se brinca com o sonho das pessoas, estamos só a pegar num caso neste momento, o Harley KSD, para experimentarmos. Estamos a gostar muito, apesar de ser difícil orientar a carreira de um artista. Nós fazemos questão de o ajudar a nível pessoal e de carreira. Mas o Julinho tem uma lista maior de nomes que quer ajudar no futuro.”

Ilustração: Onun Trigueiros

Singa, que com o passar dos anos não tem estado tão ativo enquanto rapper, tem sido um dos orientadores regulares do estúdio que funciona no espaço associativo integrado no programa Escolhas no bairro, que envolve as crianças dali (e das redondezas) em múltiplas atividades. Ali organizam-se workshops ligados ao rap.

“Estamos a tentar desenvolver algo com os miúdos de 12 ou 13 anos para que sejam a próxima geração a brilhar. Isto exige trabalho! O conselho que costumo dar é: não se percam, isto aqui é que é tempo ganho, tentem fazer arte. Dou sempre essa dica aos miúdos. Eles até podem nem estar a ligar muito, mas quando eles sentem a sua voz por cima do instrumental vão ficar ‘wow’. E foi assim que aconteceu. De repente já tinha muitos miúdos atrás de mim: então, Singa, quando é que vamos gravar? Isso é muito importante. Estamos a tentar passar a informação para a próxima geração para que isto continue sempre.”


O legado e a união das diferentes gerações

Naturalmente, um dos grandes fatores para que nasçam novos artistas é a influência direta de referências locais já estabelecidas. “Depois dos Da Blazz, não queríamos deixar a zona ir abaixo em termos de música”, admite Landim, que também se tornou uma inspiração para tantos.

Bispo, que tem um público mais jovem e abrangente, assume que recebe bastante feedback de “miúdos que querem começar a rimar”. Uma das pessoas a quem deu a mão neste trajeto chama-se Ivandro.

Criado em Rio de Mouro, andou na Escola Secundária de Mem Martins e tornou-se back vocal nos concertos de Bispo, que já conhecia o irmão mais velho. No estúdio, foi Ivandro quem tratou de gravar e misturar, por exemplo, vários temas de Julinho KSD e dos Instinto 26. Não demorou muito até ele próprio se emancipar de Bispo e lançar a sua carreira a solo, num registo mais R&B e pop que o levou, em 2022, a tornar-se o artista português mais ouvido do ano no Spotify.

Embora não tenha uma dimensão tão astronómica, Nastyfactor recebe no seu estúdio local jovens músicos em busca do sonho. Os próprios GROGNation foram uma influência para muitos.

“O Julinho já me falou da motivação que nós lhe demos enquanto mais velhos que estavam a tocar em festivais: se eles conseguem e são daqui da zona, nós também conseguimos e vamos fazer. As gerações vão-se influenciando e há sempre ligações. Lembro-me de ouvir sons do Intakto, do Mocho e do Paiva no MySpace, e as minhas primeiras colunas de estúdio, que ainda são as que tenho em casa, foram as que comprei ao Intakto. E ele produziu o primeiro EP do Bispo e também foi uma pessoa muito importante.”

Numa zona periférica onde “infelizmente se encontra tudo o que existe de menos bom”, descreve Fumaxa, é particularmente importante que haja “influências que deem a capacidade de sonhar”.

“Ver o que o Landim fez, por exemplo, permite-nos sonhar. Na altura, ir tocar a um sítio como ele tocava era como se estivéssemos a fechar o Alive ou o Sudoeste. Era pouco, mas para nós era muito, porque nós nunca imaginámos que iríamos conseguir ter impacto em tanta gente. Um gajo tem de aproveitar ao máximo e inspirar o máximo de pessoas que puder, temos de abrir portas para todos.”

Landim sublinha que Mem Martins e, em particular, o Casal de São José, é bastante unido e que isso beneficia todos. “Apoio entre nós não falta. Sempre que a gente lança uma cena, temos uma espécie de pré-acordo entre todos, em que partilhamos todos. Toda a gente pega e partilha, é tipo lei. Nós agora andamos a apertar com o Singa a ver se ele lança qualquer coisa. Quando ele lançar, vamos todos partilhar e ele vai beber da nossa água e vai ser sempre assim.”


Quem é que ainda aí vem?

A história não acaba aqui, continua a ser escrita por estes (e tantos outros) no dia a dia, nas ruas, em estúdios ou nos palcos, de forma solitária ou em grupo. Por exemplo, embora Julinho KSD já seja um nome de proa no rap e pop nacional, os Instinto 26 só vão lançar o seu disco neste ano de 2024.

“O Julinho teve o seu destaque inicial, acabou por abrir a porta e os rapazes foram atrás. Ainda não alcançámos aquilo que queremos alcançar, e o álbum vai ser um bom passo nesse sentido”, promete Miguel Pedro.

Muitos outros compõem o universo hip hop da freguesia.

Dino D’Santiago e Ary Rafeiro viveram ali.

Porchy, que tem feito carreira entre Londres e a Rússia, tem origens em Mem Martins.

Sippinpurpp, um dos nomes mais badalados da geração trap do hip hop português, é natural de Ovar mas reside na freguesia.

Nomes como Avan Gra, Topboy Blk, Sandro MM, Mike Find Mind, Killa SLT, Paulinho SZ, Monteiro, Batz, Solid Movement ou Danslarue, alguns novatos e outros com vários anos de experiência, vão deixando a sua marca num circuito mais underground.

O cenário fica ainda mais composto se tivermos em conta os fotógrafos e realizadores da freguesia ligados ao hip hop.

Todos os artistas que compõem esta história têm uma identidade distinta, embora também possa haver uma matriz geográfica.

“Não consigo encontrar um padrão audível”, comenta Gonçalo Oliveira. “No entanto, é normal virem-me imagens à cabeça consoante o que estou a ouvir. Comboios, fatos de treino, roupa contrafeita, meias a cobrir parte das calças (Meia Riba Kalxa), malta sentada nas escadas dos prédios a fazer penteados uns aos outros, futebol de rua, grelhados comunitários… É o tipo de coisas que via ao escutar Landim, Da Blazz, GROGNation, Bispo… Curiosamente, o Tristany combinou todos esses traços no universo de ‘Meia Riba Kalxa’, não apenas no som mas também em termos visuais, através de toda a arte plástica que ele e o pessoal da Unidigrazz têm vindo a fazer. Diria que esse disco pode muito bem ser visto como uma espécie de blueprint que consolida todas essas referências de três décadas numa só peça, e os quadros deles são autênticas fotografias daquilo que é a cultura urbana em Algueirão-Mem Martins.”

Tristany. Foto: Rita Ansone

25 anos após o lançamento do primeiro álbum, os Da Blazz assumem o “orgulho” que sentem ao verem “os putos novos” a alcançarem este sucesso. “Eles sempre tiveram um grande respeito e admiração por nós, sempre reconheceram muito o nosso contributo para a carreira que têm hoje, é muito bom sabermos que fomos uma influência positiva. Na altura nós dizíamos Catchores Di Pinga, depois passou para KS, agora fala-se no código-postal 2725. No fundo, estamos a falar da mesma zona! E desde 1999 que a nossa zona sempre teve um lugar na história do hip hop tuga.”



Ricardo Farinha

Nasceu em Lisboa e sempre viveu nos arredores da capital, periferias que lhe interessam particularmente. Conta histórias em modo freelance, sobretudo ligadas à área da cultura.

Onun Trigueiros

Onun Trigueiros (n. 1997) considera-se um pintor e colecionador de imagens, um artista multidisciplinar vindo de contextos periféricos inspirados pela comunidade da Linha de Sintra, onde nasceu, cresceu e vive até hoje. Estudou Produção Artística —Gravura e Serigrafia na Escola Artística António Arroio, em Lisboa. Exprime-se através de várias técnicas como pintura, colagem, foto-montagem, serigrafia ou desenho. Promove a convergência entre os universos das artes urbanas e plásticas, contribuindo ativamente para um estabelecimento progressivo no mundo da arte institucional. Através da temática dos “selos”, o artista consolida a sua identidade visual num processo criativo que emerge de antigas coleções de selos, e de um novo olhar sobre a realidade que o rodeia. É membro do coletivo Unidigrazz. Já fez capas de singles, direção de video, cenografia de concertos e equilíbrios de luz para a produção do álbum “Meia Riba Kalxa” de Tristany.

André Serra

André Serra é de Algueirão-Mem Martins e um artista de câmera na mão, na fotografia e no vídeo. Fez parte da redação pop-up que a Mensagem montou em Mem Martins, a propósito do Projeto Narrativas.


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